Quanto vão subir os juros? Talvez menos do que se pensa

As economias desenvolvidas estão há quase uma década presas num mundo de juros baixos.

Quanto vão subir os juros? Talvez menos do que se pensa
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Agora que a Reserva Federal iniciou o ciclo de aperto das taxas directoras, há uma pergunta que é feita com cada vez com mais frequência: até onde podem os juros subir? Se o leitor lida com mercados financeiros, então devia saber duas coisas. Primeiro, não é a primeira vez que a questão é colocada. Segundo, as respostas não têm primado pelo acerto.

A imagem de cima (retirada daqui) mostra a evolução das taxas de juro de longo prazo dos Estados Unidos – as yields a 10 anos (que não são a mesma coisa que a Fed funds rate, controlada pela Fed, mas da qual dependem umbilicalmente). A linha azul revela a descida ininterrupta desde os anos 90. E as restantes linhas mostram as previsões que foram sendo feitas em cada período pelos analistas da altura. Como se vê, nenhum se saiu muito bem.

Falhar uma vez é normal, mas falhanços sistemáticos são estranhos (sobretudo quando se alargam a outros domínios) . E obrigam-nos a colocar questão. O que é que estará a passar ao lado de quem ganha a vida a fazer previsões deste género?

Uma hipótese que tem vindo a ganhar força é a de uma descida estrutural da taxa de juro natural. O conceito de uma “taxa de juro natural” tem mais de 100 anos, mas foi ressuscitado e actualizado para os tempos modernos por volta de 2003, ao ponto de se ter tornado uma das traves mestradas da política monetária dos bancos centrais. A ideia fundamental é que há uma certa taxa de juro que permite manter a economia em equilíbrio, com o desemprego em torno do seu nível natural e a inflação estável. Quando as taxas de juro sobem para lá deste ideal, a economia arrefece e a inflação fica aquém do objectivo; quando as taxas de juro são inferiores, a inflação torna-se um problema.

Como é fácil de intuir, o dever do banco central é assegurar que as taxas de juro da economia oscilam mais ou menos em torno desta quimera monetária. É raro os próprios bancos centrais formularem os seus objectivos nestes termos, mas é dentro deste quadro mental que quase todos trabalham: vêem a macroeconomia como um jogo de procura e oferta, onde cumpre à autoridade monetária assegurar o equilíbrio saudável entre os dois, através da escolha criteriosa da taxa de juro que corresponde ao nível natural.

Durante muitos anos os economistas assumiram que a taxa de juro natural andaria à volta dos 2%. Mas e se a taxa de juro estiver a descer há muitos anos e ninguém tiver dado conta? Nesse caso, para assegurar a estabilidade da inflação os bancos centrais teriam manter as suas taxas directoras cada vez mais baixas. O que geraria o curioso padrão de redução secular das taxas de juro identificado no primeiro gráfico.

Esta é a hipótese de partida de Gauti Eggertson (um dos gigantes da modelização económica) e co-autores. Em To accommodate or not: the Federal Reserve’s New normal,  este grupo criou um modelo que tenta calcular a taxa de juro natural, medindo os factores do lado da procura e os factores do lado da oferta que a influenciam. E aqui entra tudo aquilo que faz com que uma economia decida investir ou poupar: o crescimento esperado da produtividade, a demografia, a dívida pública que circula nos mercados, o preço relativo dos bens de capital, etc.

Os resultados são surpreendentes. Entre os anos 70 e 2016, a taxa de juro natural desceu cerca de 4,02 pontos percentuais. Mas sem o aumento da dívida pública que ocorreu ao longo deste período, a taxa teria caído uns impressionantes seis pontos percentuais, só às custas da diminuição do ritmo de crescimento da população e do abrandamento da produtividade. Não há nada de ‘errado’ ou contranatura nos juros que vemos hoje em dia. Eles são baixos porque as circunstâncias económicas assim o ditam. A imagem de baixo mostra a decomposição da descida calculada por Eggertson e colegas:

Mias surpreendente ainda: Quando se junta todos os ingredientes na ‘misturadora’, o que de lá sai é uma taxa de juro natural real negativa: -1,6%. Isto é mais ou menos a taxa de juro real que prevalece neste momento nos Estados Unidos (sim, a taxa da Reserva Federal é positiva, mas a este valor ainda tem de ser abatida a inflação).

Ou seja, para atingir a sua meta de inflação, a Fed não pode carregar mais no travão. Se tentar apertar a política monetária mais do que o que está a fazer de momento, a economia americana corre o risco de ver a inflação desviar-se do target. O que vemos hoje em dia – a fed funds target no intervalo 0.75/1% – pode bem ser o que vamos ver nos próximos anos. Ou, como escrevem os autores:

It is a world characterised by a new normal, in which real interest rates need on average to be negative to achieve full employment.

Com o mercado a esperar algumas subidas de juros taxa para os próximos tempos, e com a Administração Trump a prometer um programa de estímulo económico, poderemos não ter de esperar muito tempo para tirar a prova dos nove.

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