Daniela Silva, Investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

Repressão de instintos e surpresas eleitorais

Sentir o pulso ao eleitorado é especialmente difícil quando as pessoas interpretam a realidade de acordo com o seu nicho social ou intelectual, eliminando factos e indícios que não encaixam na sua narrativa.

Eleição após eleição, assistimos a coros de estupefacção, de desilusão ou de pânico apocalíptico. Os partidos “centristas” não entendem que exista larga adesão popular aos ditos “extremos”. Os tais “extremos” não entendem que ainda exista tanta adesão aos “partidos do sistema”. Estas reacções de incompreensão de parte a parte são naturais, tendo em conta que vivemos diariamente em ambientes que confirmam as nossas emoções e convicções quanto àquilo que achamos mais importante.

Por exemplo, alguém que vá votar para travar a ascensão da “extrema-direita” nunca entenderá que existam milhões de pessoas a sair de casa para escolher o candidato que se propõe a travar o “declínio da civilização” ou a “substituição populacional”. Até mesmo entre os candidatos que se apresentam como oposição ao “sistema” num mesmo campo de ideias, pode existir frustração pós-eleitoral ao constatar-se que o eleitorado privilegiou um candidato menos consistente, mas mais carismático ou com uma estratégia eleitoral mais eficaz.

Para tentar antecipar tendências eleitorais e não se ser apanhado tão desprevenido, é bom começar por compreender que os eleitores, na sua grande maioria, decidem com base em pouca informação, aplicam baixos padrões de exigência à qualidade dos candidatos, mobilizam-se em torno de grandes desígnios morais e colectivos e, geralmente, desejam pertencer a uma equipa vencedora. Só nos casos em que há um forte senso de pertença a uma causa excepcional é que as pessoas estão dispostas a votar num provável perdedor da noite.

O próprio envolvimento emocional com causas minoritárias poderá induzir também em expectativas irrealistas, como exemplificado pela surpresa de alguns quando, por cá, o CDS perdeu a representação parlamentar nas últimas legislativas.

Dito isto, a primeira volta das eleições presidenciais francesas e as eleições legislativas na Hungria são dois exemplos demonstrativos da incompreensão pré-eleitoral e do choque pós-eleitoral que reina, tanto entre alguma opinião pública como nos meios de comunicação.

A surpresa ou horror pela vitória confortável do Fidesz de Viktor Orbán na Hungria, ou por Marine Le Pen passar à segunda volta, revelam que a narrativa mediática nas sociedades liberais ocidentais continua a criar uma bolha de informação em que as preocupações existenciais, culturais e económicas de uma parte substancial da população são caricaturadas ou estigmatizadas. Assim, esperam que certos instintos sejam reprimidos para não abalar os valores instituídos e moralmente aceites e que as tímidas vitórias de um candidato “moderado” sirvam para restabelecer a normalidade e controlar os excessos.

Para além disso, as tais reacções de surpresa também revelam que as análises predominantes estão desactualizadas quanto à reconfiguração das clivagens políticas, agora muito menos definidas em referência à dicotomia entre esquerda e direita, e mais orientadas para o confronto entre universalismo liberal e etnonacionalismo, ou pelo conflito de distintas aspirações entre gerações, sobretudo se os jovens percepcionam poucas oportunidades de realização pessoal fruto da repetição das mesmas receitas políticas ao longo de décadas.

Como referia Francis Fukuyama há poucos dias, as sociedades ocidentais estão muito fragilizadas pela falta de apego a propósitos nacionais ou de um “núcleo moral” que sustente a comunidade, inclusive porque a “natureza agnóstica [do liberalismo] cria um vácuo espiritual à medida que os indivíduos seguem os seus próprios caminhos e experimentam apenas um fino senso de comunidade”. Daí que uma parte substancial do eleitorado passe a valorizar propostas políticas que procuram preencher este vazio, enfatizando propósitos maiores de valorização das famílias, da sustentabilidade económica da nação, de cooperação social, de fortalecimento da consciência cultural e de sobrevivência de uma comunidade.

Sublinhe-se ainda que a preferência por alternativas mais afirmativas de valores etnocêntricos ou tradicionais faz-se em reacção a toda a pressão normativa, política e académica, que visa minar o “chão comum” das comunidades e que promove vitimização e cisões sociais através de um discurso carregado de excentricidades, obviamente incompreensíveis aos olhos do bom senso popular.

Porém, as sociedades consagradas ao princípio da tolerância têm demonstrado pouca estima pela divergência de opiniões e um gosto repetitivo por restrições de liberdade aplicadas a opositores ideológicos. Nestas circunstâncias, é natural que estejamos rodeados de pessoas que todos os dias se sentem surpreendidas pela evolução dos acontecimentos ou escandalizadas pela opinião de alguém que conhecem.

A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.

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