A estratégia de António Costa para chegar a S. Bento tem sido interessante de assistir. Depois de afastar António José Seguro com a força e a legitimidade que só a melhor democracia musculada pode oferecer, mandou calar os socialistas em relação à detenção preventiva do homem que liderou o partido entre 2004 e 2011 – e que, já agora, levou o PS a obter a primeira maioria absoluta e foi primeiro-ministro entre 2005 e 2011. Aliás, António Costa foi seu ministro até 2007, altura em que que conseguiu sair a tempo do barco comandado por esse socialista cujo nome não pode ser pronunciado. Do congresso do PS retenho o momento da homenagem ao cante alentejano. Enquanto o coro alentejano cantava, pensava nesse ex-primeiro-ministro socialista, sozinho, a passar frio numa cela em Évora. A seguir, António Costa piscou o olho à esquerda. Falou em entendimentos para o poder com os partidos à esquerda do PS. Na Assembleia da República, esses partidos são o PCP, Verdes e Bloco de Esquerda. São organizações que nunca deram grandes garantias de estabilidade. Basta ver que o ex-primeiro-ministro, o tal preso em Évora com o número 44, ainda poderia ter sido primeiro-ministro até ao ano passado caso o Bloco de Esquerda tivesse feito em 2011 o que Costa quer que faça no futuro: apoiar um governo PS independentemente das políticas que os socialistas queiram seguir. Assim, Costa convidou um ex-eurodeputado do Bloco de Esquerda para assistir ao congresso como líder de um novo partido. Estamos a falar de Rui Tavares, do Livre, que quer ainda trazer para o seio de uma coligação do PS outros ex-bloquistas como Ana Drago e Daniel Oliveira. Estas piscadelas de olho à esquerda valeram do eurodeputado centrista Nuno Melo um aviso de que o PS estava a aliar-se à extrema-esquerda. Por sua vez, Rui Tavares garantiu que o Livre não vai ser para o PS aquilo que o CDS é hoje para o PSD. É uma posição que para um historiador como Tavares mostra fracos conhecimentos da História. Com quem é que Mário Soares fez a primeira aliança parlamentar após as eleições de 1976? Foi à esquerda com o PCP? Foi com o PSD, o segundo partido mais votado? Não. Foi com o CDS. Sim, o CDS foi o primeiro parceiro do PS no pós-25 de Abril. Assim, se quisermos usar a analogia de hoje, poderíamos dizer que, em 1976, Rui Tavares teria de dizer que o Livre não vai ser para o PSD aquilo que o CDS é para o PS.
O Livre é um Bloco de Esquerda II, um partido mais dócil para os socialistas. O Bloco de Esquerda, que agora nem liderança tem – Catarina Martins é uma “porta-voz” que diz não o que pensa mas o que pensaram para ela dizer – é cada vez mais um PCP II. E o PCP e os Verdes são o que são e nunca o deixarão de ser.
No dia seguinte ao congresso do PS onde piscou à esquerda, António Costa virou à direita. É fácil reconhecer o carro de António Costa quando este o conduz: é aquele que mete o pisca para a esquerda e depois segue para a direita. No dia 1 de dezembro, António Costa esteve nos Restauradores com um ex-líder do CDS ao seu lado a defender o regresso do feriado do dia da Restauração.
Ribeiro e Castro seria uma pessoa do CDS com quem António Costa poderia conversar. Depois, ao caminhar pela rua, o autarca respondeu a perguntas dos jornalistas sobre o lançamento do livro de Rui Rio, o putativo futuro líder do PSD, com quem Costa reconheceu ter boas relações do tempo em que o social-democrata presidia à segunda câmara municipal do país. Foi mais viragem à direita. Não creio que o Livre venha a ser o CDS do PS. O mais provável será o PS ter o PSD como o seu CDS.
Frederico Duarte Carvalho
Jornalista e escritor