Até poucas horas antes do fim do prazo dado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que o Irão aceitasse um acordo que, entre outras coisas, abrisse o Estreito de Ormuz à navegação internacional não discriminada, manteve-se tudo na mesma. Trump insistiu ao longo do dia – desde logo nas redes sociais – que o Irão enfrentaria a “morte da sua civilização” por um longo período de tempo se não cedesse à imposição de um acordo. Do outro lado, o Irão manteve-se irredutível na recusa em aceitar um acordo que, na ótica do regime de Teerão não é mais que um ultimato – apesar de haver algumas evidências de que o poderia aceitar no quadro de negociações.
Até à hora do fecho desta edição, tudo indicava que Trump acabaria por dar a ordem de avançar para a destruição maciça das infraestruturas energéticas e das pontes – quebrando assim os fundamentos da economia iraniana e as comunicações, fundamentais para a sua capacidade de resistência e de resposta à agressão externa. Como consequência, lançará o globo num período negro de recessão, quebra de confiança, redução do crescimento económico e inflação galopante.
Os analistas esperavam ainda que qualquer sinal pudesse mudar in extremis o cenário mais radical de aumento da pressão militar sobre o regime, mas não havia nada que, no terreno, pudesse sustentar essa hipótese: com a aproximação do final do prazo, os ataques ao Irão intensificaram-se, atingindo pontes ferroviárias e rodoviárias, um aeroporto e uma unidade planta petroquímica. As forças norte-americanas atacaram alvos na Ilha de Kharg, onde fica o principal terminal de exportação de petróleo do Irão. O regime teocrata respondeu declarando que não hesitaria mais em atacar as infraestruturas energéticas dos seus vizinhos do Golfo e afirmou ter realizado novos ataques contra um navio no Golfo e contra um enorme complexo petroquímico saudita.
Insistir no inferno
“Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser trazida de volta. Eu não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá”, escreveu Trump, numa declaração dirigida a uma nação que se orgulha de ser um dos primeiros centros de civilização do mundo.
“No entanto, agora que temos uma mudança de regime completa e total, onde mentes diferentes, mais inteligentes e menos radicalizadas prevalecem, talvez algo revolucionariamente maravilhoso possa acontecer, Quem Sabe? Descobriremos esta noite, num dos momentos mais importantes da longa e complexa história do mundo”, escreveu ainda – o que levou alguns comentadores a encontrarem ali uma esperança. Até porque, convém não esquecer, as palavras de Trump enformam uma ameaça de genocídio, absolutamente proibida pelas leis internacionais, mas também pela lei norte-americana. O país é signatário da Convenção para a Prevenção e a Repressão do Crime de Genocídio (de 1948, ratificada em 1988). O Congresso aprovou leis federais que tornam o genocídio um crime federal – e que define genocídio como atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. É o chamado Genocide Accountability Act, assinada pelo presidente George W. Bush em dezembro de 2007.