Bernardo Silva Câncio, Gestão de Ativos

“Por agora”

Das duas, uma: ou as taxas de longo prazo sobem de maneira a que a curva fique mais inclinada, ou a Reserva Federal vai ter que abrandar o ritmo de subidas a não forçar a temida inversão da curva de taxas de juro.

Jerome Powell, o Chairman da Reserva Federal norte-americana, testemunhou esta semana perante o Congresso norte-americano, tendo acrescentado pouco ao que já sabemos sobre a política monetária norte-americana mas no comunicado oficial, emitido posteriormente, salientou duas palavras que geraram muito burburinho nos mercados. Powell enfatizou que “por agora” o melhor caminho para a política monetária é de subida gradual das taxas de juro.

Há alturas em que os investidores estão particularmente sensíveis aos devaneios dos banqueiros centrais, seja porque antecipam algum movimento importante por parte destes ou porque estão desconfortáveis com a incerteza em relação a determinado tópico. Esta parece ser uma dessas alturas e por isso surgiram dos quatro cantos do mundo financeiro variadas interpretações sobre as intenções que as duas novas palavras escondem. Por vezes parece que estamos perante uma obra literária, escrita por um autor que acumula em cada frase uma carga expressiva digna de profunda análise. Mas não é esse o caso.

A realidade é bem mais simples do que as múltiplas interpretações das duas novas palavras fazem transparecer. A realidade é que, muito provavelmente, nem os próprios membros do comité responsável por estabelecer as taxas de juro sabem se o ritmo de subida de taxas que está actualmente delineado vai ser adequado daqui por uns meses. As decisões do comité são mais reactivas do que preditivas, e as duas novas palavras adicionadas ao discurso de Powell transmitem isso mesmo. Que as decisões do comité estão condicionadas pelos desenvolvimentos económicos que vão surgindo.

Mas voltando ao elefante na sala, aquilo que tem deixado os investidores mais tensos. A preocupação actual é que o ritmo de subida de taxas de juro delineado pela Reserva Federal parece colidir em certa medida com a actual curvatura da curva de taxas de juro norte-americana. Se a Reserva Federal subir efectivamente as taxas de juro por mais meio ponto percentual este ano, e as taxas de juro de longo prazo não subirem o suficiente, corremos o risco de entrar num ambiente em que as taxas de juro de curto prazo são mais altas que as de longo prazo. Um pequeno pesadelo para os bancos comerciais que dependem deste diferencial para gerar margem financeira. Se os bancos comerciais sentirem que é pouco rentável conceder crédito, é natural que se retraiam de o fazer, o que por sua vez pode causar alguma contracção económica.

É uma possibilidade que tem gerado alguma tensão entre os investidores e que, pelos vistos, também está a causar alguma comichão dentro do comité do banco central. Tudo indica que, durante os próximos meses, teremos um confronto indirecto entre os mercados e o banco central. Das duas, uma: ou as taxas de longo prazo sobem de maneira a que a curva fique mais inclinada, ou a Reserva Federal vai ter que abrandar o ritmo de subidas de maneira a não forçar a temida inversão da curva de taxas de juro.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

Relacionado

Economistas desvalorizam risco de crise apesar da escalada das yields da dívida soberana a nível mundial

Economistas desvalorizam risco de crise apesar da escalada das yields da dívida soberana a nível mundial

Maria Teixeira Alves4 Set
As yields da dívida soberana de longo prazo têm vindo a subir de forma sincronizada nas principais economias desenvolvidas, com os Estados Unidos, o Japão e vários países europeus a registarem níveis não vistos em décadas. Mas os economistas ouvidos pelo Jornal Económico consideram pouco provável que a tendência desemboque numa crise, apontando antes para efeitos mais concentrados no investimento empresarial e nas contas públicas de cada país.