Portugal enfrenta hoje um paradoxo que já não podemos ignorar. Nunca tivemos tantos desafios em saúde e, ao mesmo tempo, nunca dispusemos de tantas oportunidades para os enfrentar.
A população residente ultrapassou os 11,4 milhões de pessoas, o valor mais elevado da nossa história recente. O número de utentes inscritos no SNS aproxima-se dos 10,8 milhões. Vivemos mais anos, mas também convivemos mais tempo com doenças crónicas, multimorbilidade e necessidades crescentes de cuidados de saúde. O resultado é conhecido: maior pressão sobre profissionais, hospitais, cuidados de saúde primários e orçamentos públicos.
Perante esta realidade, a discussão pública sobre a inovação terapêutica continua, demasiadas vezes, condicionada por uma visão de curto prazo: quanto custa um novo medicamento? A pergunta verdadeiramente estratégica deveria ser outra: quanto custa ao país não investir na inovação que pode evitar doença, incapacidade, internamentos e morte prematura?
Os dados mais recentes ajudam-nos a responder. Um estudo europeu realizado pelo instituto WifOR para a EFPIA conclui que, entre 2014 e 2022, a utilização de medicamentos inovadores esteve associada à redução de 1,83 milhões de anos de vida perdidos prematuramente e de 20,9 milhões de dias de internamento hospitalar em 29 países europeus. O impacto económico agregado ultrapassou os 66 mil milhões de euros, através de ganhos de produtividade, valorização do trabalho não remunerado e poupanças diretas para os sistemas de saúde.
Traduzido numa métrica simples: por cada euro investido em medicamentos inovadores, a Europa recebeu 5,67 euros de retorno económico e social.
Portugal não é exceção. Segundo o mesmo estudo, os medicamentos inovadores geraram no nosso país cerca de 1,05 mil milhões de euros em valor económico e social, incluindo mais de 700 milhões de euros em ganhos de produtividade, 195 milhões de euros associados ao trabalho não remunerado e 150 milhões de euros em poupanças de custos hospitalares. O retorno estimado foi superior a quatro vezes o investimento realizado.
Estes números desafiam uma ideia profundamente enraizada nas políticas públicas: a de que controlar o investimento em medicamentos é uma forma eficaz de controlar a despesa em saúde.
Na realidade, muitas vezes estamos apenas a deslocar custos dentro do sistema. Quando o acesso à inovação é adiado, os encargos não desaparecem. Surgem sob a forma de mais hospitalizações, mais incapacidade, mais absentismo, mais dependência e menor produtividade. Em suma, menos saúde e menos crescimento económico.
Esta reflexão é particularmente relevante no momento atual. Dados recentes mostram que os encargos do SNS com medicamentos têm crescido, em média, abaixo do crescimento nominal do PIB desde 2010. Mostram, também, que o peso do medicamento na despesa total em saúde se tem mantido relativamente estável ao longo dos anos, contrariando a perceção de que esta é a principal fonte das pressões financeiras do sistema.
Ao mesmo tempo, enfrentamos um SNS com problemas estruturais de financiamento e uma pressão assistencial crescente, refletida no aumento de consultas, de exames e restantes cuidados prestados.
A sustentabilidade do SNS não depende, por isso, de uma visão isolada sobre uma rúbrica de despesa, mas de uma compreensão mais ampla dos fatores que pressionam o sistema: demografia, envelhecimento, doença crónica, atividade assistencial e atrasos no acesso à inovação.
Num contexto como este, a inovação terapêutica deve deixar de ser encarada como uma despesa discricionária e passar a ser tratada como aquilo que verdadeiramente é: uma infraestrutura estratégica do país.
Tal como investimos em educação porque reconhecemos o seu impacto na competitividade futura, ou em infraestruturas porque sabemos que impulsionam o crescimento económico, também devemos investir em inovação em saúde porque ela protege o capital humano, reforça a produtividade e aumenta a resiliência da sociedade.
A questão torna-se ainda mais urgente no contexto europeu. Segundo o EFPIA Patient W.A.I.T Indicator, publicado em 2026, os cidadãos europeus esperam, em média, mais de 500 dias para aceder a novos medicamentos e quase metade das terapêuticas inovadoras não chega sequer a estar disponível em todos os países. Em Portugal, segundo o mesmo relatório, os tempos de acesso são igualmente preocupantes: os doentes portugueses enfrentam, em média, cerca de 839 dias para aceder a medicamentos inovadores após a sua aprovação central pelas autoridades europeias.
Simultaneamente, a Europa tem vindo a perder peso no investimento global em investigação farmacêutica para outras regiões do mundo. Portugal não pode permitir-se ficar para trás nesta corrida.
Se queremos atrair ensaios clínicos, investimento produtivo, emprego qualificado e mais investigação biomédica, precisamos de um ambiente que reconheça o valor da inovação e garanta previsibilidade aos investidores. Mas, acima de tudo, precisamos de assegurar que os doentes portugueses têm acesso atempado aos avanços científicos que já estão a transformar vidas noutros países.
Isto exige uma visão estratégica de longo prazo, assente em três prioridades.
Primeiro, acelerar o acesso às tecnologias de saúde inovadoras, reduzindo tempos de decisão e aproximando Portugal dos países europeus mais avançados.
Segundo, adotar modelos de avaliação que valorizem não apenas o impacto orçamental imediato, mas também os benefícios económicos, sociais e clínicos gerados pela inovação em saúde.
Terceiro, enquadrar a despesa em medicamentos e tecnologias de saúde numa lógica plurianual de investimento, alinhada com os desafios demográficos e epidemiológicos que o país enfrentará nas próximas décadas.
A sustentabilidade do SNS continuará a ser uma prioridade incontornável. Mas sustentabilidade não significa gastar menos: significa gastar melhor. Investir em inovação que previne doença, reduz internamentos, melhora a qualidade de vida e aumenta a produtividade dos portugueses é, precisamente, um exemplo de boa utilização dos recursos públicos.
A verdadeira escolha estratégica não é entre controlar a despesa ou investir na inovação. A verdadeira escolha é entre um sistema que reage à doença e um sistema que investe na saúde. Portugal precisa da segunda opção. E precisa dela agora.