André Macedo

Bi Sines

Sines tem espaço de sobra para acolher as novas fábricas espertas e tem os cabos submarinos que levam esta informação da Europa às diferentes Américas e a África, o que a converte na genuína porta da frente digital da UE.

Sines é como aquele futebolista que promete um futuro extraordinário, mas ano após ano a boa nova não se confirma. As expectativas depositadas sobre os ombros do porto de águas profundas – duas palavras grávidas de esperança, como se bastassem para atrair o interesse das empresas globais – nunca foram realmente materializadas. O mito era esse: Sines seria um hub logístico europeu, uma espécie de Roterdão do Sul, com montanhas, pirâmides e torres de contentores a perder de vista. A verdade é que o porto de Sines, apesar do evidente esforço das suas equipas de gestão, nem na Península Ibérica é dominador: Valência ocupa esse lugar a uma distância muito confortável – movimenta três vezes mais carga de contentores. Só um país delirante poderia acreditar que sem ligação por autoestrada – está a ser feita só agora e aos bocadinhos, com um longo prazo de execução – e sem comboio como deve ser (rápido, não uma tartaruga), fosse possível criar um hub logístico. E no entanto tempo não faltou para concretizar a ideia.

O projeto de Sines já tem 54 anos, foi lançado por Marcelo Caetano, mas nenhum governo soube dar-lhe os instrumentos fundamentais para se tornar competitivo. Felizmente, existem Galp e EDP, senão até industrialmente Sines teria estagnado. A coisa estava mais ou menos nestes termos até o mundo perder a cabeça com a Inteligência Artificial e os monumentais centros de dados que a fazem pensar e trabalhar. Ora bem, Sines tem espaço de sobra para acolher estas novas fábricas espertas e tem os cabos submarinos que levam esta informação da Europa às diferentes Américas e a África, o que a converte na genuína porta da frente digital da UE. Tem mais uma coisa a seu favor: o relativo sossego dos ativistas que, noutras partes do mundo, combatem com ferocidade estas infraestruturas que consomem energia como se não houvesse amanhã. Em Portugal felizmente não é assim. Recebemos de braços abertos estes investimentos e queremos mais – e mais virão, porque o negócio tem uma lógica de manada. Na realidade, até a parte industrial tem ganho investimentos. Os suecos da Stegra vão aplicar 3,3 mil milhões de euros para produzir aço verde; e há mais, como a unidade de baterias para carros da CALB (chinesa), que meteu dois mil milhões na mesa, além da expansão das unidades petroquímicas da Repsol, outro negócio de cifrões.

E pronto: foi assim que o futuro sempre adiado de Sines entrou de repente na Liga dos Campeões assente num tripé: centros de dados que são como as cerejas, a parte industrial – com músculo na área da energia –, em crescimento evidente e, finalmente, o negócio do porto (logística), que acaba por beneficiar do crescimento exponencial das outras duas áreas, além de dentro de um par de anos ter finalmente a mais aguardada autoestrada do mundo. É por esta razão que hoje em Sines só se fala em bis. O bi de bilião (mil milhões) é a escala, a moeda padrão da novíssima capital económica do Sul. Há bis a surgir por toda a parte. O que falta então para que tudo corra bem? Falta repensar e redesenhar a cidade, dar-lhe a habitação e todos os serviços que hoje não tem – e para isso precisamos que o Estado, desta vez, faça o que tem a fazer em tempo útil e não com 54 anos de atraso. Trazer os investimentos é vital, mas depois é preciso segurá-los. Será desta que Sines se torna realmente um hub global?

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