A valorização expressiva do rublo que se tem registado nas últimas semanas tem suscitado bastante curiosidade. Seria de esperar que a moeda de um país que depende de forma gritante das suas exportações desvalorizasse significativamente depois de ter sido alvo de sanções duríssimas, embargos de vária ordem, saída de empresas estrangeiras, exclusão de grande parte do sistema monetário internacional e que, ainda por cima, se encontra a beira do default e imerso num conflito militar sem fim à vista.
Porém, as tabelas cambiais dizem que o rublo está a valorizar 30% este ano face ao dólar, cotando em máximos de mais de 4 anos. Curiosamente, a primeira reação da moeda foi a que se poderia esperar: uma venda em pânico de ativos russos e de rublos, que provocou uma desvalorização de 38% desde o início da guerra até 7 de março. Então, o que poderá explicar este comportamento surpreendente do rublo no mercado cambial?
A primeira questão a debater é se realmente existe um mercado do rublo. E a resposta é um rotundo “não”. Um mercado eficiente pressupõe a existência de oferta e procura, tanto mais livres como o possível. Ora, na Rússia, existe atualmente um apertadíssimo controlo de capitais e de disponibilização dos ativos. Os investidores estrangeiros não podem vender os seus ativos e repatriar capitais. Os locais têm um acesso muito limitado a moeda estrangeira ou a transferir para o exterior. Ou seja, a oferta de rublos no mercado é praticamente inexistente. A isto acresce o facto de os exportadores russos serem obrigados a trocar as divisas que recebem por rublos através de bancos ligados ao Estado, gerando uma procura adicional pela moeda local. Aliás, desta forma, os exportadores recebem menos rublos do que poderiam.
Portanto, num mercado em que a oferta é muito restrita e a procura exacerbada, a consequência é a irracional valorização do rublo. Trata-se, porém, de uma cotação desfasada dos fundamentais da moeda e que representa muito pouco para além de propaganda.