Nos últimos dias o dólar voltou a valorizar face ao euro e atingiu esta semana máximos que não se viam há 20 anos. A “paridade” – um euro valer o mesmo do que um dólar – parece estar ao virar da esquina, mesmo que a média das previsões dos principais bancos mundiais continue a apontar para uma subida do Euro/Dólar.
O dólar americano é, por estes dias, a moeda mais forte do mercado cambial. Em julho, valoriza praticamente contra todas as demais – seguramente face às principais – e até o disfuncional rublo russo, que tinha registado um primeiro semestre de subidas, está em julho a recuar cerca de 20%.
Não deixa de ser curioso que o dólar valorize quando há tantas vulnerabilidades a afetarem os Estados Unidos, isto para além da habitual narrativa de que o dólar irá perder em breve o seu lugar no sistema financeiro mundial – uma conversa que já precede a crise de 2008 e, portanto, já tem seguramente mais de 15 anos…
A economia dos EUA dá sinais de abrandamento, arrisca estagflação e os mercados financeiros apresentam perdas expressivas, quer nas ações quer nas obrigações. A hegemonia norte-americana em termos económicos e militares tem sido colocada em causa, nomeadamente pela China e as tensões sociais são evidentes e crescentes.
Para compor este ramalhete, haverá eleições intercalares em novembro que têm desfecho muitíssimo incerto, com a Administração de Joe Biden a ser vista, à esquerda e à direita, mais como parte do problema do que da solução.
Obviamente, a Europa tem muitas vulnerabilidades, desde a proximidade à guerra, à dependência energética que poderá gerar um inverno caótico, passando pela sempre instabilidade intrínseca ao desenho institucional sobre o qual assentam a UE e a UEM. Também não ajuda o facto de a Alemanha ter apresentado em maio o primeiro défice comercial em 30 anos e de o Bundesbank se opor à nova ferramenta “anti-fragmentação” anunciada pelo BCE.
Portanto, o dólar parece estar a ganhar por falta de comparência. Diga-se o que se disser, não há ainda nenhum ativo nem moeda que se compare ao dólar, sobretudo em tempos de incerteza e aversão ao risco.