Paris a gostar de vinyl num poema de Oscar Niemeyer

Este edifício icónico em Paris, traçado pelo arquiteto brasileiro, raramente pode ser visitado. A 22 de março acolhe um evento que reúne DJs e milhares de vinis: Paris Loves Vinyl. Um dia apenas. Fica o alerta para os amantes de música e de arquitetura.

Paris a gostar de vinyl num poema de Oscar Niemeyer
Espace Niemeyer

O poeta da curva era um pessimista que amava a vida. Aliás, nem nunca permitiu que a dúvida deixasse semente. Sempre o afirmou. Sempre o pôs em prática. Na arquitetura que imaginou e até nos poemas que escreveu. “Não é o ângulo reto que me atrai. Nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu País, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o Universo – o Universo curvo de Einstein.” Assinado, Oscar Niemeyer.

“O Poema da Curva”, elegante, simples na aparência e complexo na essência, mostra-nos que o arquiteto brasileiro via nas linhas retas uma prisão e nas curvas a “liberação”. Niemeyer entendia a finalidade da arquitetura como expressão artística formal. Modernista, se fosse música quiçá seria Bossa Nova.

Mas tergiversamos. Importa aqui introduzir a sua filiação partidária, que o levou a exilar-se em Paris, em 1967, onde viveu perto de 20 anos. Três anos antes, um golpe militar apoiado pelos americanos derrubou o governo brasileiro. Niemeyer, que era especialmente conhecido pela nova capital, Brasília, cujo modernismo o imortalizou, não agradava à ditadura. Não pelo traço, mas pela ideologia. Filiado no Partido Comunista Brasileiro desde 1945, rapidamente ficou sem trabalho. Não se rendeu às hostilidades e mudou-se para a capital francesa, instalando-se nos Champs-Élysées.

Niemeyer pode ter abandonado o país natal, mas manteve-se firme nos seus princípios políticos. Resultado? Trabalhou pro bono no desenho e construção da sede do Partido Comunista Francês (PCF). Esta ode poética à curva erguida no 19eme arrondissement, operário até ao tutano na altura em que a nova sede do PCF ganhou forma, vai acolher, a 22 de março, o evento Paris Loves Vinyl.

Oportunidade para amantes de música e arquitetura conhecerem o espaço, que, sendo classificado como Monumento Histórico, normalmente está fechado ao público. O vasto átrio, com 1000 metros quadrados, vai receber 70 expositores de dez países. E um ‘desfile’ de mais de 100 mil vinis. Os géneros? House, Electronic, Hip Hop, RnB, Avant Garde, Jazz, Soul, Disco, Funk, Latin, Tropical, Bossa Nova, Reggae, Afro, Pop, Punk, Blues, Folk, Classical, World… e, claro, Rock e muito mais. O programa conta com labels como a Damn Good Records, Beatball Records e Rush Hour, entre outras, e uma pool de 8 DJs.

Celebrar um objeto de culto como o vinyl num edifício modernista de culto mostra o quão camaleónico é o Espace Niemeyer. Aqui se vai festejar não só um formato musical, como uma memória viva e um ritual de escuta. Einstein não desdenharia.

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