A norte-americana Lukka desenvolve tecnologia para preparar as empresas para as criptomoedas. Em entrevista ao Jornal Económico, o presidente executivo da companhia abordou a questão da regulação das criptomoedas na Europa e nos EUA. Robert Materazzi vê com bons olhos a chegada de regras ao mundo das moedas digitais.
A União Europeia propôs recentemente novas regras nos mercados e ativos cripto. Como é que olham para esta intenção?
Penso que é um passo positivo na direção certa. Ainda existem arestas a limar, mas penso que todas as intenções vão na direção certa. Nenhuma regulação vai ser perfeita. Mas à medida que os supervisores/reguladores tiverem feedback da indústria para as melhorar, idealmente vão lá chegar. Estamos a ver isso na UE. Há uns anos, o tom era diferente. Muito discurso anti-criptomoedas, muito ceticismo relacionado com a Bitcoin especificamente. E parece que as pessoas têm vindo a informar-se o que foi ótimo porque mudaram as suas opiniões. Espero que comecemos a ver isto nos EUA.
Mais regulação na UE é um passo positivo na direção certa
E como é que está a situação nos EUA? Mais regulação a caminho?
Sem dúvida. É seguro assumir isso. Existe muito a acontecer. Depende do regulador, nos EUA existem muitos, não está tão centralizado como noutras regiões do mundo. Isso pode ser bom de algumas maneiras e mau de outras. Mau porque significa que precisam de trabalhar em conjunto e podem estar a trabalhar com timings diferentes. Quando é centralizado pode não ser tão abrangente no longo prazo. Mas seria mais fácil arrancar se os reguladores estivessem centralizados… o que é uma metáfora engraçada sobre a indústria das criptomoedas… É seguro assumir que vai haver mais regulação nos EUA
A descentralização era precisamente o principal objetivo das criptomoedas…
É irónico. A maioria dos reguladores nos EUA estão a ir mais lentamente do que gostaríamos. Já a SEC [Comissão de Valores Mobiliários dos EUA] está a ir rápido, mas gostávamos que fosse numa forma mais colaborativa. No caso do fisco, está a ser muito tático e a está a tentar acompanhar. Mas há muito espaço para fazerem mais, a par dos reguladores. Estou otimista, espero que sigam na direção certa.
Receia que ao mexer, estraguem ou compliquem?
Não estou preocupado. Penso que se houver regras que favorecem alguém por serem muito simples, tudo bem, aproveitaram o ambiente existente, mas estamos numa fase diferente, e é preciso algo mais refinado e detalhado. Isso é muito necessário. As criptomoedas não são uma classe de ativos, mas é tecnologia que pode ser aplicada a qualquer classe de ativos. Vemos novas classes de ativos criadas pela tecnologia blockchain, mas não devem ser todos colocados no mesmo cesto. É preciso aplicar regras diferentes a tipos diferentes de ativos. Mesmo que se use a mesma tecnologia, blockchain, num ambiente cripto. Se isso mudar algumas regras fiscais, será melhor no longo prazo.
Há um ano anunciaram que a Lukka tinha se financiado em 110 milhões de dólares (100 milhões de euros) e tinha atingido uma avaliação de 1,3 mil milhões de dólares (quase 1,2 mil milhões de euros). Como é que está a vossa avaliação agora? E querem voltar a levantar capital?
Angariamos esse dinheiro numa boa altura, não temos planos para levantar, não precisamos. Tivemos um ano muito bom em 2022, apesar de pensar que foi mais lento do que muitos esperavam no início do ano, os casos de falência e as condições económicas. O nosso negócio é muito maduro em termos de risco e de operação. Temos muita redundância nos nossos produtos porque faz parte da sua identidade. Se os nossos produtos não forem de confiança, então os nossos clientes não confiam em nós. Somos capazes de sobreviver às condições de mercado em queda mais facilmente do que outras empresas. Ainda temos um grande crescimento. Entretanto, aumentamos o número de trabalhadores em 50%. A nossa avaliação mantém-se, não estamos cotados, portanto não houve alterações. Uma nova avaliação só vai ter lugar quando nos financiarmos de novo.
Estamos a focar-nos na nossa estratégia global. No último trimestre, vimos muita ação fora dos EUA em alguns mercados emergentes. Na América do Sul, África do Sul, Portugal, Espanha, Dubai e Hong Kong. Estamos a ver algumas batalhas regulatórias noutras regiões. Nova regulação e aumento de regulação é bom para a Lukka porque estamos focados em dar apoio aos nossos clientes a cumprirem com diferentes regras de compliance e reporting. Queremos regras e regulação que sejam produtivas, que sejam pensadas.
Estamos a focar-nos na nossa estratégia global. América do Sul, África do Sul, Portugal, Espanha, Dubai e Hong Kong.
Planeiam entrar em bolsa?
Penso que qualquer pessoa concorda que é uma má altura para qualquer negócio entrar em bolsa. Mas se for algo que seja o melhor para a empresa, então vamos pensar sobre isso. Mas não vamos fazê-lo só por vaidade. Estamos focados em construir uma companhia madura. Se um dia entrar em bolsa for o melhor, avançamos. Mas não iremos avançar se não for a melhor opção para os nossos clientes, trabalhadores e acionistas.
Na bolsa de Nova Iorque?
Somos uma empresa norte-americana. Em que bolsa e como, ainda está tudo em aberto. Mas faria mais sentido nos EUA, estar perto do maior mercado. Mas estou só a especular.