Montenegro reclama legado de Cavaco e deixa críticas ao “radicalismo” do PS

No seu discurso no congresso do PSD que teve lugar este fim de semana, Luís Montenegro apelou ao eleitorado do centro, com críticas ao "radicalismo" do PS e promessas a pensionistas e professores. E aproveitou a presença de Cavaco Silva (que foi a um congresso pela primeira vez em 28 anos) para tentar ir além do passismo e assumir-se como herdeiro do mais bem sucedido líder social-democrata, que liderou o Governo durante dez anos e duas maiorias absolutas consecutivas.

Montenegro reclama legado de Cavaco e deixa críticas ao “radicalismo” do PS
António Pedro Santos / Lusa

Uma surpresa chamada Aníbal Cavaco Silva, uma promessa de aumento do rendimento mínimo para 820 euros, autocríticas e muitas “farpas” ao Partido Socialista (PS) e ao mais que provável oponente de Luís Montenegro nas eleições legislativas antecipadas do próximo dia 10 de março.

O 41º Congresso do Partido Social Democrata (PSD), que teve lugar em Almada este fim-de-semana, teve um pouco de tudo mas perante a ausência de anteriores líderes do partido, poucos esperariam que o único a aparecer fosse o antigo primeiro-ministro e Presidente da República, que desde 1995 não aparecia num congresso do partido que o levou a conquistar duas maiorias absolutas

Perto das 20h00, Cavaco Silva entrou no Complexo Municipal dos Desportos da Cidade de Almada ao som do hino do PSD e surpreendeu os congressistas que o receberam com uma ovação. “O grande estadista do século XX”, como apelidou o presidente da mesa, Miguel Albuquerque, entrou ladeado pelo presidente do partido, sem prestar declarações à comunicação social.

Em declarações citadas pelo “Novo”, Cavaco Silva desabafou que “Portugal precisa de uma mudança, que traga uma nova esperança” e que “sem essa mudança, por aquilo que tenho estudado, será impossível melhorar as condições de vida das populações e impedir que os jovens mais qualificados fujam para o estrangeiro”. “Não vim dar lições a ninguém e não quero interferir. Vim aqui para ouvir o presidente”, concluiu.

Luís Montenegro aproveitou a presença daquele que foi o líder social-democrata mais bem sucedido do ponto de vista eleitoral (Cavaco foi chefe do Governo durante dez anos, com três vitórias eleitorais consecutivas, incluindo duas maiorias absolutas), para se posicionar como herdeiro do seu legado, como que indo além da memória de Pedro Passos Coelho, que foi a grande referência do partido nos últimos anos e que alguns ainda consideram o “líder na reserva”. Esta proximidade de Montenegro ao legado de Cavaco pode também ser entendida como uma aproximação ao eleitorado do centro, juntamente com as promessas feitas a pensionistas e professores, dado que o PSD no tempo do cavaquismo era um partido com forte apoio eleitoral junto das classes médias, dos reformados e dos funcionários públicos. Elos que se quebraram, em grande parte, com os cortes aplicados pelo governo liderado por Pedro Passos Coelho, na altura da intervenção da troika, tendo o PS conquistado uma parte significativa desse eleitorado.

“A sua visão, honestidade, sensibilidade social, vontade de dar às pessoas o instrumento de que precisam para atingir os seus sonhos nas suas vidas. Esse legado, essa marca, são uma referência e uma inspiração para o que vamos fazer em Portugal. Nós vamos estar à altura do seu legado nos próximos anos em Portugal”, disse Luís Montenegro no discurso de encerramento do congresso, referindo-se a Cavaco Silva.

Pensões: Montenegro promete rendimento mínimo de 820 euros para os pensionistas até 2028

Com os olhos postos nas eleições, o líder do PSD não perdeu a oportunidade de anunciar que quer aumentar para 820 euros o rendimento mínimo garantido dos pensionistas até 2028, assegurando que o seu partido não vai cortar “um cêntimo a nenhuma pensão”.

“Vamos aumentar, de acordo com a lei, as pensões de uma forma geral, mas vamos também, de forma gradual e até ao final da legislatura, colocar a referência do complemento solidário para idosos nos 820 euros. Isto traduz-se no seguinte: até 2028, o rendimento mínimo garantido dos pensionistas portugueses será de 820 euros”, defendeu no congresso.

