Redação

A graça e a desgraça da Petrobras

Como correspondente do Oje no Brasil, não é possível passar muitas semanas sem retornar ao tema “Petrobras”. Não vos quero parecer repetitiva e nem quero que o leitor pense que estou a frisar, recorrentemente, a gravidade do assunto. Mas acontece que o volume, em cascata, de novas descobertas que envolvem a maior estatal brasileira é de deixar o mais otimista de cabelos em pé.
Nos últimos dias, além da quantidade de pessoas importantes indiciadas pela Polícia Federal – e a consolidação das certezas de que as maiores empreiteiras do país estão todas envolvidas, até ao pescoço, no esquema de corrupção de proporções indimensionáveis -, as ações da empresa atingiram o menor valor de cotação na bolsa desde 2004.
O furacão maldito, que tem abalado a estatal brasileira, é uma espiral com reações em cadeia cada vez mais escabrosas. Os números chegam a horrorizar. Em apenas 3 meses, o valor da empresa caiu aproximadamente 165 mil milhões de reais (cerca de 50 mil milhões de euros) e as ações, em 2014, já acumulam uma queda de 40%.
Umas das principais razões para isso foi o adiamento da publicação do balaço do 3º trimestre da petroleira. Em novembro, a PricewaterhouseCoopes (PwC), negou-se a chancelar os números da Petrobras.  Esta auditoria, uma das quatro maiores do mundo (Big Four), teme que o seu nome possa ser contaminado pela teia de corrupção da estatal brasileira, uma vez que desde 2012 presta serviços e nunca apontou qualquer irregularidade. Como os desvios milionários parecem ocorrer há muitos e muitos anos, se ela não fizer papel de vilão, neste momento crucial, a sua credibilidade será certamente afetada.
Sem ter para onde se virar, a Petrobras não publicou o balanço na data limite de 14 de Novembro, comprometendo-se a publicar com quatro semanas de atraso, na sexta-feira dia 12 de dezembro. Porém, mais uma vez, os investidores ficaram às escuras em relação aos números trimestrais da empresa. E como a grande maioria dos investidores é fria, não houve perdão na manhã do dia 15. A bolsa de São Paulo já apontava uma enorme queda das ações da petrolífera, quando a bolsa de Nova Iorque abriu, fazendo as ações desabarem mais de 10%.
A maré de má sorte parece não ter fim. Boas previsões para o futuro são mentira. O petróleo, recentemente caiu de forma drástica e não há perspectivas de alta a curto prazo. Com o barril cotado na faixa dos 60 dólares, a menina dos olhos da Petrobras, o pré-sal, diminui cada vez mais a sua rentabilidade. Aliado a este facto, os governos de todo o mundo têm-se comprometido, cada vez mais, com medidas para reduzir os gases de efeito estufa. E tendo como “core business” a produção e distribuição de combustíveis fósseis, a Petrobras rema contra a maré, na contramão das energias renováveis.
Como se não bastasse, na última semana, ainda houve a explosão de mais uma bomba de cunho político na cúpula da estatal. O jornal Valor Econômico, um dos principais diários de económicos do Brasil, publicou uma reportagem exclusiva relatando que a ex-Gerente de Abastecimento, Venina Velosa da Fonseca, relatava desde 2009, à sua Diretoria, fortes indícios de irregularidades. Estes factos recentes, atingiram em cheio a atual Presidente da Petrobras, que se encontra, no momento, em cheque e sob forte pressão para abandonar o cargo.
Aqui no Brasil diz-se que “desgraça pouca é bobagem”. E a desgraça é tanta que já não tem a menor graça. Graça mesmo, só no nome da Presidente da Petrobras. Que tem muito, mas muito que explicar nas próximas semanas, não é Sra. Graça Foster?

Juliana Pereira Martins
Jornalista
Correspondente no Brasil

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