A três apresentações do final da época de resultados do primeiro semestre, o quadro (ver tabela ao lado) do desempenho geral das cotadas do índice PSI 20 revela estabilidade. No entanto, a ligeira quebra homóloga de 2% no lucro líquido total para 1.772 milhões de euros é algo ilusória, pois é distorcida por um resultado outlier.
“Destacamos a EDP Renováveis, que teve uma subida no lucro de quase 150%, e que evitou que a queda dos lucros a nível global fosse maior, com um crescimento no EBITDA superior a 40%”, referiu Nuno Caetano, analista da corretora Infinox.
A energética liderada por João Manso Neto beneficiou de aumentos de 5%, tanto na produção, como no preço médio, mas o principal vento positivo veio na forma de um ganho de 219 milhões com a venda de um ativo em abril. Se removermos esse semestre extraordinário da EDPR do quadro geral, os lucros totais tombam 14% para cerca de 1.430 milhões de euros e o EBITDA acelera apenas 5%em vez de 9%.
Exercícios hipotéticos à parte, a Renováveis ajudou ainda a ‘casa mãe’ EDP Energias de Portugal a registar uma subida de cerca de 7% para 405 milhões entre abril e junho. Nuno Caetano realçou, também pela negativa, que o destaque esteve no setor da energia, com a Galp Energia a apresentar uma queda de mais de 50% no lucro devido a uma pior performance nas áreas de distribuição e refinação.
Abrandamento externo afetou indústria e exportadoras
João Queiroz, head of online banking do Banco Carregosa, referiu o sector bancário, as energéticas e a distribuição de grande consumo como tendo, de forma geral, demonstrado desempenhos positivos. O único banco cotado no PSI 20, o BCP, aumentou os lucros em quase 13%, devido a ganhos com a venda de dívida pública e menos imparidades. No retalho, a Jerónimo Martins apresentou um lucro estável, mas o aumento das receitas, especialmente na Polónia, permitiu ao grupo subir o EBITDA em 5,6%, enquanto a rival Sonae só apresenta números a 21 de agosto.
O gestor do Carregosa explicou que a maioria das empresas enfrentou incertezas no segundo trimestre deste ano, que se traduziram em favoráveis condições económicas internas, “mas na conjuntura externa foi mais evidente o abrandamento do comércio internacional, a que se juntou a maior incerteza sobre o processo do Brexit e os claros sinais de estagnação da zona euro, em que as suas maiores economias apresentaram menores ritmos de crescimento”.
“As empresas do PSI 20 com maior pendor exportador de bens transacionáveis terão enfrentado maiores desafios nas receitas ou nas mais caras importações das matérias-primas por efeito da depreciação do euro”, sublinhou.
As papeleiras foram exemplo do primeiro fator referido por Queiroz, com quedas do preço e da procura de pasta de papel a pressionarem os lucros da Altri para uma descida de 8,1% . No caso da Navigator, o aumento do preço do papel ainda possibilitou um aumento das vendas totais, mas a pressão sobre a pasta e a saída do negócio das pellets ditou um tombo de 8,4% no EBITDA.
A reação dos bancos centrais à prolongada incerteza e abrandamento económico, na forma de novos estímulos, poderá, no entanto, ajudar estes setores.
“A maior emissão monetária pelo Banco Central Europeu com a esperada implementação de mais um TLTRO (Targeted Longer-Term Refinancing Operations) para a banca em setembro poderá ter mais impacto na depreciação do euro e, assim, auxiliar as empresas exportadoras que incorporam mais produtos nacionais nos seus bens transacionáveis”, frisou João Queiroz.
“Numa perspetiva defensiva tenderia a centrar as atenções nas utilities, nas empresas de retalho de distribuição e nos serviços de comunicações”, adiantou. “Mas em termos de recuperação dos ritmos de crescimento económico sem eventos black swan, as exportadoras de base industrial e com capacidade de autofinanciamento poderiam criar mais valor para os acionistas através do crescimento das receitas e das margens de lucros”.
Eleições podem ser fator
Nuno Caetano, da Infinox, concorda que a generalidade das cotadas foi afectada pelo impacto do abrandamento da economia nacional e europeia. “A exposição ao comércio internacional e as incertezas do Brexit e da guerra comercial entre China e EUA, afectam as economias no geral e por consequência as empresas”, sublinhou.
Para o resto do ano, Caetano não perspectiva grandes alterações à actual performance. “A desaceleração da nossa economia deve-se manter no resto do ano, até porque Portugal está sempre muito dependente das grandes potências como os EUA e a Alemanha”, referiu. “A afectar o comportamento da economia poderão estar também as eleições legislativas do próximo dia 6 de outubro. Dependendo dos resultados, o mercado poderá reagir positiva ou negativamente”, concluiu.