O setor segurador é chamado a desempenhar um papel central no desenvolvimento de soluções de reforma complementar. Esta foi a ideia central da intervenção de Gabriel Bernardino, presidente da Autoridade Portuguesa de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), na conferência Seguros Summit, organizada pelo Jornal Económico. “Com efeito, um dos nossos objetivos estratégicos é precisamente “adaptar a regulação aos desafios da longevidade para promover a proteção e a autonomia dos cidadãos”. “Neste contexto, o nosso desafio é criar condições regulatórias para que o mercado responda às necessidades da longevidade, priorizando enquadramentos para a “desacumulação inteligente” da poupança, para o incremento da proteção dos tomadores de seguros de saúde, designadamente através de seguros de longo prazo e para o desenvolvimento de soluções como a hipoteca inversa, garantindo mais dignidade e autonomia aos cidadãos”, diz Gabriel Bernardino.
Em Portugal, segundo dados do Eurostat, a esperança de vida à nascença tem vindo a aumentar de forma consistente, atingindo 82,5 anos em 2024, um ano acima da média da União Europeia. Este progresso é particularmente expressivo quando recordamos que, no início da década de 1980, a esperança média de vida era de 71,5 anos. Em pouco mais de quatro décadas, ganhámos cerca de onze anos de vida. “A transformação já está em curso. O setor deixa de se limitar a cobrir riscos isolados e passa a ser chamado a apoiar trajetórias de vida mais longas, que exigem autonomia e segurança financeira ao longo do tempo. Isso implica soluções mais integradas, que combinem proteção, poupança e serviços”, acrescenta o responsável.
Para Gabriel Bernardino, uma mudança particularmente relevante é a maior proximidade entre seguros de vida e de saúde. “Com o apoio da tecnologia e dos dados, o foco desloca-se de uma lógica reativa para uma abordagem mais preventiva. Já não se trata apenas de compensar riscos, mas de ajudar a evitá-los e a promover estilos de vida mais saudáveis”. Também na poupança para a reforma surgem desafios novos. Percursos profissionais mais irregulares e maior incerteza económica exigem produtos mais flexíveis e acessíveis, que se adaptem ao longo do tempo e distribuam melhor o risco entre clientes e seguradoras.
“Ao mesmo tempo, começam a ganhar espaço soluções que integram diferentes necessidades numa só proposta, proteção em caso de morte, mas também apoio em doença, dependência ou cuidados prolongados. Estas ofertas são mais ajustadas à realidade atual, mas colocam um desafio adicional: a sua compreensão pelos consumidores, o que reforça a importância da literacia financeira e de uma comunicação clara”, sublinha o presidente da Autoridade Portuguesa de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).
A inovação tecnológica é outra peça central desta transformação. A utilização de dados e de modelos analíticos permite conhecer melhor os riscos, antecipar necessidades e personalizar soluções. Isto traduz-se em produtos mais ajustados às trajetórias individuais, mas também levanta questões importantes.
“Desde logo, a necessidade de equilibrar personalização com equidade. O uso intensivo de dados exige transparência, responsabilidade e respeito por princípios essenciais, como o acesso à proteção e a mutualização do risco. A confiança dos consumidores dependerá, em grande medida, desta capacidade de equilíbrio”, afirma Gabriel Bernardino.
Aqui, a regulação tem um papel fundamental. “Não travar a inovação, mas enquadrá-la, garantindo que se desenvolve de forma segura, justa e sustentável”.
O verdadeiro desafio será garantir que a inovação e a tecnologia são utilizadas de forma inclusiva e responsável, transformando o aumento da esperança de vida num progresso efetivo para a sociedade. “Na Europa, a resposta do setor segurador ao desafio da longevidade tem vindo a materializar-se em várias linhas de inovação complementares”, diz.
Em Portugal, o desenvolvimento tem sido mais gradual, mas já visível. “Na poupança para a reforma, têm surgido soluções mais flexíveis, que permitem não só acumular poupança, mas também utilizá-la de forma gradual, através de resgates parciais ou rendimentos ao longo do tempo”, explica Gabriel Bernardino.
Na área da saúde, alguns seguradores têm reforçado os serviços associados, com programas de prevenção, acompanhamento de doenças crónicas e telemedicina, promovendo uma gestão mais contínua da saúde ao longo da vida. Em alguns casos, estes serviços incluem também apoio domiciliário, aproximando-se de soluções mais integradas que ajudam a manter a autonomia por mais tempo.
“Nos cuidados de longa duração, apesar de ainda haver pouca oferta autónoma, começam a surgir soluções que combinam seguros com serviços de assistência, sobretudo para situações de dependência ou necessidade de cuidados em casa. Ao mesmo tempo, têm crescido as residências sénior e formas de habitação assistida, por vezes ligadas a serviços de saúde e bem‑estar. Ainda que nem sempre integradas com seguros, estas respostas apontam para uma tendência clara: a aproximação entre proteção financeira, cuidados e serviços, acompanhando melhor uma vida cada vez mais longa”, acrescenta.
Este desenvolvimento mais gradual em Portugal, continua o responsável, “reflete alguns fatores estruturais, como a menor escala do mercado, o peso ainda significativo dos sistemas públicos e níveis mais baixos de poupança de longo prazo. Ainda assim, estas condições não constituem um bloqueio, mas sim um ponto de partida diferente, que poderá moldar uma trajetória própria”.
Essa evolução passará, provavelmente, por uma combinação de fatores: maior colaboração entre setores, uso da tecnologia e desenvolvimento progressivo de soluções mais integradas. Não existe um modelo único, mas antes um caminho de adaptação à realidade do nosso mercado.
“Para que o setor segurador possa responder melhor ao desafio da longevidade, julgo relevante que sejam efetuados alguns ajustamentos no enquadramento legislativo e regulamentar. Destaco três prioridades: maior flexibilidade na fase de desacumulação dos produtos de poupança para a reforma; um enquadramento mais claro e estimulante para soluções de dependência e cuidados de longa duração; e regras que permitam aproveitar melhor o potencial dos dados e da tecnologia, garantindo simultaneamente confiança e proteção dos consumidores.
A isto soma-se a importância de facilitar a integração entre seguros e serviços, bem como de criar condições para o investimento em ativos de longo prazo ligados à economia da longevidade. No essencial, trata-se de adaptar o quadro atual, e não de o reinventar, para permitir mais inovação e melhores respostas a uma sociedade que vive cada vez mais tempo.
Em suma, o setor segurador tem uma oportunidade muito relevante: afirmar-se como um parceiro na gestão de um dos grandes riscos das sociedades modernas”.