Portugal e Marrocos vão estudar autoestrada de energia debaixo do mar

Já houve intenções de estudar este projeto em 2018, mas nunca saiu da gaveta. Lisboa e Rabat vão voltar a analisar cabo submarino.

Portugal e Marrocos vão estudar autoestrada de energia debaixo do mar
Ministra do Ambiente

Portugal e Marrocos vão estudar uma autoestrada de energia subaquática, com o objetivo de criar uma interligação energética entre os dois países.

“É muito difícil ligarmo-nos a outro país, estamos em estudos e vou receber dentro de dias a ministra da Energia de Marrocos”, disse a ministra do Ambiente e da Energia na segunda-feira referindo-se à sua homóloga Leila Benali.

“Uma das questões que está em cima da mesa é a viabilidade de uma ligação elétrica a Marrocos, como Espanha tem”, acrescentou Maria da Graça Carvalho em declarações aos jornalistas após um encontro de alto nível em Paris.

“Só que estamos mais longe e temos que fazer aqui uma análise de custo-benefício. Mas é isso que queremos fazer exatamente para ver as vantagens de estarmos também ligados a Marrocos”, segundo a governante após o encontro com as suas homólogas espanhola, Sara Aagesen, e francesa, Maud Bregeon, e o comissário europeu Dan Jorgensen.

Esta autoestrada de eletricidade entre Portugal e Marrocos tem um custo total de 650 milhões de euros a dividir pelos dois países: a fatia lusa atinge os 325 milhões de euros. Esta é a conclusão de um estudo divulgado em 2022 pelo MED-TSO, a associação que junta os operadores das redes de transporte de eletricidade do Mediterrâneo, mas os valores já deverão estar desatualizados.

O cabo tem uma distância de 220 km entre as subestações de Tavira em Portugal e de B. Harchan em Marrocos, com uma capacidade de 1.000 megawatts.

Em 2018, a REN – Redes Energéticas Nacionais e a sua homóloga marroquina ONEE – Office National de l’Electricité et de l’Eau Potable foram mandatadas pelos seus governos para apresentarem uma “proposta de anteprojeto de construção e modelo de financiamento para a construção da interligação Portugal-Marrocos, com base nos resultados do estudo de viabilidade técnico-económico da interligação Marrocos-Portugal” até ao final desse ano, mas o projeto nunca saiu da gaveta.

Na altura, o presidente da REN Rodrigo Costa chegou a adiantar que a companhia tinha uma margem de até 400 milhões de euros para investir em 2021, mas o país não chegou a avançar com nenhum projeto.

Em maio de 2025, o JE revelou que tinha havido “contactos preliminares” entre Lisboa e Rabat sobre o tema, com a tutela a admitir então estudar o tema, mas não sendo algo em cima da mesa na altura.

Ministra do Ambiente foi a Paris defender autoestradas de energia

A ministra do Ambiente e da Energia foi a Paris defender mais autoestradas de energia entre a Península Ibérica e o resto da Europa.

Lisboa e Madrid defendem há mais de 20 anos um reforço das interligações entre Espanha e França via Pirineus, mas o pouco interesse francês, aliado aos custos elevados, têm feito os projetos borregar.

Maria da Graça Carvalho reuniu-se com a ministra gaulesa da Energia Maud Bregeon, com a ministra espanhola Sara Aagesen e com o comissário europeu Dan Jorgensen na segunda-feira.

O encontro tinha sido pedido por Portugal e Espanha para tentar seduzir França para o projeto. Já a Comissão Europeia serve como desbloqueadora neste processo, tentando encontrar formas de financiar o projeto.

“Viemos reafirmar o interesse no processo”, disse a ministra esta segunda-feira, adiantando que vai haver uma reunião técnica em setembro e que este “ponto estará nas agendas” nas cimeiras bilaterais, onde “será a continuação da discussão ao mais alto nível”.

No encontro desta segunda-feira em Paris, Portugal e Espanha “pediram especial atenção à Comissão Europeia” num momento de discussão do “próximo orçamento da União Europeia” para que seja dada uma “grande prioridade na área da energia no geral e em particular às redes elétricas e interligações entre França, Espanha e Portugal”.

“Tive também a oportunidade de chamar a atenção da Comissão Europeia o facto de Portugal ter feito o seu caminho: temos um lugar cimeiro de produção de energias renováveis a nível europeu”, afirmou em Paris.

“Concluímos a 10.ª interligação entre Portugal e Espanha. Atingimos a percentagem de interligação recomendada para 2030 pela Comissão Europeia, 15% com a nova interligação entre Minho e Galiza”, acrescentou.

“Estamos a responder à transição energética e à luta contra as alterações climáticas e a condições mais difíceis, porque somos uma ilha do ponto de vista de energia. É mais difícil de gerir e precisamos de muita flexibilidade, armazenamento e resiliência da rede”, segundo a ministra.

Recordou que o tema das interligações vem de 2003, tendo sido mencionado pela “primeira vez numa cimeira bilateral” pelo então primeiro-ministro Durão Barroso. Tendo havido novamente uma “grande declaração em 2015” e noutras ocasiões.

A interligação entre França e Espanha está nos 3% muito abaixo dos 15% da meta europeia. “O processo está a andar, mas ainda vai demorar. Temos gerido o nosso sistema elétrico nacional com as dificuldades de uma ilha”.

Nesse sentido, defende “financiamento especial para determinadas situações e que também tenha essa atenção em relação a Portugal”.

Questionada se o aumento da interligação com França serviria para evitar apagões, a ministra fez questão de esclarecer que o arranque do sistema “teria demorado menos tempo”. “Felizmente, tivemos duas centrais a arrancar sozinhas, conseguimos arrancar ainda antes da interligação. Se Espanha tivesse ligação mais forte com França, teria demorado menos tempo e teria ajudado Portugal ainda mais cedo. Conseguimos recuperar em 12 horas, o que para um apagão desta dimensão foi considerado uma recuperação boa”.

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