Azeite Gallo: Brasil vale três vezes mais do que o mercado português

O Azeite Gallo é líder no Brasil com uma quota de 32%, representando 65% do volume de negócios. Em 2025, faturou 200 milhões de euros e conquistou 70 milhões de consumidores brasileiros. Criou ainda uma marca institucional, a Casa Gallo, para chegar a novos mercados.

Azeite Gallo: Brasil vale três vezes mais do que o mercado português
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O azeite Gallo começou a “cantar” em 1860. A explicação para o nome vem de uma história contada pela família: Victor Guedes, filho, relatava que o pai se terá inspirado no canto de um galo, ouvido pela manhã ao abrir a janela, para batizar o produto. Como era de origem espanhola, registou a marca com duas letras “L” em 1919. Nascia assim, em Abrantes, a marca portuguesa de bens de consumo com maior penetração no Brasil e no mundo. “Chega a 34 milhões de lares, segundo dados da Kantar Worldpanel”, afirma, orgulhoso Pedro Gonçalves, diretor de marketing global da Gallo, acrescentando: “Por detrás deste percurso de sucesso estão duas gerações de administradores visionários — Victor Guedes, pai e filho — a par da família Soares dos Santos.”

Atualmente, a marca senta-se à mesa de 60 países, sendo que o Brasil representa 65% do negócio do azeite Gallo. “Vende-se três vezes mais do que em Portugal e, em 2025, faturou acima dos 200 milhões de euros.” Atualmente, a marca é líder de mercado no Brasil com mais de 30% de quota de mercado, segundo a Nielsen “Vendemos 56 milhões de garrafas por ano”, conta Pedro Gonçalves.
Trata-se de uma categoria com grande potencial de crescimento, uma vez que apenas 50% dos lares brasileiros têm azeite em casa, e apenas dois em cada dez, ou seja, 20% cozinham com óleo de oliveira”, revela, adiantando ainda que em Portugal, o consumo anual é de 10 litros por lar, enquanto no Brasil, se situa nos 1,7 litros. No entanto, 70 milhões de brasileiros já consomem azeite Gallo.
Por ser o quarto maior consumidor de azeite no mundo, e também devido ao seu enorme potencial de crescimento, o diretor de marketing global da marca, diz que o mercado tem vindo a ser disputado por outras marcas portuguesas, como a Andorinha, que já ocupa a segunda posição no ranking, bem como tem atraído os olhares de grandes produtores e grupos industriais europeus, argentinos e chilenos.
“Há de fato um enorme potencial neste mercado, mas é fundamental educar o consumidor, sobretudo devido à forte concorrência dos óleos de soja e de milho”, explica. Além disso, o preço do azeite é mais caro no Brasil; 500 ml custam cerca de seis euros. Este valor deve-se sobretudo aos custos de transporte e às tarifas, que deverão diminuir com o acordo do Mercosul. Ainda assim, a marca tem vindo a investir uma média de cinco milhões de euros nesta vertente educativa. “Contratámos duas chefs brasileiras conceituadas, ⁠Renata Vanzetto e Paola Carrosela para demonstrar como o azeite pode ser utilizado na culinária”, conta.

 

Não é só enviar caixas…
Porém, para criar uma marca com esta força noutro país é necessário estar presente. “O Victor Guedes, filho nasceu no Brasil e os líderes de Portugal estão sempre a viajar até aqui”, afirma Pedro Gonçalves, acrescentando que a empresa tem uma estrutura física em São Paulo. “São 69 brasileiros e um português, eu”, diz, a rir na entrevista concedida ao jornal económico por telefone dentro de um táxi, enquanto se apressava para o aeroporto para mais uma viagem de visita a clientes. “É fundamental conhecer a cultura e compreender o consumidor brasileiro. Esta difere de estado para estado. Além disso, é fundamental que a marca seja um “desenvolvedor” e não “um exportador”. Não basta enviar caixas com o produto. É preciso viver a cultura do país”, desvenda a fórmula do sucesso.
A história da Gallo começou com uma pequena atividade comercial dedicada à exportação de produtos portugueses — entre os quais azeites, azeitonas em conserva, vinhos, castanhas e frutos secos — sobretudo para o Brasil e Venezuela. Hoje lidera.

De Abrantes para o mundo
O “ouro líquido” continua, no entanto, a ser produzido e embalado em Abrantes, no distrito de Santarém, no local onde outrora se erguia o primeiro lagar onde o fundador comprava o azeite. No início, era embalado em latas no armazém do Poço Bispo, em Lisboa, mas mais tarde com o crescimento do negócio, o espaço tornou-se pequeno. Em 1938, a família Guedes adquiriu as instalações da União Industrial Lda, empresa fundada em 1860 na cidade de Abrantes.


A aquisição incluiu armazéns de azeite, um lagar, uma refinaria, indústria de carnes e salsicharia, e uma saboaria. A partir de então, a empresa Victor Guedes & Companhia passou a enviar o azeite de Abrantes para o Brasil e para o resto do mundo. O momento correu de feição devido à Guerra civil em Espanha (1936-1939), que fez com que diminuíssem as exportações espanholas para as Américas.
Em 1969, com a subida ao poder de Victor Guedes, filho, a marca que nascera vocacionada para o mercado externo, apostou em Portugal com o objetivo de entrar no mercado doméstico nacional, onde até então só vendia “Azeite Extra Virgem”. Para isso fizeram um investimento em termos de modernização e abertura de novas instalações. Porém, dois anos consecutivos de cheias colocaram a empresa em dificuldades, nomeadamente com a perda de parte do volume de exportação.
Foi no restaurante, O Polícia, junto ao jardim da Gulbenkian, em Lisboa que durante um almoço, o Sr. Soares dos Santos, fundador da Jerónimo Martins ficou a par da má situação financeira da empresa e convenceu a Unilever a comprar a Victor Guedes e a salvar marca. “A Gallo era a principal empregadora em Abrantes, e tinha um enorme potencial em mercados emergentes, aliás o que se veio a provar”, diz Pedro Gonçalves.
Após longas negociações, a 10 de novembro de 1989, a FIMA — uma joint venture entre a Unilever e o grupo Jerónimo Martins — comprou a Victor Guedes filho, focando o negócio no azeite, abandonando os restantes.
A sociedade Gallo Worldwide foi constituída a 3 de julho de 2009, na sequência da cisão da Unilever Jerónimo Martins. A empresa ficou com uma estrutura acionista dividida entre o grupo anglo-holandês e o grupo de distribuição português. Atualmente, o capital da empresa mantém-se repartido, sendo controlado pela Unilever, através da Brook Bond South India States Limited, e pela Monterroio, uma subsidiária da Sociedade Francisco Manuel dos Santos, por intermédio da Monvendo Industries JMDB – Representação e Distribuição de Marcas.
Passados tantos anos, o Brasil volta a ser prioridade da Gallo. Em 2022, lançaram uma edição especial e limitada de azeite Gallo Extra Virgem Especial Brasil, em celebração dos 200 anos de independência do Brasil. No entanto, no mapa já estão desenhadas outras geografias onde a Gallo pretende despertar para o consumo de azeite. Por isso, em 2025, criaram a Casa Gallo, que, após 160 anos, ousou lançar novos produtos e promete continuar a “cantar” ao redor do mundo.

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