Francisco Miranda Rodrigues, Bastonário da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Carta aberta ao Presidente da República, no fim do meu último mandato

Ao olhar retrospectivamente, consciente do potencial viés do meu olhar, julgo termos contribuído para que as pessoas em Portugal tenham hoje mais e melhor acesso aos psicólogos do que há 10 ou 20 anos.

Por uma última vez, enquanto Bastonário, dirijo-me a S. Exa., agora que estou a finalizar o meu segundo e último mandato. (…)

O início de uma nova legislatura trouxe a necessidade de intervenção pública imediata sobre as anunciadas alterações aos trabalhos em curso no SNS. Desde o primeiro momento alertámos para os enormes riscos de uma alteração precipitada na liderança da Direção Executiva do SNS. O que se verificou em seguida foi concordante com os nossos receios. Felizmente, em aspectos mais específicos relacionados com os psicólogos foram mantidos os compromissos e trabalhos em curso.

Todavia, não é de mais reafirmar o tempo perdido neste processo. Apesar disso, os concursos de psicólogos, anteriormente previstos, para as Unidades Locais de Saúde (ULS) começaram a ser abertos mais recentemente. Foi também homologado o Regulamento de Estágios Profissionais da OPP no SNS. (…)

Os cidadãos que têm uma melhor condição sócio económica têm hoje uma ampla cobertura de seguros de saúde e alguma comparticipação da ADSE, agora um pouco melhorada em ambos os regimes, convencionado e livre, e já sem a anacrónica prescrição médica obrigatória para acesso a essa comparticipação em qualquer uma das modalidades de acesso. (…) A isto acresce o cheque-psicólogo, dirigido a jovens estudantes do ensino superior, complementando transitoriamente a oferta escassa existente noutros serviços, melhorando também por esta via o acesso aos serviços dos psicólogos. (…)

Depois das alterações aos estatutos terem criado alguns obstáculos novos à possibilidade de realização de certos estágios de cariz mais liberal (paradoxal numa profissão como a nossa), devido à forma de pagamento não prever excepções, nem a possibilidade de flexibilidade na duração do estágio, deparamo-nos sem aviso, sem diálogo e sem consciência, com a alteração da duração do financiamento dos estágios pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) a ser reduzida de 9 para 6 meses, sem excepções que se apliquem ao nosso estágio.

Relembro que o tempo de duração do actual estágio profissional da OPP está nos limites mínimos para o cumprimento do diploma europeu de psicologia – EUROPSY. Tendo em conta que mais de 90% dos estágios são realizados nos sectores social e privado, os riscos de redução de oportunidades são consideráveis. (…) considero pouco dignificante do exercício de um cargo governativo é a atitude de total silêncio face a estas exposições e inúmeros pedidos de audiência à Sra. Ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, desde o momento em que tomou posse e que passados 7 meses continuam sem resposta.

Total silêncio, num desrespeito para com a instituição pública que represento. Também por isso está prejudicado o nosso objectivo de conclusão do processo que iniciámos com vista à alteração legislativa de saúde e segurança no trabalho, com alterações como a inclusão do psicólogo do trabalho nas equipas de saúde ocupacional. Apenas agora, um ano depois do previsto, foi para consulta pública o Livro Verde do Futuro da Segurança e Saúde no Trabalho. (…)

Ao olhar retrospectivamente, consciente do potencial viés do meu olhar, julgo termos contribuído para que as pessoas em Portugal tenham hoje mais e melhor acesso aos psicólogos do que há 10 ou 20 anos. Hoje há mais literacia da população neste domínio. Hoje as pessoas sabem mais e melhor qual ou quais podem ser os papéis dos psicólogos na sociedade. Hoje a profissão é mais reconhecida e até significativamente mais valorizada em alguns sectores. Hoje, na Europa em especial, mas também noutras partes do Mundo, a nossa Ordem contribuiu e até liderou a acção conjunta dos psicólogos para as causas societais do nosso tempo. Não estamos isolados, nem se podem resolver certos problemas apenas trabalhando dentro das nossas fronteiras.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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