Em plena crise da Boeing nos EUA, após as falhas nos aviões 737 Max – que sofreram quedas na Indonésia e na Etiópia -, na mesma semana em que a TAP anunciou o fim da operação dos aviões de longo curso Airbus A340 e em que este fabricante, através da AICEP, divulgou uma nova fábrica em Portugal, com investimento de 40 milhões de euros (ver texto ao lado), o managing director da Boeing para a Europa do Sul, António De Palmas, mostra-se prudente sobre o potencial da joint-venture com a Embraer. Em entrevista ao Jornal Económico, à margem da conferência AED Days 2019, que teve lugar esta semana em Oeiras, De Palmes afirmou que embora a parceria Boeing-Embraer ainda não tenha recebido luz verde em todas as regiões do globo, o gigante norte-americano terá de “reforçar a capacidade instalada das suas unidades industriais” para “responder à duplicação da procura de aviões nos próximos 20 anos”. E reconhece que “Portugal está bem posicionado no cluster da indústria aeronáutica”.
Conhece as fábricas da Embraer no Alentejo?
Sim, este ano fomos lá duas vezes.
Como avalia a tecnologia de produção utilizada nessas unidades?
Ficamos muito impressionados com a tecnologia utilizada na produção de peças em materiais compósitos. Mas também com o sector de produção de peças metálicas. Utilizam o state-of-the-art da tecnologia. É tudo muito moderno. A capacidade de produção destas unidades impressiona qualquer especialista.
A Boeing tem planos para potenciar a produção destas fábricas no Alentejo?
Como tenho vindo a afirmar – e voltei a fazê-lo na apresentação que fiz na conferência EAD Days no Tagus Park –, na Boeing temos sido muito cautelosos nas nossas declarações porque ainda aguardamos que a joint-venture (JV) com a Embraer seja aprovada. A operação de JV foi aprovada nos EUA, mas em outras jurisdições ainda está sob escrutínio e nós aguardamos as decisões finais, em especial na Europa, com decisão da Comissão Europeia que ainda está a avaliar todas as questões relacionáveis com este processo, o que implica mais algum tempo até produzirem as decisões finais. Nós estamos confiantes e acreditamos que é um projeto importante para toda a Europa e não apenas para Portugal, com uma boa história associada a este projeto. Mas temos de ser muito cautelosos para não interferirmos com nenhuma parte do processo em curso. É por isso que será prematuro especular sobre os planos da Boeing para a fase que poderá surgir se obtivermos todas as autorizações para a JV com a Embraer. No entanto, posso referir que a parceria com a Embraer poderá capacitar as nossas duas companhias para um posicionamento de mercado mais favorável de forma a podermos acrescentar maior valor ao nosso cliente e aos passageiros. Também nos ajudará a acelerar o crescimento na indústria aeroespacial. Atendendo à presença em Portugal da joint-venture BBC – Boeing Brasil Comercial, o mercado português fará parte desta realidade e deste universo porque todas as capacitações estão instaladas localmente, e os ganhos também. Na conferência EAD Days, o secretário de Estado da Internacionalização, Eurico Brilhante Dias, partilhou a sua visão para os próximos anos e considero isso extremamente importante, porque sabemos que teremos o apoio do Governo, o que ajudará todo o processo a ser mais rápido. Deu-nos o conforto de sabermos que tudo deverá andar depressa.
A produção da Boeing e da Embraer poderá ser segmentada pela dimensão dos aviões produzidos, cabendo à Embraer a especialização em aeronaves de médio curso e à Boeing a produção de aviões de longo curso. É esta a estratégia?
Acredito que sim. O nosso portefólio de produtos é muito complementar, e foi isso que esteve na base da proposta de JV. A nossa engenharia e as capacidades instaladas na produção de aviões são muito complementares. É isso que faz com que esta parceria seja tão interessante. Como vimos na conferência, o futuro pode ser feito de uma quantidade de novos produtos que hoje ainda não existem nesta complementaridade, como são os casos dos veículos elétricos voadores, que serão os aviões modernos especializados na mobilidade aérea dentro das zonas urbanas. A complementaridade dos nossos skills, das nossas aptidões e dos níveis de especialização da nossa produção posicionará muito bem a JV, a estratégia da parceria e as próprias duas companhias, neste novo mercado.
As projeções sobre estes novos produtos de mobilidade aérea não estarão a colocar muita ambição tecnológica junto do consumidor, quando os produtos nem sequer existem? Estamos a falar de realidade a curto prazo ou de utopias?
As tecnologias evoluem muito depressa. Neste caso não estamos a falar apenas de tecnologia, mas de termos um enquadramento económico favorável e de um modelo de negócio que faça sentido para podermos produzir estes novos produtos. Mas também precisamos de ter um ecossistema alinhado, com as certificações necessárias e as questões de segurança garantidas. A própria forma como o veículo será manobrado no tráfego aéreo é muito importante. Temos de trabalhar conjuntamente com todos os participantes neste projeto para termos a certeza que a nova mobilidade aérea urbana será mais segura que a mobilidade rodoviária tradicional. Tudo isso é muito importante. É verdade. Mas ainda é uma visão. Por isso, precisamos de ser cautelosos, sobretudo na forma como trabalhamos este tema com as autoridades que vão proceder às certificações de segurança. Só assim será possível fazer acontecer tudo isto. Mas esta será a direção que a mobilidade vai seguir no futuro próximo. Em 2040 o tráfego urbano será um dos grandes desafios que vamos enfrentar. Não será apenas um problema. Provocará crises dramáticas. Por isso temos de desenvolver a mobilidade tridimensional com tráfego aéreo. Não faltam especialistas a elaborarem soluções para este inevitável drama urbano.
A Boeing vai aumentar a sua capacidade de produção. Terá novas fábricas na Europa e, eventualmente, em Portugal?
Há cada vez mais procura por aviões comerciais. Daqui a 20 anos o número de aviões a voarem em todo o mundo vai duplicar. Serão o dobro dos que voam hoje. Isso é impressionante. Por isso precisamos de maior capacidade instalada no fabrico de aviões para respondermos ao crescimento da procura. A forma como vamos crescer vai mudar e seremos cada vez mais uma companhia global numa indústria globalizada. A parceria com a Embraer é o indicador visível de que já estamos a caminhar para sermos mais globais. Precisamos de ter as capacitações adequadas e os custos certos para suportar o crescimento da produção.
Vamos atrair novos investimentos e Portugal está muito bem posicionado nesta indústria.
O cluster português deste sector dispõe de capacidade suficiente para fornecer as fábricas da Boeing?
Será um percurso que vamos fazer em conjunto. O próximo passo será a aprovação da JV.
Depois caminharemos lado a lado. Não será tudo feito ao mesmo tempo. Teremos possibilidade de identificar processos que terão de ser reforçados. Passo a passo. Com as capacitações adequadas. Há um dado muito importante nesta questão que é o apoio que o Governo está disposto a dar ao setor. Já vimos que há uma vontade muito firme do Governo português apoiar o desenvolvimento de Portugal como país produtor da indústria aeroespacial. Isso já é um forte fator que garantirá o sucesso.