Um estudo recente da ONG internacional Global Witness concluiu que as toneladas de dióxido de carbono emitidas desde a Assinatura do Acordo de Paris, em 2015, pelas mais de cem petrolíferas presentes na COP29, poderão causar 17 milhões de mortes por calor.
A análise da organização sediada em Washington baseia-se na métrica de custo de mortalidade do carbono (MCC, na sigla em inglês) concebido por académicos da Universidade de Columbia e que estima o número de mortes causadas pela emissão de uma tonelada adicional de CO2 neste século. De acordo com esse modelo, haverá 226 mortes por excesso de calor em todo o mundo entre 2020 e 2100 por cada milhão de toneladas de carbono emitidas em 2020.
De acordo com a ONG, as cinco maiores petrolíferas ocidentais Shell, BP, TotalEnergies, ExxonMobil e Chevron produziram, desde a assinatura do Acordo de Paris, petróleo e gás suficientes para causar 3,7 milhões de mortes por calor.
Ainda segundo a organização fundada em 1993, desde 2015, as emissões de carbono da produção de petróleo e gás das 104 empresas que estiveram representadas nas três últimas cimeiras do clima ascendem a 76 mil milhões de toneladas, de acordo com a investigação da Global Witness.
“Estes números horríveis mostram uma ligação direta entre as emissões da indústria petrolífera e as mortes por calor a que assistimos atualmente. A menos que os governos acelerem a transição para sistemas de energia limpa, esta carnificina alimentada por combustíveis fósseis vai agravar-se”, diz ao Jornal Económico (JE) Dominic Eagleton, senior campaigner da Global Witness, que defende o afastamento desta indústria da definição de políticas sobre alterações climáticas.
“Apesar das montanhas de provas que demonstram o sofrimento e a morte causados pelos combustíveis fósseis, as empresas petrolíferas e de gás estão a bloquear as políticas que visam reduzir as emissões, para poderem continuar a obter milhares de milhões de lucros com os produtos mortais que vendem. Os grandes poluidores deveriam ser expulsos da definição de políticas sobre alterações climáticas, à semelhança da forma como as negociações da ONU sobre saúde pública estão agora protegidas dos lobbies do tabaco”, defende o mesmo responsável.
A análise foi divulgada na semana passada, na véspera do encerramento da COP29. “As emissões de combustíveis fósseis são, de longe, o principal fator que contribui para a crise climática, que está a tornar as ondas de calor mais frequentes, mais intensas e mais duradouras. Os países mais pobres, que estão a suportar o peso das condições meteorológicas extremas, são obrigados a suportar os custos da destruição do clima, apesar de serem os menos responsáveis e os que menos podem pagar”, diz a ONG na mesma nota.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o calor está a matar mais de 175 mil pessoas, todos os anos, na Europa.
Uma investigação publicada em agosto na revista científica britânica The Lancet Public Health revelou que as mortes causadas pelo calor podem triplicar na Europa até 2100, caso se mantenham as políticas climáticas em vigor. As mortes provocadas pelo calor poderão aumentar das atuais 43.729 para 128.809 até ao final do século.
Olhando para fora da Europa, em abril a região do Sahel e da África Ocidental foram afetadas por uma vaga de calor mortal, com temperaturas superiores a 45°C, que não teria sido possível sem as alterações climáticas de “origem humana”, de acordo com uma análise de uma equipa internacional de cientistas climáticos do grupo World Weather Attribution. Segundo os autores do relatório, apesar de as vagas de calor serem comuns no Sahel naquela época do ano, as temperaturas de abril teriam estado 1,4°C do registado “se os seres humanos não tivessem provocado o aquecimento global através da queima de combustíveis fósseis”-.