Ao contrário do seu primo, Albano, que trabalhava para o município, Augusto não era ninguém. Nem queria ser. Apenas se julgava um homem honesto, cumpridor e empreendedor. Só queria, assim, que o deixassem em paz na sua vidinha.
Montou um restaurante ao lado de casa, numa praia perto de Vila do Bispo, e logo a sua passada de peixe foi percorrendo os ouvidos mais gulosos da região. O segredo de Augusto era a qualidade e frescura de tudo quanto punha sobre a mesa. O tomate, a cebola, a alface, a batata, vinham do seu quintal, enquanto o mar lhe dava o melhor peixe e marisco todas as manhãs. Filho e neto de pescadores, conhecia a arte como ninguém. Pescava de barco, na praia, nas rochas, nos pontões, em qualquer lado onde metesse a rede ou o anzol, lá vinha recheado de mercadoria.
Além da caldeirada, os seus clientes deliciavam-se era com os percebes. Parece que vinham diretamente da rocha para o prato. Até ao dia em que um freguês lhe deu um arrepio:
– Pois é, caro Augusto, as melhores coisas nesta vida são ilegais.
– Ilegais?… como, ilegais? O que é que aqui é ilegal?
Era tudo, evidentemente. Plantar no quintal com intuitos comerciais? Sem registo de atividade agrícola, licenciamento sanitário, análises certificadas, registos no sistema de controlo alimentar e dos detalhes da produção, colheita e venda? Que horror! E o peixe, e os percebes? Isso então, pior ainda. Sem passar na Lota de Sagres? Sem cumprir rigorosamente as normas de manipulação, transporte e armazenamento de modo que estejam mesmo mortos antes de serem consumidos? Sem todas as certificações específicas e inspeções regulares necessárias, e registos de atividade comercial de venda de peixe e marisco? Abominável!
Ficou chocado. Jamais pensara na quantidade de crimes que, há anos, cometia. Mais valia trazer chocolate de Marrocos… transgrediria menos e ganharia mais. Ainda ponderou, mas não. Chega de má vida, decidiu. Estava na altura de renunciar ao crime e lavar as mãos ensanguentadas de tantas caldeiradas e percebes clandestinos.
Só precisava de uma nova ideia. E assim foi. Reparou num vizinho que levava carradas de turistas a passear num barco velho, a cair de podre. Já sabia o que fazer. Vendeu o que tinha e comprou um barco novinho em folha, confortável, espaçoso, moderno e ecológico – com motor de baixo consumo, minimizando o impacto ambiental. Num ápice, deu cabo da concorrência. Encheu-o de camones a rebentar pelas costuras. Um êxito fenomenal. Até ao dia que um inglês lhe deu outro arrepio:
– You know, dear Augusto, the best things in life are illegal.
Como? Outra vez? Não podia ser! Desta vez tinha licenciamento de embarcação, licença de operação, seguro, tripulação qualificada, e mais um role de certificações e inspeções… Tudo em ordem, achava ele. Só que não. Descobriu que para levar mais que dois ou três turistas numa embarcação nova é um cabo das tormentas.
Não há limites para o absurdo. Por mais velha, insegura e poluente que fosse, a embarcação do seu vizinho obedecia a normas antigas, por isso é que tantos operadores faziam o mesmo. Para quê comprar em novo se o antigo já vem legalizado, leva albardas de camponês e está sempre a faturar?
Foi a gota de água. Nunca imaginou que ter uma vidinha lhe trouxesse tantas dores de cabeça. Estava na hora de ser alguém, tal como o seu primo, Albano, que prontamente o ajudou. Arrependido por ter levado toda uma vida de iniquidade, Augusto tornou-se finalmente um homem cumpridor e honesto. E, até certo ponto, continua ligado ao empreendedorismo. É inspetor municipal.