Uma história alternativa da estagnação portuguesa

A ideia de que o século XXI marca o início de um período negro para a economia depende do indicador utilizado. Quando se troca o PIB pela produtividade, a evolução torna-se muito menos bizarra do que parecia à primeira vista.

Uma história alternativa da estagnação portuguesa
bandeira portugal

Se o leitor tiver interesse por macroeconomia, então provavelmente conhece bem a história seguinte: nos anos 90 do século XX, a economia portuguesa cresceu muito e aproximou-se dos países mais avançados da Europa. Mas subitamente, a partir de 2000, a convergência foi interrompida. Portugal perdeu fôlego, a criação de riqueza estiolou e a economia entrou no período de crescimento mais baixo desde a II Guerra Mundial.

É difícil discordar da ideia de que Portugal entrou numa Grande Estagnação no século XXI. O produto interno bruto (PIB), a medida mais abrangente da vitalidade económica de um país, passou de um crescimento médio acima dos 3% para valores na casa de 1%, uma performance que só consegue ser melhor do que a da economia italiana (ver infografia ao lado). Mas o facto de todos concordarem que há um problema não significa unanimidade no diagnóstico da maleita. Se é verdade que têm sido muitos os acusados – desde a moeda única ao sistema bancário, passando pela expansão do Estado e acabando na concorrência chinesa – não é menos verdade que nenhum foi ainda condenado por consenso.

Contudo, é curioso constatar como a ideia de que o século XXI marca o início de um período negro para a economia portuguesa depende crucialmente do indicador utilizado como métrica de sucesso. Toda a narrativa anterior é construída através da análise do PIB – um indicador muito importante, mas que é afectado por uma série de elementos que nem sempre queremos levar em conta, como a demografia, o envelhecimento da população ou até mesmo o tempo que cada um passa no local de trabalho.

Mas se estivermos apenas interessados em avaliar a eficiência da economia portuguesa, então a melhor métrica de sucesso é a produtividade: o PIB real que cada trabalhador consegue criar em cada hora de trabalho. A produtividade cresce em função de fatores como a inovação, tecnologia ou boa gestão; para usar uma imagem desportiva, depende apenas da inspiração, e não da transpiração.

E quando trocamos o PIB pela produtividade, o século XXI torna-se muito menos bizarro do que parecia à primeira vista. A imagem ao lado permite contrastar estas duas análises; os pontos seguintes fazem uma leitura guiada por esta história alternativa da Grande Estagnação portuguesa.

1. PIB: a pior década desde há muito tempo
O primeiro quadro mostra a história convencional, tal como a conhecemos. Os primeiros sete anos do período do euro são terríveis: com um crescimento pouco superior a 1%, Portugal fica bem abaixo do registado na economia de referência da Zona Euro. Este período de sete anos contrasta com os sete anos anteriores, quando Portugal cresceu bastante mais do que a Alemanha. A partir de 2008, com a Grande Recessão (e depois com a Crise da Dívida), o diferencial torna-se ainda maior.

2. Produtividade: século XXI não mudou nada
Mas quando olhamos para a produtividade, a história fica diferente. Sim, a produtividade cresceu pouco nos primeiros sete anos após a adesão ao euro. Mas não cresceu menos do que nos sete anos anteriores. Na verdade, o progresso foi exactamente o mesmo: 1,3% ao ano. Se o euro mudou alguma coisa na economia portuguesa, essa mudança – seja ela qual for – parece ter tido muito pouco que ver com a eficiência das empresas nacionais e com a capacidade que estas têm de converter os seus inputs (mão-de-obra, capital e tecnologia) em bens e serviços. Para todos os efeitos, a origem do problema tem de ser encontrada noutro lugar.

3. Convergência ou divergência?
Mais notável ainda é a performance relativa de Portugal face à Alemanha. Os números do Produto Interno Bruto mostram que Portugal cresceu mais do que a economia germânica na década de 90, que começou a ficar para trás em 2000-2007 e que desde então o fosso alargou-se para níveis recorde. Já os números da produtividade invertem esta história de pernas para o ar: Portugal partiu com um diferencial negativo no crescimento da produtividade, reduziu a diferença no período 2000-2007 e ultrapassou a Alemanha no período subsequente.

Convém ter alguma prudência antes de se saltar para conclusões, evitando criar realidades alternativas. O crescimento da produtividade após 2008 pode estar a ser influenciado pela recessão económica – basta que o colapso da actividade tenha ‘varrido’ as empresas menos produtivas para que a produtividade média suba (os chamados ‘efeitos composicionais’), o que justificaria o facto de Portugal ter crescido mais do que a Alemanha neste particular. Ainda assim, a comparação ao longo de três períodos longos não deixa de ser reveladora e de sugerir algumas conclusões. Eu destaco duas.

A primeira é simples: a Grande Estagnação de Portugal teve pouco que ver com questões ligadas à produtividade. A razão pela qual a economia começou a perder gás de 2000 em diante tem por isso de ser procurada noutro sítio. Todas as explicações que atribuam um papel à eficiência das empresas portuguesas são por isso pouco credíveis à luz destes dados. Não sabemos onde está esse Santo Graal, mas sabemos pelo menos onde não o procurar.

Mas o facto de uma doença não se agravar não a torna menos problemática por isso. Isto é: apesar de a produtividade ter crescido tanto de 2000-2007 como de 1992-2000, não se deve extrair daqui que a economia nacional não tem problemas de eficiência. Pelo contrário, o que esta análise sugere é que esses problemas, apesar de terem pouco que ver com a Grande Estagnação, são reais – e afetaram Portugal muito antes do que normalmente se pensa. Veremos nos próximos anos se a convergência do período recente se mantém, ou se os dados mais recentes são apenas ruído causado por efeitos composicionais.

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