O impacto da eleição de Trump no passado dia 8 de novembro foi, todos sabemos, muito significativo – com impacto transversal na economia global em resultado de: i) reposicionamento das expetativas quanto aos riscos da política externa seguida pela nova Administração; ii) redirecionamento da política interna com foco na desregulação e num plano de expansão fiscal.
Os mercados financeiros e as diferentes classes de activos ao funcionarem numa lógica de antecipação do ciclo registaram desde 8/11 um desempenho assimétrico. Com efeito, verificou-se um sell-off das Treasuries em função da emergência de riscos inflacionistas que suportou a valorização do dólar face aos pares internacionais, em contraposição ao Trump rally que motivou novos máximos históricos dos índices acionistas e fomentou o movimento altista das commodities, uma vez que os lucros das empresas e o preço das matérias-primas tendem a beneficiar do aumento da inflação. Desde a tomada de posse de Trump (20/Jan), o price action das classes de activos mantém-se idêntico, ainda que com menor vigor, com exceção do dólar que cedeu temporariamente algum do seu fulgor.
O tema da reflação da economia americana irá marcar o ano e revelar-se decisivo para o que pode vir a ser o desempenho das classes de activos. O nosso cenário base contempla uma perspectiva de reflação moderada que deverá suportar o mercado de ações e matérias-primas – crude será menos beneficiado por factores idiossincráticos. A força do dólar e a subida das yields das Treasuries permanece válido, ainda que progressivamente limitado, sendo que as taxas de juro norte-americanas (10 anos) deverão encerrar 2017 abaixo da fasquia dos 3%, uma vez que o efeito de uma sobrevalorização do dólar via alargamento do diferencial de taxas de juro seria disruptivo para a economia global.
Posto isto, estará o mercado sobreaquecido na antecipação das políticas de Trump? Irá o tema da reflação da economia americana materializar-se? Recordamos que o efeito da subida de taxas de juro (10 anos) no pós-eleições foi, em parte, impulsionado pela subida das taxas de juro reais, ao passo que o Breakeven (expectativa de inflação) registou um comportamento aquém do observado noutros períodos reflacionários. Esta situação e o próprio aplanamento da yield curve americana indicia que o tema de reflação nos EUA não se afigura como uma mera quimera, apresentando-se, per si, uma possibilidade real. O efeito inflácionário do vector triangular das políticas de Trump – Migração, Comércio e Economia – num mercado laboral “apertado” suporta o tema da Reflação, tendo em conta o avançado estágio do ciclo económico.
Na esfera política, o primeiro mês da presidência de Trump foi polémico, com destaque para a introdução do decreto que proibia a entrada de cidadãos com nacionalidade de sete países islâmicos, o qual foi prontamente anulado pelos tribunais alegando a sua inconstitucionalidade. O princípio do sistema de checks & balances imbuído na constituição norte-americana que visa limitar o poder do Governo – separa e obriga uma dinâmica multifacetada de controlo/negociação entre os poderes Legislativo, Executivo e Judicial já deu mostras da sua vitalidade – suavizando os riscos de Trump ser Trump. No remanescente, com mais pompa do que substância, Trump ratificou circa 45 ordens executivas, as quais se assemelham a propaganda e objectivos de política genérica com reduzido ou nenhum impacto real. Fora a contraposição do poder judicial, os decretos presidenciais mais polémicos serão confrontados no Congresso que, mesmo ostentando maioria Republicana, serão inevitavelmente alvo de escrutínio e renegociação. Verifica-se, assim, um desfasamento considerável entre as palavras/tweets de Trump sobre as diferentes temáticas e a sua conversão em políticas reais.
O slogan da campanha prometia devolver a América à sua grandeza, mas, ironicamente, deverá ser a própria grandeza da América que se traduzirá no principal obstáculo na condução das políticas de Trump.