A fintech alemã Trade Republic, com sede em Berlim, recebeu a luz verde do Banco de Portugal para operar como sucursal e em entrevista ao Jornal Económico, Pablo López, Regional Manager da plataforma, revela os planos para desafiar a banca tradicional com uma conta corrente com IBAN “PT50”, remuneração diária de 3% sem limite de capital e taxas de câmbio competitivas no cartão. Já têm 200 mil clientes em Portugal e querem continuar a crescer até se tornarem o banco número 1 dos portugueses, num horizonte de cinco anos.
Banco de Portugal deu luz verde à sucursal da Trade Republic em Lisboa
A Trade Republic deu o passo definitivo na sua estratégia de localização no mercado português. A fintech alemã, que até agora operava em Portugal essencialmente como uma aplicação de corretagem (investimento em ações, ETFs e obrigações), obteve a aprovação do Banco de Portugal para estabelecer uma sucursal no país. A grande novidade traduz-se no lançamento de uma conta corrente com IBAN português (PT50), transformando a plataforma num ecossistema financeiro completo.
“A partir de agora já somos um banco em Portugal”, disse ao Jornal Económico.
“A Trade Republic era até agora em Portugal uma aplicação onde podias poupar e investir em ações, ETF, etc, mas agora lançamos uma conta corrente através da qual os portugueses poderão, através dessa conta pagar as suas faturas, receber salários, usar o seu cartão, através da conta em Portugal”, referiu Pablo López.
Pablo López, Regional Manager da Trade Republic, explica em entrevista ao Jornal Económico, que “a partir de agora lançamos uma conta corrente real. Isto significa que todos os portugueses poderão utilizar a Trade Republic para pagar as suas contas, receber o salário, usar o cartão e gerir o seu dia a dia através de um sistema local com IBAN português”.
“A sucursal será em Lisboa, mas não estará aberta ao público, já que toda a subscrição dos serviços é feita online, através da app. O atendimento ao cliente, realiza-se através da app, e de um número de telefone onde atendemos o cliente em português e os agentes estão em Lisboa”, disse ainda o responsável pela operação na região Ibérica e Grécia acrescentando que “abrir uma sucursal é também muito importante a nível de impostos, já que facilita toda a gestão fiscal”.
Com mais de 2,2 milhões de clientes a nível ibérico, a empresa quer posicionar-se como o “banco número um” dos utilizadores nos próximos cinco anos, deixando de ser uma mera plataforma secundária face à banca tradicional ou a outros neobancos como o Revolut.
Juros de 3% pagos mensalmente e deixam de existir tetos máximos
A par do IBAN nacional, a Trade Republic traz para o mercado uma reconfiguração na remuneração da liquidez. A plataforma passa a oferecer uma taxa de juro de 3% para novos clientes aplicável à conta à ordem remunerada — mas com uma mudança substancial face ao modelo anterior: deixam de existir tetos máximos para o saldo global.
“Nós pagamos um 3% por todo o dinheiro que está na conta de Trade Republic, e o dinheiro está seguro”, assegura o country manager em Portugal e Espanha.
“Até agora, os juros que pagávamos estavam limitados a saldos de 50 mil euros. Agora, o juro é sem limite”
“Até agora, os juros que pagávamos estavam limitados a saldos de 50 mil euros. Agora, o juro é sem limite”, clarifica o gestor que acrescenta que “se um cliente tiver um, dois ou quatro milhões de euros na conta, receberá os juros integrais da totalidade do seu dinheiro”.
Pablo López insiste na distinção jurídica deste produto face aos tradicionais produtos de poupança: dizendo que não se trata de um depósito mas apenas de uma conta corrente remunerada. “Não é um depósito, não há nenhum tipo de condição”, diz.
“O dinheiro não fica bloqueado. É uma conta corrente onde se pode colocar ou levantar dinheiro a qualquer momento, fazer transferências imediatas em segundos para outro banco português ou fazer pagamentos com o cartão”, explica Pablo López.