Luís Montenegro garantiu que os sociais-democratas querem aumentar “as pensões mais baixas” e deixou uma garantia. “O nosso objetivo é claro: não vamos cortar um cêntimo a nenhuma pensão”, assegurou. Seguro desta intenção, o líder da oposição deu a certeza de que “este objetivo é realizável” e “não coloca em causa o equilíbrio das contas públicas”.

“E para futuro, eu vejo como intercalar, para que numa legislatura seguinte, o rendimento mínimo garantido de um pensionista possa ser equivalente ao salário mínimo nacional atualizado. É um objetivo para cumprir em duas legislaturas”, concluiu.

A proposta do líder do PSD mereceu críticas de Pedro Nuno Santos. O candidato à liderança do PS considerou que “o problema das promessas do PSD, nomeadamente em matéria de pensões, é que têm um problema de falta de credibilidade”, acusou hoje o candidato a líder do PS, à chegada ao Pavilhão Municipal da Senhora da Hora, em que participa num almoço com apoiantes.

No sábado, o presidente do PSD, Luís Montenegro, afirmou que quer aumentar para 820 euros o rendimento mínimo garantido dos pensionistas até 2028, assegurando que o seu partido não vai cortar “um cêntimo a nenhuma pensão”.

Para Pedro Nuno Santos, o PSD foi “o partido que mais maltratou esse grupo de cidadãos portugueses, os pensionistas” e considerou que “é importante que nós não nos esqueçamos que Pedro Passos Coelho [ex-primeiro-ministro] tinha dito exatamente o mesmo que Luís Montenegro: que tinha feito as contas, e que em 2015 não seria necessário cortar pensões. Mas aquilo que fizeram logo a seguir às eleições foi cortar pensões”.

Socialistas, os “cristãos novos do equilíbrio das contas públicas”

Ainda na temática das contas públicas, Luís Montenegro aproveitou o Orçamento do Estado 2024 para apelidar os socialistas de “cristãos novos do equilíbrio das contas públicas”, equilíbrio esse que, no entender do presidente do PSD, foi feito à custa de mais impostos e de “engavetar investimento” nos serviços públicos.

Antecipando que o PS iria acusar o PSD como o partido que queria ir além da ‘troika’, o presidente social-democrata usou o termo “cristãos novos” para criticar os socialistas: “Quando esses cristãos novos nos vierem dizer isso, convém dizer que as contas equilibrados para o PSD são um pressuposto, uma condição da política pública, não o fim das políticas públicas”, frisou.

Mantendo o tom nessa figura de estilo, Montenegro referiu que “como normalmente acontece aos que não professam determinada fé até uma fase tardia, depois são mais fanáticos”. “Foi isso que o PS foi. As contas públicas portuguesas estão equilibradas sobretudo à custa de mais impostos e de engavetar os investimentos que eram necessários nos principais serviços públicos em Portugal”, criticou, dizendo que, nesta matéria, os sociais-democratas “não são cristãos novos, mas cristãos por convicção”.

Luís Montenegro não vê diferenças entre António Costa e os dois candidatos à liderança do PS apelidando-os de “farinha do mesmo saco” e de pertencem ao que designou de “núcleo duro disto tudo nos últimos oito anos”. Apesar de não nomear José Luís Carneiro, o líder do PSD afirmou que tanto o primeiro-ministro como o antigo ministro das Infraestruturas “podem vir agora uns com falinhas mais mansas, outros com megafone em punho, mas como diz o adágio popular são tudo farinha do mesmo saco”, acusou.

Imigração, lobbying e autocríticas

Sobre outros temas, o antigo líder da bancada parlamentar do PSD falou de imigração para se afastar do Chega: “Não podemos ter nem a porta escancarada, nem a porta fechada à chave”, disse, realçando que o “bom caminho” passa por atrair jovens estudantes estrangeiros e famílias completas.

Montenegro colocou ainda a tónica na intenção do PSD em regular a atividade lobbying em Portugal e de criminalizar o enriquecimento ilícito de forma a combater a corrupção: “Temos sobretudo de ser nós a dar o exemplo de exigência ética no exercício de cargos públicos”, afirmou.

No discurso, o líder do PSD até fez uma autocrítica e admitiu que os portugueses esperam mais de si do que aquilo que foi capaz de mostrar até agora e para isso, até prometeu estar à altura do legado de Cavaco Silva: “Também sei que as pessoas esperam mais de mim do que aquilo que eu fui capaz de mostrar até agora. Quero dizer-vos, olhos nos olhos, eu tenho noção disso”, afirmou.

com Lusa

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