Trump provoca “banho de sangue” no mercado petrolífero

A guerra comercial entre os EUA e a China continua a aquecer, provocando o arrefecimento dos preços do petróleo. As cotações podem afundar 50% se Pequim acelerar compra de petróleo ao Irão.

Trump provoca “banho de sangue” no mercado petrolífero
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Foi um verdadeiro “banho de sangue no mercado de petróleo”. A conclusão é dos analistas do Commerzbank sobre a reação dos mercados de ouro negro ao agudizar da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China.

A cotação do petróleo caiu abaixo do patamar dos 60 dólares por barril esta semana, o que já não acontecia desde o final de janeiro. O preço do barril de Brent caiu mais de 33% desde 3 de outubro de 2018 (quando atingiu os 86,29 dólares) até os 57,34 dólares por barril, atingidos ao final da tarde de quinta-feira.

Onde é que vai parar o preço do petróleo? Esta é a pergunta a ser feita nos mercado neste momento, e a resposta depende a quem se faz a pergunta. Para os analistas do Bank of America Merrill Lynch (BofA), o preço do barril pode vir a afundar se a China passar a comprar petróleo iraniano em força. Esta seria uma maneira de Pequim retaliar ao aumento das tarifas alfandegárias impostas por Donald Trump.

“Apesar de mantermos a nossa previsão de 60 dólares para o barril de Brent para o próximo ano, admitimos que a decisão chinesa de reiniciar as compras de petróleo do Irão pode levar os preços do petróleo a afundar”, segundo uma análise do BofA, citada pela CNBC, que aponta para uma queda nos preços por barril para um valor entre os 20 e os 30 dólares nesse cenário.

“Esta decisão poderia afetar a política externa norte-americana e suavizar os efeitos negativos (…) na economia chinesa do aumento das tarifas norte-americanas”, acrescenta o BofA.

A China continuou a importar petróleo do Irão em julho pelo segundo mês consecutivo desde que as sanções norte-americanas entraram em vigor, segundo a Reuters. O aumento das tarifas alfandegárias norte-americanas, e o consequente impacto negativo na economia global, pode provocar uma redução do consumo de petróleo entre 250 mil a 500 mil barris diários em todo o mundo, estima o BofA.

Cercado pelas sanções norte-americanas, o Irão está a convidar países amigáveis a comprarem mais petróleo ao país. “Apesar de estarmos conscientes que países amigáveis como a China estão a enfrentar algumas restrições, esperamos que sejam mais ativos a comprar petróleo iraniano”, disse o vice-presidente iraniano Eshaq Jahangiri, citado pela Oilprice.

Segundo responsáveis da administração norte-americana, entre 50% a 70% do petróleo iraniano tem como destino a China, destaca a Reuters. Tradicionalmente, a China é o maior cliente de petróleo do Irão.

Falta de conflitos a nível global atenua prémios de risco
Mas no mercado há quem duvida que o petróleo continue a cair. Para Ferreira de Oliveira, antigo presidente da Galp, a cotação do petróleo caiu abaixo do patamar dos 60 dólares por barril “porque foram atenuados os principais receios que levavam os traders do sector a incorporarem prémios de risco diretamente relacionados com potenciais confrontos militares ou inícios de guerras”, comentou ao Jornal Económico o ex-presidente da Galp, Manuel Ferreira de Oliveira.

Além das tensões entre os EUA e a China – que deixaram de ser vistas como fatores geopolíticos relevantes para condicionarem uma alta da cotação do petróleo -, a oferta de petróleo no mercado internacional tem vindo a satisfazer as necessidades crescentes de consumo, permitindo uma descida de preços. Os contratos de futuros sobre o barril de Brent – que na quinta-feira, 8 de agosto, por volta das 13 horas em Lisboa, oscilaram entre os 56 e os 57 dólares por barril – registaram valores de negociação praticados em janeiro de 2019, em novembro de 2018 e setembro de 2017.

“Um nível de preços próximo dos 60 dólares por barril permite perfeitamente desenvolver os projetos petrolíferos que estão a ser operados na produção diária de petróleo, atendendo a que uma parte significativa dos campos petrolíferos ativos tem custos de produção que oscilam entre os 7 a 10 dólares e os 30 dólares por barril”, explica Ferreira de Oliveira.

Ou seja, “os actuais níveis de preços são sustentáveis para o sector petrolífero, permitindo o crescimento da produção e o desenvolvimento dos projetos”, admite o especialista. Geralmente, só se começam a notar problemas no débito de produção petrolífera quando as cotações do petróleo descem a barreira dos 50 dólares por barril nível de preços, “altura em que os valores de produção deixam de assegurar uma remuneração tão atrativa para produzir shale oil e shale gas nos campos dos EUA, o que leva às decisões de suspensão de produção ou de forte redução do débito de extração”, adianta Ferreira de Oliveira.

“O aumento do consumo anual de petróleo continua a registar a mesma tendência de incremento de cerca de um milhão de barris diários por ano, o que faz com que todos os anos o consumo mundial aumente o equivalente a cerca de quatro vezes o petróleo consumido por um mercado como Portugal”, refere o especialista. Um dos factores que tem pressionado o crescimento da procura é o desenvolvimento das operações dos sectores da aviação civil, do transporte marítimo internacional e, ainda, a evolução das economias africanas e asiáticas.

Há várias produções regionais de petróleo, como as do Irão, da Síria e de outros produtores do Médio Oriente, e ainda as da Venezuela, que conseguem ser colocadas nos mercados a preços muito competitivos e que contribuem para baixar as cotações internacionais e satisfazer a necessidades de um considerável número de refinarias.

“É sempre uma constatação admirável notar que as poucas infraestruturas petrolíferas que continuam a operar na Venezuela – onde quase todas as plataformas estão danificadas e inoperacionais – são precisamente aquelas para onde fui trabalhar, quando era muito novo, nos anos 80, e que utilizaram a tecnologia mais desenvolvida da norte-americana Exxon”, refere Ferreira de Oliveira. “Só esta unidade petrolífera venezuelana poderia ter um débito de produção superior a um milhão de barris, mas está com níveis inferiores, além do próprio potencial de produção da Venezuela que está complemente desprezado, desde a zona de Maracaibo à zona oriental, pois ali continua a estar a maior reserva petrolífera mundial”, comenta Ferreira de Oliveira. “A China está a acompanhar as negociações entre o regime de Nicolás Maduro e a equipa do presidente alternativo, Juan Guaidó” adianta o especialista, admitindo que essa mediação tenham contribuído para manter operacional uma parte residual da infraestrutura petrolífera da Venezuela.

No mesmo sentido, fonte de uma petrolífera multinacional reconhece que não há alterações significativas nos indicadores da oferta e da procura que justifiquem a descida das cotações internacionais do Brent, devendo-se a negociação abaixo dos 60 dólares por barril à diferença de perceção dos níveis de risco na geopolítica do petróleo.

“A economia mundial continua a crescer e o consumo de petróleo continua a aumentar, mas as tensões e os riscos foram dissipados, e isso faz a diferença na formação das cotações”, adianta a mesma fonte.

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