O Sul da Europa abandonou o estigma de patinho feio da economia europeia, com Portugal e Espanha a crescerem acima da média da zona euro. Se a tendência no futuro próximo é para manter, segundo as projeções das principais instituições internacionais, os analistas consultados pelo Jornal Económico (JE) também reconhecem que apesar dos dois países terem aumentado a resiliência para enfrentar uma recessão mundial, ainda estão permeáveis a riscos como o elevado endividamento.
O Produto Interno Bruto (PIB) de Portugal e Espanha cresceu 1,8% e 2,3% em termos homólogos no segundo trimestre do ano, enquanto a média dos 19 países da moeda única se fixou em 1,1%, segundo os dados provisórios do Eurostat. Também em relação aos três meses anteriores, as duas economias registaram uma expansão de 0,5% entre abril e junho, que compara com os 0,2% na zona euro.
“Esta evolução deverá manter-se. Espanha e Portugal irão continuar a crescer nos próximos dois anos muito acima da zona euro”, antecipa Ignacio de La Torre, economista-chefe da consultora espanhola Arcano.
Atualmente, a performance das taxas de crescimento das duas economias beneficiam da contração registada durante a crise, mas os factores que têm sustentado o dinamismo da economia irão continuar a ancorar a expansão, anteveem os analistas.
“Ambos os países estão a beneficiar de uma forte recuperação após a crise, do impacto de uma política monetária expansionista – os custos de financiamento caíram mais do que em outros países – e do impacto das reformas implementadas nos anos anteriores – comparada com outras economias que não melhoraram”, explica Miguel Cardoso Lecourtois, economista-chefe para Portugal e Espanha do BBVA Research.
Em termos anuais, este ano, o crescimento do PIB português e espanhol deverá, assim, superar o da zona euro pelo terceiro e quinto ano consecutivo, sublinha Rui Serra, economista-chefe do Banco Montepio. “Em termos de PIB per capita, 2019 será o sexto ano consecutivo em que Portugal e Espanha vão superar o crescimento médio da zona euro”, acrescenta.
A ameaça de uma recessão tem assombrado o panorama internacional e a contração do PIB alemão pelo segundo trimestre consecutivo levanta dúvidas sobre a resiliência da economia na zona euro, mas os analistas mostram-se confiantes na capacidade de Portugal enfrentar choques externos.
“Espera-se uma maior resiliência, uma vez que, atualmente, o setor que mais está a sofrer com o abrandamento internacional é o da indústria que, quer em Portugal (18% do VAB), quer em Espanha (17% do VAB), têm um peso inferior ao registado na Alemanha (27% do VAB)”, explica Rui Serra.
O economista-chefe do Montepio realça, ainda, que “sendo Espanha o principal parceiro comercial de Portugal, uma maior resiliência da economia espanhola comparativamente à economia europeia também deverá implicar, por via comercial, uma maior resiliência da economia portuguesa”.
Novos “gigantes exportadores”
A recuperação da saúde das economias portuguesa e espanhola beneficiou nos últimos anos particularmente da procura externa.
“Ambos os países tornaram-se gigantes exportadores por causa de um certo grau de competitividade, ambos exportam mais de 1% do PIB do que os EUA ou a China”, sublinha Ignaico de La Torre.
Rui Serra destaca o crescimento das exportações portuguesas, quer de bens, quer de serviços. No caso português, recorda que o período recessivo que Portugal atravessou terá marcado uma alteração profunda relativamente aos mercados externos da venda de bens.
“Sobretudo, a uma mudança significativa ao nível das mentalidades, com os mercados de exportações a passarem a ser uma realidade para cada vez mais empresas, que viram no mercado externo a compensação por um mercado interno que estava deprimido”, explica o economista.
É neste sentido que Bruno Fernandes, economista sénior do Santander em Portugal, destaca que os novos mercados e segmentos de negócio permitiram aumentar o peso das exportações para o PIB de 27% para níveis próximos de 50%.
“Também relacionado com o bom desempenho do setor da manufactura, o crescimento do investimento tem sido um dos desenvolvimentos mais brilhantes nas duas economias e ajudou a melhorar a competitividade”, destaca o economista-chefe do BBVA, Miguel Cardoso Lecourtois.
A importância do investimento é também destacada por Bruno Fernandes: “O novo investimento teve origem interna e externa, e tem sido direcionado em setores cujo valor acrescentado retido do produto/serviço final é superior, com especial impacto ao nível da produção de equipamentos e transporte, máquinas, propriedade intelectual e tecnologias da informação”, refere.
Para o economista-chefe do BBVA, Miguel Cardoso Lecourtois, as exportações beneficiaram ainda das reformas implementadas no mercado laboral.
“As exportações especificamente beneficiaram de mercados laboratoriais mais flexíveis. Tem sido de particular importância a expansão do setor de turismo, que apoiou a criação de empregos”, disse Miguel Cardoso Lecourtois.
A queda do desemprego tem sido uma das faces mais visíveis da dinâmica económica dos dois países, ainda que a taxa espanhola se fixe muito acima da portuguesa.
“Há uma correlação muito elevada entre a evolução da taxa de desemprego em ambas as economias”, salienta João Cerejeira, economista e especialista em questões de trabalho, recordando que o pico em Portugal é atingido no primeiro trimestre de 2013, tendo descido a partir daí até ao quarto trimestre de 2018.
O especialista recorda que, no caso espanhol, o valor máximo da taxa verificou-se no terceiro trimestre de 2013, tendo descido sempre até ao momento.
“Nota-se uma estabilização da taxa de desemprego em Portugal em torno dos 6,6% – valores mensais corrigidos de sazonalidade desde setembro de 2018, o que pode indicar que o ritmo de crescimento da economia portuguesa (abaixo dos 2%) não é suficientemente forte para provocar uma descida mas acentuada”, refere. Defende, no entanto, que é necessário “ter em conta que a taxa de crescimento do PIB de Espanha, nos últimos dois anos, foi cerca de meio ponto percentual acima da taxa de crescimento do PIB português, o que pode justificar que a tendência de descida do desemprego espanhol ainda não tenha terminado”.
Endividamento é maior risco
No entanto, os dois países não estão isentos de riscos se uma recessão atingir as principais economias mundiais. “O principal fator interno negativo e que diminui a imunidade da economia portuguesa a um eventual abrandamento económico mundial, é o ainda elevado nível de endividamento público e privado”, destaca Bruno Fernandes. O economista sénior do Santander alerta que, ainda que “os esforços de diminuição do endividamento prossigam”, as fontes de financiamento são maioritariamente externas face aos níveis baixos de poupança internos.
“Se houver uma nova crise financeira, os países cujo PIB depende muito do crescimento do crédito irão sofrer – como foi o caso de Espanha e Portugal em 2008. A boa notícia é que hoje Portugal e Espanha têm uma dependência mínima no crédito, a fim de gerar crescimento do PIB”, diz Ignacio de La Torre.
A questão principal para o economista da Arcano é se Portugal e Espanha terão capacidade de sustentar a vantagem competitiva das exportações através de aumentos de produtividade.