O oceano como laboratório: Portugal cria rede de Hubs Azuis

Transformar o mar num espaço permanente de teste, dados e inovação: é essa a ambição da nova rede de Hubs Azuis, que liga ciência, indústria e tecnologia diretamente ao Atlântico. Mais do que desenvolver equipamentos, o objetivo é criar um sistema contínuo capaz de operar, aprender e gerar conhecimento em tempo real no oceano.

O oceano como laboratório: Portugal cria rede de Hubs Azuis
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Portugal está a consolidar uma rede nacional de Hubs Azuis que junta universidades, centros de investigação, laboratórios colaborativos, indústria e entidades públicas num ecossistema único dedicado ao mar. A iniciativa resulta de investimento público e europeu, incluindo o PRR e tem como objetivo criar uma infraestrutura distribuída capaz de desenvolver, testar e aplicar tecnologia oceânica em condições reais.

Em vez de um único centro, o país está a organizar vários polos especializados que funcionam como peças de uma mesma rede. A lógica é criar um sistema contínuo de inovação ligado ao Atlântico, onde se desenvolvem tecnologias, se recolhem dados e se testam soluções diretamente no mar, com impacto na economia, na ciência e até na defesa.

No Oeiras Bluetech Ocean Forum 2026 organizado pelo Fórum Oceano, esta segunda-feira, 15 de junho, no IPMA, em Algés foram apresentados os hubs azuis que já estão a ganhar forma.

No Hub Azul de Leixões, associado ao TEC4SEA do INESC TEC e coordenado por Eduardo Silva, o foco está no desenvolvimento de tecnologia para ambientes extremos e operação no mar profundo. Aqui são testados sistemas robóticos, veículos autónomos e infraestruturas de monitorização, com uma forte ligação a projetos internacionais e indústria. A ideia central passa por reduzir a distância entre protótipo e operação real, criando um ambiente onde a tecnologia é validada em condições reais do oceano.

No mesmo território, o Hub Azul Leixões 2, coordenado por João Galante no Laboratório de Sistemas e Tecnologia Subaquática, reforça a componente de engenharia subaquática e integração de sistemas. Este polo trabalha na construção e teste de equipamentos para exploração e observação do oceano, incluindo tecnologia que pode ser usada em missões científicas e industriais. A aposta passa por tornar o mar um espaço contínuo de experimentação tecnológica.

Já em Aveiro, o Hub Azul ligado à Universidade de Aveiro, segundo Fernando Ricardo, investigador daquela instituição explica que este tem uma forte base científica, centrada na investigação em oceanografia, ecossistemas marinhos e biotecnologia. Aqui o foco está na compreensão do oceano e na produção de conhecimento científico que possa ser aplicado à gestão sustentável dos recursos marinhos, reforçando a ligação entre ciência académica e impacto económico.

Em Peniche, o Hub Azul liderado por Sérgio Leandro, do Instituto Politécnico de Leiria, destaca-se pela ligação direta ao território e à formação. “Este polo trabalha na qualificação de pessoas para a economia do mar, aproximando ensino superior, investigação aplicada e setores como pescas, turismo marítimo e tecnologia. A ideia é criar competências no terreno e ligar conhecimento científico às necessidades reais da economia costeira.”

No Hub Azul Oeiras Mar, coordenado por José Guerreiro, Presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a prioridade é a observação do oceano e da atmosfera. “Este polo integra sistemas avançados de monitorização, recolha de dados ambientais e previsão meteorológica, sendo essencial para acompanhar o estado do Atlântico e responder a fenómenos extremos. É também um centro crítico para transformar dados ambientais em informação útil para políticas públicas, segurança marítima e adaptação climática.”

A sul, o Hub Azul de Olhão, liderado por Pedro Pousão, presidente do S2AQUA Colab, está focado na aquacultura e biotecnologia marinha. “O objetivo é desenvolver produção aquícola mais eficiente e sustentável, melhorar espécies e processos produtivos e reforçar a ligação entre investigação e indústria alimentar. Este polo é visto como uma peça-chave para aumentar o valor económico dos recursos vivos do mar.”

Ao longo das intervenções do painel Ecossistema de rede Hub Azul Portugal: impulsionando uma nação Bluetech, foi repetida a ideia de que estes hubs não são apenas centros de investigação, mas parte de uma infraestrutura nacional maior, financiada e coordenada para funcionar como um “sistema de sistemas” ligado ao oceano. Em alguns casos, foi mesmo sublinhada a ligação a redes internacionais de defesa e robótica marítima, incluindo cooperação com parceiros da NATO e projetos de interoperabilidade tecnológica entre países.

Outro ponto forte foi a mudança de paradigma: mais do que tecnologia, o que está em causa são dados. Os sistemas desenvolvidos permitem recolher informação contínua do oceano — ambiental, industrial e climática — que depois é usada por investigadores, empresas e entidades públicas. A lógica deixa de ser apenas “construir máquinas” e passa a ser “gerar e usar dados do mar em escala”.

No seu conjunto, os Hubs Azuis representam uma aposta estratégica em transformar o Atlântico num espaço operacional permanente de ciência e tecnologia, onde Portugal procura posicionar-se como um dos países europeus com maior capacidade de integração entre investigação, inovação e economia do mar.

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