É um dos pontos nevrálgicos do sistema energético mundial. Pelo Estreito de Ormuz passa diariamente mais de 30% do petróleo consumido em todo o mundo: 13 milhões de barris. Mais: por aqui também passa um quinto de todo o gás consumido globalmente.
O bloqueio do estreito entre o Golfo Pérsico e o Mar Arábico é um sério risco para a economia global. Há seis meses, a tensão entre os EUA e o Irão aumentou este risco. Agora, volta às notícias com uma eventual intervenção norte-americana no país.
Quem exporta por este estreito? Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait, Qatar, Bahrain e o próprio Irão, que enviam tanto crude como gás natural liquefeito (GNL) para todo o mundo.
Num cenário extremo, de bloqueio do estreito, os preços de petróleo podem registar uma subida de dois dígitos.
“O receio de um bloqueio vai levar o preço do petróleo a subir alguns dólares, mas se for totalmente fechado pode resultar numa subida de 10 a 20 dólares por barril”, aponta Andy Lipow da Lipow Oil Associates.
O barril de Brent estava a subir 0,3% na tarde de segunda-feira para 63,5 dólares.
O Irão produz atualmente três milhões de barris por dia – três vezes mais do que a Venezuela – exportando dois milhões de barris. O nível de produção corresponde a cerca de 3% da produção global atual.
O mercado mundial de petróleo regista um excesso de oferta: 2,5 milhões de barris a mais por dia que deverão aumentar para três milhões em fevereiro e março, segundo dados da Kpler.
Há 500 anos, os portugueses combateram ferozmente na ilha de Ormuz, localizada neste estreito entre a Arábia Saudita e o Irão. Inicialmente, Afonso de Albuquerque falhou a sua conquista após a traição de três capitães do seu exército. Regressou mais tarde e conquistou a ilha (atual Irão), onde foi construída a fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, cujas ruínas ainda lá permanecem, vigiando silenciosamente os petroleiros que atravessam o estreito.
Na Casa Branca, Donald Trump tem muitas possibilidades em cima da mesa como resposta à repressão que o regime de Teerão está a aplicar aos protestos internos.
Mas um ataque americano vai ter implicações sérias no setor energético mundial, avisam os peritos.
“A disrupção do estreito de Ormuz pode causar uma crise no setor global de petróleo e gás”, disse à “CNBC”, o analista Saul Kavonic da MST Marquee, que alerta que o regime iraniano está disposto a ir longe, se ficar encurralado contra a parede.
O caso do Irão é diferente do da Venezuela, pois a sua produção e exportação é superior ao do país latino-americano. Uma disrupção pode levar os refinadores chineses a procurar alternativas.
Uma intervenção no Irão vai ter “riscos materialmente superiores” dado o volume de crude e de produtos refinados, segundo o presidente do Rapidan Energy Group, acreditando que existe 70% de possibilidade de ataques seletivos no Irão.
No entanto, um encerramento do estreito ameaça provocar uma resposta irada por parte do EUA e dos seus aliados com o objetivo de normalizar o trânsito.
O presidente Trump exerceu uma forte pressão sobre a Venezuela, recorrendo a sanções e bloqueios para encurralar o regime venezuelano antes de capturar Nicolas Maduro.
Mas o caso do Irão é diferente: primeiro, a distância é maior; depois, a situação geopolítica no Médio Oriente é mais complexa do que na América Latina.
“A prioridade de Trump neste momento parece ser consolidar o poder dos EUA no hemisfério Ocidental”, disse Muyu Xu analista da Kpler.
O regime de Teerão tem o objetivo de produzir cerca de seis milhões de barris diários até 2031.