Sónia de Sá, Professora, Universidade Autónoma de Lisboa e Universidade da Beira Interior

O Noah e a insustentável beleza trans

Será que as escolas estão preparadas para respostas às pessoas trans ou pessoas não-binárias? E as universidades? Deduzo que não. Urge iniciar esse percurso o quanto antes.

No último sábado, dia 04 de junho, as ruas da Covilhã encheram-se de cor, luta, reivindicações, alegria, esperança e muita, muita emoção. Era a primeira marcha LGBTQIA+ nesta cidade, coincidindo com o início do mês do orgulho gay. E tanto orgulho mostrou ter aquele conjunto alargado de pessoas, que, em uníssono, gritou “LBGT: não finja que não vê”; “Nem menos, nem mais: direitos iguais”; ou “Sai do passeio e vem para o nosso meio”.

Entre os membros – os muitos membros – da comunidade LGBTQIA+, simpatizantes da comunidade e ativistas pelos direitos de todas as pessoas que dela fazem parte, encontrei o Noah (nome fictício), uma pessoa transgénero, que, visivelmente emocionada, captou a minha atenção. Abeirei-me dele e, afortunadamente, pude conhecer uma parte da sua história muito intensa do alto dos seus experientes 15 anos de vida.

A conversa durou o tempo da marcha, nos intervalos dos imensos e audíveis gritos de alerta sobre as inúmeras discriminações e desigualdades de que pessoas como ele são alvo, e de orgulho de pertença a esta comunidade, tão alargada, quanto silenciada.

O Noah diz-se tão venturoso quanto sofredor. Venturoso por ter tido a liberdade – em casa e, ainda que com algumas condicionantes, na escola que hoje frequenta – para percorrer o caminho da transição, estimulante e sinuoso em doses semelhantes. E sofredor porque a assunção de uma identidade de género diferente da que a sociedade – uma espécie de entidade abstrata que dita as regras convencionadas e trata de expelir as fugas à ‘norma’ por si ditada – espera(va) dele.

“A minha saúde mental tem sido seriamente afetada, principalmente quando tento explicar às pessoas que não me reconheço neste corpo”, contou-me. “Mesmo com o apoio permanente da minha família, amigos, psicólogas, médicos e de alguns professores, sinto-me em luta diária, numa dor tão presente que me tira as forças, o ânimo e me deixa esgotado”, continuou.

Foi relativamente simples perceber que Noah é uma pessoa nutrida de amor, protegida pela família, ali ao pé, e cuidada pelos amigos, mais ou menos da sua idade, todos a tocarem pelo mesmo diapasão naquela marcha pela liberdade.

Contudo, e num simultâneo, notei nele um olhar triste, um semblante perdido, como que a pedir socorro para as tantas interrogações que a vida lhe tem colocado. “Raramente me sinto feliz, mesmo sendo amado, porque não consigo ser totalmente compreendido”, frisou cabisbaixo.

A marcha prosseguiu e o meu interlocutor revelava algo que me fez paralisar por momentos: tinha tentado suicidar-se duas vezes de formas muito sérias, que perigaram a sua vida e o seu bem-estar a curto e médio prazos. “Os pensamentos-limite tomam conta de mim e só vejo este fim como solução. Estou a ser acompanhado por uma equipa de especialistas, mas é um trabalho diário.”

Olhei para ele, trocámos um abraço demorado e emotivo, quando dei por mim a questionar-me sobre o que temos feito para a integração, apoio e auscultação cuidada das pessoas trans, de pessoas como o Noah. Rapidamente intuí que a grande maioria de nós nem sequer se propôs uma vez que fosse a pensar efetivamente sobre o tema e sobre estratégias para o encontro efetivo de soluções, envolvendo em todo o processo a comunidade.

Será que as escolas estão preparadas para respostas às pessoas trans ou pessoas não-binárias? E as universidades? Deduzo que não e antecipo um longo e atento percurso que deve ser iniciado o quanto antes. Caso contrário, estamos a dizer a pessoas como o Noah que este mundo vai continuar desajustado para elas.

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