O final do verão coincide com a realização do emblemático simpósio (do grego symposion, que na Grécia Antiga se referia a uma festa realizada após um banquete em que se debatiam tertúlias intelectuais) de Jackson Hole, nos EUA, que junta, anualmente, proeminentes figuras dos bancos centrais mundiais, ministros das Finanças, académicos de renome e intervenientes do sistema financeiro.
Com os mercados acionistas a máximos e a economia mundial a emanar sinais positivos, sem pressões inflacionistas relevantes, destaca-se o fulgor de expansão na Europa e o maior optimismo nos emergentes que beneficiam de uma depreciação “ordenada” da divisa americana.
Jackson Hole marca o “apito final” da silly season dos mercados financeiros, na qual o otimismo generalizado permanece intocável, independentemente das tensões entre a Coreia do Norte e os EUA e após o Fórum do BCE realizado em Sintra ter contribuído para a alteração da expetativa dos investidores em torno da normalização da política monetária de alguns dos principais bancos centrais. Irá Jackson Hole acarretar um impacto similar ou traduzir-se-á num evento relativamente insípido?
Os holofotes estarão centrados em Draghi! Não deixa de ser curioso que foi, precisamente, em Jackson Hole (2014) que o presidente do BCE lançou as raízes para o plano de QE que viria a ser anunciado em 2015, pelo que se adensam as dúvidas sobre até que ponto poderá sinalizar a reversão do programa. Em Sintra, o discurso do presidente do BCE, ao citar a emergência de forças reflacionárias na Europa, acarretou um impacto transversal nas classes de ativos.
O efeito do QE tem sido favorável ao nível dos agregados maroeconómicos – inflação apresenta um incremento de 1,3% YoY nos últimos dois meses, o PIB na Zona Euro regista um crescimento em cadeia de 17 trimestres consecutivos e a taxa de desemprego situa-se a níveis pré-crise. O incremento da procura agregada não transladou para um aumento substancial do nível de preços, em resultado de fatores exógenos (custos de energia) e de ramificações estruturais do mercado de trabalho, nomeadamente a predominância de contratações a prazo.
O anúncio do plano de tapering pelo BCE mostra-se inevitável a prazo em função de: i) crescimento robusto da Zona Euro que favorece o cenário de reflação moderada; ii) suavização da fragmentação financeira via compressão de spreads de dívida Core-Periferia; iii) restrições quantitativas e qualitativas materiais subjacentes ao programa de QE – incerteza quanto à disponibilidade de activos para compra pelo BCE e proximidade de alguns emitentes do limite possível de dívida detida.
A significativa apreciação do Euro em 2017 poderá condicionar a dinâmica para o calendário de tapering previsto pelo BCE – tendo em conta os efeitos negativos sobre o vetor exportador e a pressão deflacionária que esta situação coloca sobre a economia europeia. Acreditamos que o BCE deverá optar pela definição de um roadmap para o tapering ao longo de 2018, em detrimento de decisões passo-a-passo que foram seguidas pela Fed.
A paisagem montanhosa de Jackson Hole contrasta com o verde suave do Penha Longa em Sintra, mas Draghi deverá adoptar, face ao impacto das suas palavras em Portugal, uma retórica mais prudente na àspera natureza do Wyoming. Se assim for, o mais que provável anúncio de tapering pelo BCE apenas deverá ser contemplado na reunião do BCE no final de outubro.