Os juros da conta remunerada são calculados diariamente com base no saldo de fecho e creditados na conta dos clientes de forma automática no dia 1 de cada mês. “No final, estamos, digamos, a oferecer uma das maiores propostas de juros em Portugal, são 3% sem condições, o próximo pagamento é a 1 de Agosto”, disse.
Por outro lado, e num país com forte cultura de viagens e onde soluções como o Revolut ganharam terreno pelas taxas de câmbio, a Trade Republic quer apanhar uma fatia desse mercado através do seu cartão de débito (incluindo a versão metálica Mirror).
“As comissões de moeda estrangeira são uma fonte de receita muito importante para a banca tradicional, mas nós não as cobramos”, aponta Pablo López, partilhando um teste prático que realizou recentemente numa viagem ao Japão, onde comparou o cartão da fintech com soluções da concorrência tradicional e digital. “O nosso cartão foi o que melhor taxa de câmbio ofereceu. Num gasto de mil euros numa viagem com moeda estrangeira, a diferença traduz-se em muito dinheiro poupado pelo cliente”, reforça.
A meta a cinco anos: Ser o banco número um
Com mais de 2,2 milhões de clientes a nível ibérico, a empresa traçou uma meta clara para o mercado nacional. Pablo López revelou que em Portugal têm já 200 mil clientes e querem fechar o ano com 300 mil. “Alcançámos os 200 mil clientes em Portugal. Isso significa que duplicamos o número de clientes num ano. A idade média dos clientes da Trade Republic em Portugal é de 36 anos, disse o gestor.
“Alcançámos os 200 mil clientes em Portugal, o que significa que duplicamos o número de clientes”
O objetivo é “duplicar o número de clientes em 12 meses”, disse ainda. Isto é, até julho do próximo ano terem 400 mil clientes em Portugal.
Pablo López assume que o objetivo para os próximos cinco anos em Portugal é liderar a transição na preferência dos consumidores, deixando de ser uma mera plataforma secundária face à banca tradicional ou a outros neobancos.
“A Revolut tem dois milhões de clientes em Portugal e creio que estão no top 3 dos bancos maiores em Portugal. A Trade Republic está há muito menos tempo no mercado mas estamos a crescer a um ritmo mais rápido, pelo que queremos, em 3 ou 4 anos, chegar a ser um dos cinco bancos com mais clientes em Portugal”, afirmou.
Agora o que acontece é que as pessoas têm uma conta num banco tradicional e, além disso, têm Revolut e têm Trade Republic, mas o Regional Manager diz que plano da fintech passa por inverter este paradigma a médio prazo. “Daqui a cinco anos, o objetivo em Portugal é que a Trade Republic passe a ser o banco número um dos clientes”.
Pablo López considera, no entanto, que no futuro vamos deixar de ver um mercado onde os clientes têm apenas um banco principal. “A média de bancos por clientes está a aumentar e nesse sentido será uma competição por ativos, mas como já somos a fintech europeia com mais ativos, inclusivamente acima da Revolut, acreditamos que em cinco anos, em Portugal, nos tornaremos no banco principal dos clientes”, disse.
“Em Espanha alcançamos mais de 2 milhões de clientes, temos sido o banco que mais rápido tem alcançado esse número, fomos mais rápidos que a Revolut em alcançar os dois primeiros milhões de clientes e vemos que Portugal está a seguir um ritmo muito parecido e acreditamos que vamos alcançar esse crescimento e seguramente em meses, não sei em quantos meses alcançaremos o primeiro milhão de clientes em Portugal, mas seguramente alcançaremos”, afirmou Pablo López.
Para suportar esta ambição, a Trade Republic conta com a sua licença de instituição de crédito e assume que, embora o foco atual seja a captação de de clientes e a gestão diária, “em algum momento no futuro o banco também começará a conceder crédito”.
“E depósitos já, digamos, que poderíamos também receber depósitos”, destaca.
“Juridicamente somos um banco, temos licença bancária”, explica.
A nível institucional, embora a empresa tenha licença de instituição de crédito e assuma que “em algum momento no futuro concederá crédito”, o foco imediato está na consolidação da sucursal.
