Redação

A Caça

O filme dinamarquês “A Caça”, premiado em Cannes e candidato aos Óscares, é um verdadeiro murro no estômago. A história de um professor acusado de pedofilia é de uma verosimilhança crua, com contornos tão monstruosos, que o espectador chega ao fim da película com a certeza de que já deverá ter cometido inúmeras injustiças na vida. Muitas vezes, com a melhor das intenções.
O filme é um daqueles raros casos em que vê-lo ou não o ver faz toda a diferença nas nossas vidas. “A Caça”, ou “Jagten” – título original -,  semeia em nós o medo da superproteção, faz-nos duvidar de nós e temer os outros. No final, acho que nos torna em pessoas melhores. Pelo menos, àqueles que têm o coração no lugar certo.
Acho que é por tudo o que escrevi acima que o caso recente, de uma “Caça” brasileira me chamou tanto a atenção.
Um homem, monitor de um colégio, foi acusado de abusar sexualmente de três crianças, durante uma aula de Educação Física, em Barueri, na Grande São Paulo. Repugnante, condenável. No momento, o suspeito está preso e aguarda julgamento. Antônio de Assis – assim é o seu nome – nega todos os crimes. Normal. Mas pasmem-se: uma comissão de pais de alunos da escola fez um abaixo-assinado contra a sua prisão. Ou seja, pais de crianças que são colegas das alegadas vítimas, têm a certeza de que o homem é inocente. Dá que pensar, não?
Do lado da acusação, temos três meninas de três anos de idade, que garantem que Antônio de Assis as tocou de forma imprópria. Seja verdade ou mentira, o facto é que existe falta de provas.
O acusado, acredita piamente que a culpa é de uma peça de teatro da escola. Antônio de Assis interpretou o papel de “menino malvado”, que batia em crianças e animais. Para o acusado, é claro como água: as crianças confundiram fantasia com realidade. Ter-se-á a mentira tornado verdade? Ou vice-versa?
O caso trouxe ainda à discussão a capacidade (ou não) das crianças pequenas conseguirem discernir o que é verdade e o que não é. Além disso, até que ponto o depoimento de uma criança pode ser decisivo em tribunal?
Essa é, aliás, uma das armas da defesa, que alega falta de consistência na acusação. A advogada de Assis diz que a denúncia e a prisão foram baseadas apenas nos relatos das crianças e que não houve acompanhamento de um profissional especializado durante o reconhecimento ou depoimento das crianças.
É uma faca de dois gumes. Perante o caso ficamos com a corda na garganta. Temos a certeza que, neste momento, já é impossível fugir da injustiça. A injustiça que já se fez, com a prisão de um homem inocente. Ou a injustiça, que ainda poderá ser feita, se realmente tiver havido abuso sexual e a falta de provas – aliada à opinião de um grupo de pais – acabar levando os tribunais a decidirem a libertação de um criminoso.
As crianças, principalmente com esta idade, possuem uma imaginação altamente sugestionável. No filme dinamarquês (alerta spoiler!) a criança é levemente persuadida a relatar que fora abusada. No dia seguinte, ela já acredita convictamente na inverdade elaborada pela sua mente e reforçada por quem a rodeia.
No caso brasileiro, talvez este seja o ponto-chave da questão. Os primeiros interrogatórios às crianças não foram feitos por profissionais qualificados. Portanto, a verdade poderá ter sido eliminada para sempre, dando lugar a uma versão sugestionada e criada na mente das crianças. Por outro lado, os depoimentos podem ser 100% verdadeiros. Mas, em quem acreditar?
Mais aflitivo do que a injustiça é a eterna dúvida, que independentemente do resultado do julgamento, jamais será desfeita.

Juliana Pereira Martins
Jornalista. Correspondente no Brasil

Relacionado