Depois de um ano em que os custos da construção subiram 4% em Portugal, o quarto maior aumento entre os países europeus com dados atualizados, a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN) teme más notícias neste capítulo em 2026. “A atual turbulência nos mercados internacionais, resultante do conflito com o Irão, está a gerar uma elevada instabilidade no mercado energético, podendo, em função da sua duração, exercer uma pressão adicional sobre os custos dos materiais, para além dos efeitos já sentidos ao nível dos combustíveis”, afirma Manuel Reis Campos, presidente daquela associação.
Não era, até há muito pouco tempo, o que estava em perspetiva. “Para 2026, a expectativa seria de um cenário de maior contenção na evolução dos custos”, devido aos “desenvolvimentos recentes em matéria de políticas públicas, que vêm ao encontro das posições defendidas pela AICCOPN”. Estão em causa “a aprovação da autorização legislativa para a aplicação de uma taxa reduzida de IVA na construção e reabilitação de habitação, a revisão em curso do regime do licenciamento urbanístico (Simplex Urbanístico) e as perspetivas de evolução do enquadramento do mercado de arrendamento, no sentido de promover um maior equilíbrio e incentivar o aumento da oferta”.
No ano passado, o aumento dos custos diretos de construção de habitação nova em Portugal foi de 4%, sobretudo por causa da “pressão registada ao nível da mão de obra”, cujos custos cresceram 7,7% num ano, “contrastando com uma evolução muito mais contida dos materiais”, de 0,9%, sublinha Reis Campos.
A estes fatores, acrescenta o responsável, há ainda que juntar “outros condicionamentos estruturais, como a morosidade dos processos de licenciamento, a carga fiscal, a escassez de mão de obra e outros custos de contexto associados à atividade, que continuam a influenciar o custo final da habitação”.
Portugal teve um dos maiores aumentos nos custos
Portugal ficou no ano passado em quarto lugar nos aumentos de custos de construção de novas casas a nível europeu, entre os 16 Estados-membros que têm dados atualizados no Eurostat. Com a subida de 4% face a 2024, teve a mesma evolução do que a Lituânia, ficando só atrás da Bulgária (+11,8%), da Roménia (6,9%) e da Eslovénia (4,4%).
Desde 2001, quando os dados de Portugal foram usados pelo Eurostat pela primeira vez, o país só tinha ocupado uma posição semelhante no ranking europeu em 2020. No primeiro ano da pandemia, o custo de construção de uma casa nova em Portugal foi também o 4.º que mais subiu, numa estatística que habitualmente reúne dados de 16 a 20 países (o Eurostat nunca teve números neste indicador para Bélgica, Irlanda, França, Croácia, Luxemburgo, Polónia e Eslováquia).
Para já, e ao contrário do que se passou entre 2021 e 2023, o problema não está nos materiais, que em janeiro subiam 0,9% (variação média anual), mas antes nos custos com a mão de obra: o aumento passou de cerca de 5%, antes da invasão da Ucrânia, para a casa dos 8% em 2024 e 2025, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Em janeiro, a variação média anual era de 7,7%.
Numa fase em que as construtoras têm falta de mão de obra, mas não têm mãos a medir, com o PRR à cabeça, a procura residencial continua elevada e a oferta está longe de acompanhar. Resultado: o preço das casas subiu mais 17,6% em 2025, o maior aumento anual desde, pelo menos, 2010. Em Lisboa, o valor médio do metro quadrado ultrapassou os 5.000 euros pela primeira vez. E este ano, há novas fontes de pressão, com a catástrofe na região Centro e a guerra no Irão.
No que diz respeito aos custos de construção de casas novas, já foi bem pior há não muito tempo: a partir do verão de 2021, este indicador escalou durante um ano e meio, atingindo um pico de 12,3% em janeiro de 2023 — primeiro, a reboque da crise das cadeias logísticas, ainda na pandemia, e, logo de seguida, com a invasão da Ucrânia, que fez disparar os custos da energia. O problema foi então agravado pelos custos dos materiais, que subiram 16% no final de 2022.
Nos anos seguintes, os custos foram abrandando progressivamente, mas, desde outubro de 2024, encetaram uma nova (e discreta) subida. Até ao ponto em que, à exceção daquele período turbulento da guerra da Ucrânia, é preciso recuar à crise financeira global de 2009 para encontrar variações mais elevadas.