A ajudar à atratividade da Trade Republic está o facto de Portugal ter uma das remunerações de depósitos mais baixas da UE. Isso tem sido o principal argumento comercial da Trade Republic junto dos portugueses. “Efetivamente somos muito conscientes que Portugal é um dos países da Europa onde os juros [dos depósitos] estão mais baixos e isso está a ajudar a crescer muito em Portugal com uma oferta competitiva que é importante para que as pessoas não percam o poder aquisitivo, nomeadamente com os níveis de inflação que estamos a viver de 3% em Portugal e por tudo o que possa ocorrer a nível macroeconómico é bom haver alternativas que deem retorno, e a Trade Republic posiciona-se como alternativa, sobretudo para aquelas pessoas que querem criar uma carteira de investimento de maneira eficiente, e com baixas comissões”, referiu.
Democratização dos mercados privados (investimento em empresas não cotadas)
A Trade Republic passou de simples corretora a plataforma de gestão de património, com acesso a Mercados Privados desde que em 2025 fez um acordo com os fundos Apollo e EQT para dar acesso a esses mercados, permitindo aos clientes investirem em empresas não cotadas em bolsa com apenas 1 euro, algo anteriormente restrito a fundos institucionais e grandes fortunas.
O Regional Manager destaca a forte adesão a produtos que antes estavam vedados ao retalho, como o acesso a mercados privados (via Apollo e EQT) e obrigações (bonds) corporativas e soberanas, passando agora a ser acessível a qualquer investidor, a partir de investimentos mínimos de apenas 1 euro.
“É uma excelente ferramenta para atrair as pessoas em Portugal que não têm quantias elevadas disponíveis para investir (…). Fazemos um esforço que as pessoas entendam as vantagens e os riscos”
Questionado sobre o perfil do investidor português, e no que toca à gestão de patrimónios e ao acesso aos mercados privados, Pablo López disse que atrai o tipo de clientes que está a entrar pela primeira vez no mercado de capitais, e que aposta no retorno a longo prazo. Os rendimentos dos investimentos em mercados privados só estão disponíveis a cada 6 meses.
“É uma excelente ferramenta para atrair as pessoas em Portugal que não têm quantias elevadas disponíveis para investir”, refere o country manager em Portugal e Espanha, sublinhando o esforço da plataforma em tornar a informação financeira compreensível através de vídeos explicativos curtos dentro da app, mitigando o habitual desinteresse pelos longos prospetos em papel.
“Fazemos um esforço para que essa informação seja entendida, seja consumida, e que as pessoas entendam as vantagens e os riscos”, disse.
O acesso do retalho a ativos antes reservados a investidores institucionais levanta sempre questões de literacia financeira e de risco de liquidez. Questionado sobre como é que a Trade Republic comunica esse risco a um cliente que investe, por exemplo, 50 euros num fundo de private equity, Pablo López explicou que seguem “a diretiva europeia MiFID (Diretiva dos Mercados de Instrumentos Financeiros) no que diz respeito aos produtos financeiros que distribuímos, nomeadamente no que toca ao acesso a Mercados Privados “.
Best Price das cotações em 30 bolsas
Por outro lado, a Trade Republic lançou, no passado dia 2 de julho, uma nova tecnologia de investimento que permite aos clientes aceder diretamente a 30 bolsas internacionais e beneficiar de um novo algoritmo de execução ao “Melhor Preço”, desenvolvido para identificar, em tempo real, o preço mais competitivo para comprar ou vender ativos.
Em simultâneo, a fintech lançou o Trading Pro, uma nova experiência web destinada a investidores ativos, que disponibiliza, sem custos adicionais, gráficos avançados, screeners, análise de carteira e dados de mercado em tempo real
A nova infraestrutura introduz ainda uma funcionalidade de “Preço Direto”, que permite aos investidores escolherem a bolsa onde pretendem executar cada ordem, incluindo mercados como a Bolsa de Madrid, Xetra, Euronext, Nasdaq ou NYSE. Até agora só estavam conectados a um mercado (o de Hamburgo) e com esta plataforma isso mudou e os clientes passam a poder ter acesso a 30 bolsas. A empresa destaca aqui o reforço da transparência e o controlo sobre as operações.
