Os smartphones que cabem no bolso e os computadores que dominam as secretárias podem estar prestes a ficar, em média 8% mais caros em 2026, diz a IDC e a razão não é imediatamente visível no ecrã. Não tem que ver com câmaras revolucionárias ou novos materiais de luxo. O que está em causa é algo silencioso, escondido no interior dos equipamentos: a memória. E, ironicamente, é o boom da inteligência artificial que está a pressionar o preço dos dispositivos do dia a dia.
De acordo com um estudo recente da International Data Corporation (IDC), o mundo enfrenta uma escassez global de chips de memória que começou no final de 2025 e a crise poderá prolongar-se até 2027. A pressão vem sobretudo da procura explosiva por infraestruturas de inteligência artificial, que estão a consumir uma fatia cada vez maior da capacidade de produção mundial.
Segundo a Reuters, a empresa de análise de mercado TrendForce “os preços contratuais da DRAM convencional subirão de 90% a 95% no período de janeiro a março deste ano, em comparação com os últimos três meses de 2025.”
Para perceber o problema, vale a pena explicar dois conceitos que surgem frequentemente mas nem sempre são claros. A DRAM, mais conhecida como RAM (memória de acesso aleatório), é a “memória de trabalho” do equipamento. É ela que permite ter várias aplicações abertas ao mesmo tempo sem que o sistema fique lento. Já a NAND é o tipo de memória usado para armazenamento, ou seja, onde ficam guardadas fotografias, vídeos, aplicações e o próprio sistema operativo.
Nos smartphones de gama média, a memória pode representar entre 15% e 20% do custo total de produção; nos modelos topo de gama, entre 10% e 15%. Quando estes componentes encarecem, os fabricantes ficam com poucas alternativas: ou reduzem margens, ou cortam especificações, ou aumentam preços.
A origem da escassez está na corrida à inteligência artificial. Gigantes tecnológicos como Microsoft, Google, Meta e Amazon estão a investir fortemente em centros de dados para treinar e executar sistemas de IA. Estes servidores utilizam tipos de memória mais avançados e dispendiosos, como HBM (memória de alta largura de banda) e DDR5 de grande capacidade.
Os três maiores fabricantes mundiais, Samsung Electronics, SK Hynix e Micron Technology estão a canalizar capacidade produtiva para esses segmentos mais lucrativos. Como as fábricas e as chamadas “clean rooms” não se expandem de um dia para o outro, cada linha dedicada a memória para servidores de IA significa menos produção disponível para smartphones e computadores pessoais.
No mercado dos smartphones, o impacto pode ser significativo. A IDC admite que, em 2026, o mercado global possa contrair 2,9% num cenário moderado ou até 5,2% num cenário mais pessimista. Em simultâneo, os preços médios poderão subir entre 3% e 5% no cenário moderado, ou entre 6% e 8% no mais negativo. O efeito será particularmente visível nos modelos mais acessíveis, onde as margens são reduzidas e há menos espaço para absorver custos.
“A Samsung Electronics definiu o preço do Galaxy S26 básico em 899 dólares americanos (cerca de 830 euros) nos Estados Unidos, um aumento de 4,7% em relação ao modelo anterior, e o do S26 Plus em 1.099 dólares americanos (cerca de 1.015 euros), um aumento de 10%. Os preços do Ultra permaneceram inalterados”, anunciou a Reuters.
Marcas como Xiaomi, Oppo, Vivo e Realme poderão sentir maior pressão. Já no segmento premium, Apple e Samsung estão mais protegidas graças à sua escala e a contratos de fornecimento de longo prazo. Ainda assim, a evolução técnica pode abrandar: modelos que se esperava que passassem para 16 GB de RAM poderão manter-se nos 12 GB, adiando saltos nas especificações.
Também no mercado dos computadores pessoais o cenário é exigente. A escassez coincide com o ciclo de renovação provocado pelo fim do suporte do Windows 10, o que aumenta a pressão sobre empresas e consumidores. Fabricantes como Lenovo, Dell, HP, Acer e ASUS já sinalizam aumentos que podem chegar aos 15% a 20% em determinados contratos.
Para 2026, a IDC aponta para uma possível queda de 4,9% no mercado de PCs num cenário moderado, podendo atingir 8,9% num cenário pessimista. Os preços médios poderão subir entre 4% e 8%. O impacto é ainda mais delicado nos chamados “AI PCs”, computadores preparados para executar funcionalidades de inteligência artificial localmente. Estes equipamentos exigem pelo menos 16 GB de RAM, e muitos modelos avançados apontam para 32 GB ou mais — precisamente num momento em que a memória se tornou mais cara e difícil de obter.
Durante anos, os consumidores habituaram-se a pagar o mesmo — ou menos — por equipamentos cada vez mais potentes. Essa tendência poderá estar a inverter-se. Se a capacidade de produção não aumentar rapidamente ou se a procura por IA continuar a absorver grande parte da oferta, 2026 poderá marcar o início de um ciclo de tecnologia mais cara, não por excesso de inovação visível, mas por escassez de um componente essencial.
De acordo com dados divulgados pela IntuitionLabs, citados pelo elecomista.es o custo dos chips de memória DDR5 de 16 GB disparou no último trimestre de 2025, passando de cerca de 6,30 euros para aproximadamente 25,20 euros por unidade, uma subida superior a três vezes o valor inicial. A escassez destes componentes, agravada por uma procura explosiva associada à expansão dos centros de dados que suportam sistemas de inteligência artificial, está a criar um estrangulamento na cadeia de abastecimento global. Este desequilíbrio entre oferta e procura não só pressiona os preços do hardware informático, como alimenta receios de uma crise mais ampla no sector tecnológico, com potenciais repercussões na produção de dispositivos, infra-estruturas digitais e serviços dependentes de computação intensiva.
A memória, discreta e invisível, pode assim tornar-se a protagonista inesperada da próxima subida de preços.