Filipe Garcia, Economista Conselheiro; IMF, Informação de Mercados Financeiros

Será mesmo o fim?

Na pior das hipóteses, teremos uma pausa na alta dos juros, o que é uma boa notícia para todos.

O Banco Central Europeu (BCE) sinalizou na semana passada que o ciclo de subida das taxas de juro deverá ter terminado. Na pior das hipóteses, teremos uma pausa na alta dos juros, o que é uma boa notícia para todos.

Creio que nenhum economista defende que o BCE não deveria ter subido as taxas de juro quando a inflação começou a subir. Pelo contrário, a principal crítica é que o terá feito demasiadamente tarde, até porque era essencial resgatar o instrumento “taxa de juro” para o arsenal do Banco Central, tal era o risco de cair numa situação igual à do Japão, onde o experimentalismo passou a ser uma necessidade.

Mas, daí a defender subidas contínuas dos juros na Zona Euro sem ter em conta a dinâmica do fenómeno inflacionistas, sem dar espaço para analisar os efeitos das decisões e quando a economia dá sinais claros de dificuldades, vai uma grande distância e é isto que muitos economistas teimam em não querer ver.

Portanto, sobram dúvidas de que o BCE esteja a agir da melhor forma este ano, já que parece haver uma má compreensão do que têm sido as fontes “desta” inflação. Os membros do Conselho de Governadores são muitíssimo conhecedores, experientes e certamente bem-intencionados, mas é discutível que aplicar a receita clássica num problema que é diferente vá ter bons resultados.

Além disso, a inflação já tem mostrado uma trajetória favorável e observa-se uma forte deflação nos preços do produtor na Alemanha – a maior desde 1949 – país cuja economia terá crescimento negativo este ano. A economia tem estado sobreaquecida de forma a justificar juros mais altos? Provavelmente não. Haverá outros caminhos para tentar conter a inflação? Certamente que há.

Além disso, a comunicação do BCE tem sido errada e errática há anos. Numa primeira fase a inflação era “transitória”, diziam os responsáveis do Banco Central. Depois, conscientes de que estavam “atrás da curva”, a evolução dos preços passou a ser omnipresente nos discursos, a ponto de o BCE ter cometido o erro de ancorar em alta as expectativas de inflação, algo a que os agentes económicos responderam com um espetacular aumento de margens.

Na última reunião, Lagarde voltou a virar a agulha e falou mais vezes de crescimento do que dos preços e ainda afirmou, taxativamente, que a inflação irá baixar nos próximos meses. Esperemos que tenha razão e seja o fim da alta dos juros e de uma comunicação que fica aquém daquilo que todos precisamos.

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