The Navigator sai dos EUA com encaixe desconhecido

O grupo de Pedro Queiroz Pereira chegou a acordo para vender a sua fábrica de pellets nos Estados Unidos ao líder mundial do setor, o grupo norte-americano Enviva, por um valor não revelado publicamente. O encaixe poderá acelerar novos investimentos.

The Navigator sai dos EUA com encaixe desconhecido
Brian Snyder/Reuters

Deve ter sido um dos maiores negócios do ano que terminou, mas o valor da transação continua por ser publicamente desconhecido. Por volta das nove e meia da noite de sexta-feira da semana passada, na antevéspera de um fim-de-semana prolongado marcado pela passagem de ano para 2018, Pedro Queiroz Pereira surpreendia o mercado com o anúncio publicado na CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários sobre o acordo com o grupo norte-americano Enviva para a venda da fábrica de pellets (fonte de energia renovável pertencente à classe da biomassa) nos Estados Unidos.

O acordo está dependente da autorização de várias entidades e o valor da operação não foi divulgado. E apesar de ser um facto relevante, ao longo desta semana não surgiu qualquer esclarecimento sobre o assunto. Contactada pelo Jornal Económico, fonte oficial da The Navigator Company escusou-se a fazer comentários sobre o assunto. Foi impossível contactar com a CMVM até ao fecho desta edição.

No entanto, o Jornal Económico apurou que a referida fábrica de pellets foi avaliada por 109 milhões de euros no final do ano. A informação consta do relatório e contas anual da The Navigator Company (ex-Portucel) referente ao exercício de 2016. Na altura em que foi anunciado, o investimento efetuado pelo grupo português nesta unidade produtora de pellets, designada Colombo Energy Inc., foi avaliado em 81,6 milhões de euros. É normal pensar que a transação não terá sido efetuada abaixo deste último valor, sendo muito provável que tenha sido conseguida acima do primeiro, ou seja, para além dos 110 milhões de euros.

Este encaixe de valor desconhecido poderá servir a Pedro Queiroz Pereira para investir nas outras áreas de atividade do grupo, em particular no tissue, em Espanha, como o Jornal Económico avançou a 27 de outubro passado. Os analistas do BPI salientaram esta semana que este dinheiro fresco “pode ser usado para impulsionar um novo plano de negócios com investimentos no seu negócio core, enquanto a Navigator pode também usar parte dos rendimentos para distribuir um dividendo extraordinário”.

Com esta venda, a The Navigator saiu não só da produção industrial no mercado norte-americano, como também de uma nova área de atividade, a da produção de pellets, que parecia há cerca de dois anos ser uma grande aposta estratégica de Pedro Queiroz Pereira e de Diogo da Silveira, CEO da empresa. A racionalidade do dinheiro terá falado mais alto, pelo que se presume que a oferta da Enviva terá sido generosa e irrecusável. No comunicado enviado pela The Navigator Company à CMVM na noite da passada sexta-feira, último dia útil de 2017, explica-se que a antiga Portucel “celebrou um contrato de compra e venda do seu negócio de pellets, nos Estados Unidos com uma joint-venture gerida e explorada por uma entidade associada da Enviva Holdings, LP”.

“A concretização da venda encontra-se sujeita à verificação de determinadas condições precedentes e autorizações regulatórias, habituais neste tipo de transações, esperando-se que o processo esteja concluído no decorrer do primeiro semestre de 2018”, acrescenta o comunicado.

O mesmo documento adianta que, “em Dezembro de 2014, a Navigator informou o mercado da decisão de investir numa fábrica de pellets nos Estados Unidos, em Greenwood, na Carolina do Sul, com capacidade de produção de 500 mil toneladas por ano, tendo esta ficado concluída no segundo semestre de 2016”.

“Este investimento, que constituiu uma oportunidade de crescimento na área da bioenergia, permitiu desenvolver e diversificar a base de activos industriais da Navigator”, destacam os responsáveis da The Navigator Company.

O mesmo comunicado sublinha que, “face a uma oportunidade financeiramente atrativa de desinvestimento, a Navigator decidiu vender o negócio das pellets e ativos relacionados, libertando assim capital”.

“Os últimos três anos constituíram um período de grande aprendizagem, durante o qual o grupo projetou e construiu uma fábrica de dimensão mundial e adquiriu uma valiosa experiência de gestão de pessoas e bens nos Estados Unidos”, conclui o comunicado da The Navigator Company.

A Enviva, empresa cotada na bolsa norte-americana, reclama a liderança mundial na produção de pellets, com seis unidades industriais no sudeste dos Estados Unidos, nos estados de Virgínia, Carolina do Norte, Mississipi e Florida.
Com uma capacidade de produção de seis milhões de toneladas métricas de pellets, a Enviva reclama uma quota de mercado mundial neste segmento na ordem dos 14%.

Quando foi idealizada pela The Navigator Company, esta unidade fabril que agora vai ser vendida à Enviva, localizada em Greenwood, Carolina do Sul, previa exportar 40% da sua produção para o continente europeu e vender entre 15% e 20% no mercado norte-americano.

A vertente das exportações também deverá ser uma aposta da Enviva. Segundo um documento do grupo norte-americano consultado pelo Jornal Económico, as previsões de aumento da procura de pellets no mercado europeu apontam para um patamar de 19,2 milhões de toneladas em 2021, o que significa um aumento anual de 13%.

O mesmo documento aponta para previsões de crescimento da procura de pellets no mercado asiático até 2021 para mais de 10 milhões de toneladas, uma subida anual na casa dos 35%.

Nos primeiros três trimestres deste ano, a Enviva obteve receitas líquidas de cerca de 318 milhões de euros ao câmbio atual, tendo alcançado lucros de cerca de 10,7 milhões de euros.

A Enviva foi fundada em 2004 com a meta clara de desenvolver “uma alternativa energética mais limpa que os combustíveis fósseis”, destaca um documento do grupo norte-americano, em particular oferecendo uma alternativa de combustível que substituísse o carvão, no sentido de reduzir a emissão dos gases com efeito de estufa.

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