Nascido em Nova Iorque em 14 de Junho de 1946 – numa época em que a economia norte-americana prosperava e conseguia deixar definitivamente para trás todos os fantasmas da grande repressão – Donald Trump entrou para a empresa do pai mal saiu da universidade. Mas, dois anos depois, em 1971, tornou-se o gestor da empresa e decidiu empreender uma viragem substancial do rumo dos negócios.
O jovem Trump nunca quis construir nada – nenhum bem transaccionável – que não fosse sustentado com cimento. Começou pelo imobiliário, mas rapidamente percebeu que a diversificação para o jogo e o casino seria a fonte mais importante dos seus rendimentos. Seria também a fonte mais importante dos seus aborrecimentos: o excesso de confiança na capacidade do sector acabou por levar o empresário a uma situação difícil, com vários dos seus empreendimentos a chegarem à falência (a Casino Taj Mahal foi o caso mais mediático).
Personalidade desde sempre extrovertida e comunicativa, Donald Trump percebeu muito cedo que o poder dos ‘media’ seria algo a ter ao seu lado – na circunstância em que isso poderia ajudar aos negócios. E poupava dinheiro: não precisava de contratar ninguém quando era necessário animar algum acontecimento nas suas salas de espectáculos, a sua presença chegava.
Um dos condimentos do tipo de vida que Trump escolheu, a presença mediática que é preciso alimentar, é a exposição da vida conjugal – se não mesmo da íntima. O empresário cumpriu: casou-se três vezes, sempre com mulheres vindas da área da moda e divorciou-se com o alarido, os gastos e a trapalhada que eram necessárias. Mesmo assim, a primeira mulher, a checa Ivana Zelnickova, ainda chegou a ser uma preciosa ajuda na gestão dos casinos.
A exposição conseguida pela sua personalidade não podia deixar de chegar ao espaço televisivo, e mal Donald Trump teve essa oportunidade, agarrou-a: como apresentador de um concurso para jovens empreendedores – ou qualquer coisa do género – conseguiu elevar a frase ‘você está despedido’ à categoria de dito nacional.
A deriva de Donald Trump para a política foi observada nos Estados Unidos como uma espécie de consequência lógica da sua exposição mediática, que não poderia levar a outro lado senão a lado nenhum. O partido Republicano percebeu isso rapidamente e não lhe deu grandes esperanças de ser aceite no seio do seu núcleo mais profundo. O empresário – talhado no lado mais difícil dos negócios – nem sequer se achou na necessidade de responder. E quando anunciou que se candidataria às primárias, a maioria dos republicanos esboçou o sorriso que se reserva aos antecipadamente derrotados.
Mas, contra todas as expectativas, Trump – descendente de imigrantes alemães que deixaram a Europa para sobreviverem – conseguiu ser nomeado. Não tanto pelo Partido Republicano, mas mais contra o Partido Republicano: uma parte substancial de quem importava não o apoiou – desde logo e Tea Party, o mais estranho, reaccionário e ‘religioso’ grupo de todos os grupos republicanos.
A campanha para a presidência confirmou as piores expectativas dos republicanos: pelo que disse, pelo que fez, pelo que estava escondido e foi descoberto, Trump nunca conseguiria levar os republicanos de volta à Casa Branca, depois de oito anos ‘democratas’. As poucas personalidade republicanas de peso que ainda estavam ao lado do magnata do imobiliário foram-se retirando de cena à medida a que Trump se mostrava completamente incapaz de se controlar. E, uma semana antes das eleições, o empresário estava praticamente sozinho, contra os republicanos, contra a democrata Hilary Clinton, contra o ainda presidente Obama, contra as sondagens, contra os dirigentes da Europa e contra toda a lógica democrática. E foi contra tudo isso que Donald Trump ganhou. O futuro é agora uma enorme incógnita e está nas mãos de um homem que é provavelmente muito imprevisível.