“O que vamos fazer é cada vez que executamos uma ordem de bolsa, vamos a comparar a cotação dessa ação nas várias bolsas onde está cotada, porque como saberás, uma mesma ação pode estar cotada várias bolsas, incluindo no Nasdaq, e assim vamos buscar qual é o melhor preço para oferecer”, explicou Pablo López. É o chamado “Best Price”.
“Lançamos recentemente o denominado ‘Best Price’ e também o ‘Direct Price’ e também a version web em Portugal, lançamos o acesso ao IPO da Space X. Estamos constantemente a analisar o mercado português e o que os clientes pretendem”
O responsável da Trade Republic destaca que “lançamos recentemente o denominado ‘Best Price’ e também o ‘Direct Price’ e também a version web em Portugal, lançamos o acesso ao IPO da Space X. Estamos constantemente a analisar o mercado português e o que os clientes pretendem e por isso temos produtos mais conservadores dentro da mesma aplicação, como obrigações soberanas. Mas também disponibilizam obrigações de empresas”.
Além do investimento tradicional, que agora dá acesso a 30 bolsas mundiais através de uma nova plataforma web e de um algoritmo próprio de execução de ordens, a plataforma mantém uma oferta significativa em criptoativos, disponibilizando serviços de compra, venda e staking.
Trade Republic em contacto com UE sobre a sustentabilidade do sistema de pensões
Portugal enfrenta um desafio estrutural ao nível das baixas pensões. Questionado como posiciona a Trade Republic a sua oferta de poupança e investimento face a esse problema em Portugal, Pablo López explicou que Trade Republic nasceu na Alemanha precisamente para responder a esse problema. “O problema que estamos tentando solucionar como companhia é a sustentabilidade do sistema de pensões europeu que é um tema que se passa em Espanha, em Itália, em França e em Portugal. Queremos que através de nossa plataforma todos os portugueses possam pensar em gerar património com as comissões mais baixas do mercado e em aceder ao produto que mais rentabilidade vai dar a longo prazo”.
Questionado sobre o que pensa da União da Poupança e dos Investimentos (SIU) da União Europeia, focada em finanças e mercado de capitais, Pablo López revelou que a Trade Republic está em contacto com as autoridades em Bruxelas, “dando a nossa opinião, porque somos a maior plataforma de poupança e investimento da Europa. Somos a plataforma com mais usuários e com mais ativos”.
“A Alemanha vai começar a complementar as pensões públicas com um sistema misto parecido com o da Suécia, isso nos encantaria a ver no resto dos países”
A Trade Republic quer contribuir para a reforma do sistema de pensões, e citou o caso alemão onde se está a preparar uma grande reforma da Segurança Social com um fundo de pensões ao estilo da Suécia. Pela primeira vez a Alemanha vai canalizar fundos públicos para o mercado de capitais. “A Alemanha vai começar a complementar as pensões públicas com um sistema misto parecido com o da Suécia, isso nos encantaria a ver no resto dos países”, disse.
O sistema passa por uma contribuição suplementar para a Segurança Social gradual, equivalente a 2% do salário bruto, que será canalizada para um fundo gerido centralmente e investido em títulos como ações e titulos de rendimento fixo (obrigações), com base num sistema equivalente ao adotado pela Suécia.
“Estamos perante uma revolução tecnológica como não se via há muito tempo. A IA é uma revolução mais importante do que a da própria internet na altura; estará talvez ao nível da descoberta da eletricidade, e vamos ver como vai transformar as economias mundiais”
Quanto ao panorama macroeconómico e ao impacto da tecnologia, Pablo López afasta o cenário de uma “bolha” no setor da Inteligência Artificial (IA), onde a Trade Republic tem investido ativamente. “Estamos perante uma revolução tecnológica como não se via há muito tempo. É uma revolução mais importante do que a da própria internet na altura; estará talvez ao nível da descoberta da eletricidade, e vamos ver como vai transformar as economias mundiais”.
A Trade Republic tem a sua sede principal em Berlim, na Alemanha, estando já em Londres e em Paris, onde a empresa opera através de sucursais e escritórios locais.