Manuel Collares Pereira, Professor Catedrático, Investigador Coordenador, membro da Academia da Engenharia

Os violentos fogos na Califórnia e a construção das casas em madeira

Num edifício, o que é importante não é tanto saber se arde ou não, mas quanto tempo têm os ocupantes para sair em segurança. Um edifício em madeira oferece um tempo de resistência maior.

Uma esmagadora maioria das casas para habitação nos EUA é feita com recurso à madeira, uma matéria-prima abundante, tradicional, renovável, económica e com inúmeras outras vantagens como a de oferecer um comportamento antissísmico bom, particularmente importante na Califórnia.

A madeira aparece combinada com outros materiais, incluindo o aço para outras soluções estruturais, o betão para fundações, o tijolo para muros e paredes e outros com características isolantes térmicas e acústicas.

A construção americana de baixo custo e que conhecemos dos programas televisivos de remodelação – onde facilmente se destroem paredes e tetos – corresponde a uma construção ligeira onde há uma base em molduras de madeira, junto com materiais que ardem.

Alguns destes materiais, mesmo não ardendo, fundem-se com o calor e desaparecem, deixando de constituir qualquer tipo de barreira à propagação do fogo.

Ora, em Portugal e na Europa, não estamos a considerar a construção ligeira, tipo americana. Recorremos a componentes em madeira, que ficam embebidas na massa do edifício e ficam protegidas, capazes de resistir ao fogo e com uma resistência e solidez diferentes.

Mas então a madeira não arde? Sim, arde, mas é preciso que tenha condições e tempo para isso.

E um incêndio num edifício em betão? O betão não arde, mas o calor que se desenvolve vai afetá-lo e até mais depressa do que num edifício de madeira. O que se passa é que o calor seca o betão – o que o fragiliza – e depois aquece o aço, que o constitui e que lhe dá estrutura e resistência. O aço começa por dilatar e depois amolece, perdendo resistência, no limite, até ao colapso do edifício. Foi, aliás, o que aconteceu no World Trade Center (Torres Gémeas) em Nova Iorque, que resistiram ao embate dos aviões, mas não ao calor que se desenvolveu e amoleceu as estruturas metálicas, conduzindo ao seu desmoronamento.

Num edifício, o que é importante não é tanto saber se arde ou não, mas quanto tempo têm os ocupantes para sair em segurança. Um edifício em madeira oferece um tempo de resistência maior[1].

Com a madeira o fogo vai propagar-se de fora para dentro, queimando-a por fora e progredindo lentamente – a madeira tem uma condutibilidade térmica baixa – o que pode permitir que o fogo seja extinto e a resistência estrutural não seja afetada.  A casa fica de pé, tal como muitas árvores ficam de pé na floresta, depois de passar o incêndio que as queimou por fora.

No caso dos incêndios avassaladores da Califórnia, arderam mais casas em madeira? Certamente que sim, pois a construção ligeira em madeira é predominante nos EUA. Mas outros tipos de casas também foram destruídos.

A explicação para estes incêndios deve começar pelas profundas alterações climáticas que nós causamos, e, depois, pela falta de prevenção a nível da limpeza da floresta, a falta de estabelecimento de zonas de vegetação controlada junto das casas, a eventual falta de disponibilidade de água, a falta de instalação de meios de combate individuais ou locais para fogos [2], entre outras condicionantes.

Mas não é aceitável apontar-se o dedo a “falsos culpados” como a construção em madeira ou qualquer outra.

[1] (vídeo de Ingus Pavasars, Lituânia: Fire test: wooden house versus ordinary house)
[2] Aponta-se ainda como potencial causa de ignição, linhas de transmissão de eletricidade deficientemente mantidas, o que aumenta a sua probabilidade de queda e/ou de proximidade à vegetação combustível.

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