Os modelos-base são o coração da inteligência artificial generativa. São diamantes em bruto que, quando adaptados, dão origem às ferramentas que usamos no dia a dia, tais como assistentes virtuais, tradutores ou serviços de pesquisa.
Sucede que o acesso a estes modelos é quase sempre limitado de algum modo, condicionado por interfaces controladas pelos fornecedores. Imagine que os modelos-base de IA são como clubes luxuosos e exclusivos. Para entrar, precisa de um convite, em si já difícil de obter. E, mesmo com um convite na mão, não consegue aceder à maioria das salas do clube.
Groucho Marx dizia: “Nunca aceitaria fazer parte de um clube que me aceitasse como sócio.” No mundo da IA, talvez os clubes sejam mais elitistas – e nem sequer considerem novos membros –, tenham as salas vedadas ou imponham regras tão restritivas que estragam a festa a todos.
A Autoridade da Concorrência (AdC) tem alertado para os vários riscos da concentração de poder no setor da inteligência artificial. A questão do acesso a modelos-base é um destes riscos, como foi recentemente publicitado.
A abertura dos modelos-base é essencial para estimular a inovação e a concorrência. Se o clube for aberto, um maior número de empresas poderia usar esses modelos para criar novos produtos baseados em inteligência artificial, gerando benefícios para os consumidores e para as empresas. No entanto, os clubes de IA raramente são democráticos: alguns são abertos apenas a quem aceita regras restritivas, outros nem sequer admitem novos membros e a maioria só dão acesso a uma sala.
Porque é isto um problema? Porque a inovação depende do acesso. Se só alguns puderem entrar na sala VIP dos modelos-base, o mercado torna-se menos competitivo e mais concentrado. Por exemplo, um fornecedor pode permitir que terceiros usem o seu modelo, mas de forma limitada, ao passo que o mesmo fornecedor tem acesso completo. Dito de outra forma, o dono do clube ficará com acesso pleno ao espaço, mas os clientes ficam circunscritos a uma sala. Este cenário limita drasticamente a criatividade e a oferta no mercado.
E há ainda o risco de estratégias de lock-in. Alguns clubes podem começar por abrir as portas a todos, criando uma rede de utilizadores, para depois as fecharem, tornando-se ainda mais exclusivos.
Esta tática permite ganhar poder de mercado – torna-se o clube onde todos vão. Com esse poder de mercado, os fornecedores têm maior facilidade em entrar e proteger-se em mercados adjacentes.
A dificuldade em monetizar modelos abertos constitui também um entrave. Criar um modelo-base requer investimentos enormes, mas disponibilizá-lo a todos de forma aberta nem sempre compensa. Os fornecedores podem, por isso, sentir-se tentados a impor limitações ou mesmo a desistir de desenvolver modelos maiores e mais sofisticados. Para completar o quadro, o acesso à “nuvem” (“cloud”) – onde estes modelos funcionam – também pode ser controlado pelos grandes fornecedores de serviços, criando mais barreiras para os mais pequenos.
Para evitar que o mercado da IA se torne um clube reservado aos gigantes tecnológicos, a AdC defende que é crucial garantir igualdade de acesso aos modelos-base.
No final, o objetivo é simples: assegurar que a IA não seja apenas para os poucos que controlam as chaves dos modelos-base, mas sim uma ferramenta para benefício de todos. Com um setor tecnológico em rápida transformação, cabe às entidades reguladoras, às empresas e à sociedade encontrar o equilíbrio entre inovação, acesso e concorrência. Apenas desta forma será possível garantir que a revolução da IA é um benefício partilhado e partilhável por todos.
Aliás, como o humor do hilariante comediante das sobrancelhas e charuto icónicos…