João AB da Silva, Economista e Investidor

Vidinha de iniquidade

Era tudo ilegal. Plantar no quintal com intuitos comerciais? Sem registo de atividade agrícola, licenciamento sanitário, análises certificadas, registos no sistema de controlo alimentar...?

Ao contrário do seu primo, Albano, que trabalhava para o município, Augusto não era ninguém. Nem queria ser. Apenas se julgava um homem honesto, cumpridor e empreendedor. Só queria, assim, que o deixassem em paz na sua vidinha.

Montou um restaurante ao lado de casa, numa praia perto de Vila do Bispo, e logo a sua passada de peixe foi percorrendo os ouvidos mais gulosos da região. O segredo de Augusto era a qualidade e frescura de tudo quanto punha sobre a mesa. O tomate, a cebola, a alface, a batata, vinham do seu quintal, enquanto o mar lhe dava o melhor peixe e marisco todas as manhãs. Filho e neto de pescadores, conhecia a arte como ninguém. Pescava de barco, na praia, nas rochas, nos pontões, em qualquer lado onde metesse a rede ou o anzol, lá vinha recheado de mercadoria.

Além da caldeirada, os seus clientes deliciavam-se era com os percebes. Parece que vinham diretamente da rocha para o prato. Até ao dia em que um freguês lhe deu um arrepio:

– Pois é, caro Augusto, as melhores coisas nesta vida são ilegais.

– Ilegais?… como, ilegais? O que é que aqui é ilegal?

Era tudo, evidentemente. Plantar no quintal com intuitos comerciais? Sem registo de atividade agrícola, licenciamento sanitário, análises certificadas, registos no sistema de controlo alimentar e dos detalhes da produção, colheita e venda? Que horror! E o peixe, e os percebes? Isso então, pior ainda. Sem passar na Lota de Sagres? Sem cumprir rigorosamente as normas de manipulação, transporte e armazenamento de modo que estejam mesmo mortos antes de serem consumidos? Sem todas as certificações específicas e inspeções regulares necessárias, e registos de atividade comercial de venda de peixe e marisco? Abominável!

Ficou chocado. Jamais pensara na quantidade de crimes que, há anos, cometia. Mais valia trazer chocolate de Marrocos… transgrediria menos e ganharia mais. Ainda ponderou, mas não. Chega de má vida, decidiu. Estava na altura de renunciar ao crime e lavar as mãos ensanguentadas de tantas caldeiradas e percebes clandestinos.

Só precisava de uma nova ideia. E assim foi. Reparou num vizinho que levava carradas de turistas a passear num barco velho, a cair de podre. Já sabia o que fazer. Vendeu o que tinha e comprou um barco novinho em folha, confortável, espaçoso, moderno e ecológico – com motor de baixo consumo, minimizando o impacto ambiental. Num ápice, deu cabo da concorrência. Encheu-o de camones a rebentar pelas costuras. Um êxito fenomenal. Até ao dia que um inglês lhe deu outro arrepio:

– You know, dear Augusto, the best things in life are illegal.

Como? Outra vez? Não podia ser! Desta vez tinha licenciamento de embarcação, licença de operação, seguro, tripulação qualificada, e mais um role de certificações e inspeções… Tudo em ordem, achava ele. Só que não. Descobriu que para levar mais que dois ou três turistas numa embarcação nova é um cabo das tormentas.

Não há limites para o absurdo. Por mais velha, insegura e poluente que fosse, a embarcação do seu vizinho obedecia a normas antigas, por isso é que tantos operadores faziam o mesmo. Para quê comprar em novo se o antigo já vem legalizado, leva albardas de camponês e está sempre a faturar?

Foi a gota de água. Nunca imaginou que ter uma vidinha lhe trouxesse tantas dores de cabeça. Estava na hora de ser alguém, tal como o seu primo, Albano, que prontamente o ajudou. Arrependido por ter levado toda uma vida de iniquidade, Augusto tornou-se finalmente um homem cumpridor e honesto. E, até certo ponto, continua ligado ao empreendedorismo. É inspetor municipal.

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