Solidez da frente parlamentar de apoio a Jair Bolsonaro vai ser um grande desafio para Lula da Silva

Após ter conseguido vencer Bolsonaro e ser eleito para um terceiro mandato como presidente do Brasil, Lula da Silva não vai ter uma tarefa fácil para unir um país dividido e polarizado. Negociar com um Congresso onde predominam os apoiantes de Bolsonaro vai ser fundamental, explicou o politólogo António Costa Pinto em entrevista ao JE e ao NOVO.

Solidez da frente parlamentar de apoio a Jair Bolsonaro vai ser um grande desafio para Lula da Silva
Lula e Jair Bolsonaro - Evaristo Sa/AFP/Marcos Corrêa/PR

Lula da Silva foi o vencedor das equilibradas eleições presidenciais brasileiras. O candidato petista superou Jair Bolsonaro por uma margem ínfima: 50,90% dos votos recaíram em Lula, enquanto 49,10% dos eleitores brasileiros escolheram Bolsonaro. Esse elevado equilíbrio ilustra as dificuldades e os desafios que Lula vai enfrentar quando iniciar o seu terceiro mandato em Janeiro de 2023.

O primeiro desafio de Lula é o reconhecimento da derrota pelo presidente em exercício Bolsonaro e a não existência de movimentos de contestação eleitoral

De forma a compreender melhor os obstáculos que se erguem agora perante Lula, o NOVO e o JE falou com o politólogo António Costa Pinto, que apontou dois grandes desafios no horizonte. “O primeiro desafio de Lula é o reconhecimento da derrota pelo presidente em exercício Bolsonaro e a não existência de movimentos de contestação eleitoral”, começou por referir, frisando que até ao momento Bolsonaro não reconheceu a vitória de Lula.

Porém, o segundo desafio que António Costa Pinto assinala é o mais complexo e vai ajudar a definir o sucesso da presidência de Lula da Silva. “O seu discurso de vitória é um discurso de conciliação da sociedade brasileira, uma sociedade polarizada. Desse ponto de vista, o segundo desafio de Lula será o de conseguir negociar com as câmaras do Congresso, fundamentalmente com a maioria de direita, uma parte da qual não é da direita bolsonarista, da direita radical, mas da direita que apoiou Bolsonaro”, disse o politólogo ao NOVO e ao JE.

A democracia brasileira está muito habituada à negociação, na medida em que os presidentes nunca tiveram maiorias parlamentares. Neste caso é diferente

A negociação entre um presidente e o Congresso brasileiro é algo tradicional. Mas nesta circunstância esse ato tradicional reveste-se de uma diferença relevante. “A democracia brasileira está muito habituada à negociação, na medida em que os presidentes nunca tiveram maiorias parlamentares. Neste caso é diferente, porque pela primeira vez se constituiu uma frente político-partidária de apoio a Bolsonaro mais significativa do que aconteceu em anteriores eleições presidenciais. Portanto, a solidez parlamentar desta frente anti-Lula também será um teste ao próprio Lula”, sublinhou António Costa Pinto.

Questionado sobre o impacto que a economia poderá ter na presidência de Lula face ao cenário de crise global, Costa Pinto lembrou nas suas declarações ao NOVO e ao JE que “quando falamos de crises económicas, é preciso olhar para as regiões”. “A economia brasileira e o agro-exportador dependem fundamentalmente da China. Portanto, é para esse binómio que temos de olhar e não para a guerra da Ucrânia, para a Rússia e para a conjuntura europeia”, salientou. “O Brasil pode estar a crescer e a Europa pode estar em recessão. Apesar da globalização isto não é assim tão uniforme”, acrescentou.

“Enorme ponto de interrogação” nos últimos meses da presidência de Bolsonaro
Jair Bolsonaro vai continuar a liderar os destinos do Brasil nos próximos dois meses, o que suscita dúvidas do caminho que poderá seguir a partir de agora e até deixar o poder. “É um enorme ponto de interrogação. Isto é algo de novo para o Brasil. O Brasil teve um presidente de direita radical populista no poder, sabemos porque é que isso aconteceu, devido à frente anti-petista, ao escândalo Lava Jato”, explicou António Costa Pinto, ressalvando as diferenças entre 2018 e o presente.

Estas eleições também representaram um crescimento muito significativo de governadores afetos a Bolsonaro

“Bolsonaro construiu uma frente política de apoio, apesar de uma presidência errática, apesar da resposta errática ao covid, apesar de muitas outras dimensões construiu uma frente que representa 49,10% da sociedade brasileira. Mais do que isso, estas eleições também representaram um crescimento muito significativo de governadores afetos a Bolsonaro”, constatou o politólogo.

O apoio em torno do bolsonarismo saiu reforçado destas eleições, independentemente da vitória de Lula. A postura de Bolsonaro nestes dois derradeiros meses de presidência poderá ser ainda mais errática e controversa do que foi até agora, bastando lembrar como foram os últimos meses da presidência de Trump após a eleição de Joe Biden em Novembro de 2020. E Bolsonaro nunca escondeu a admiração que nutre por Trump. Resta saber se também irá seguir os seus passos com a aprovação de medidas que visem minar a presidência de Lula, como Trump fez nos Estados Unidos.

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