Jorge Silva Carvalho, Analista de Estratégia, Segurança e Defesa

O bloqueio é apenas mais um passo

Nenhum acordo que resulte deste contexto será estrutural. Serão tréguas, não paz. O jogo estratégico continua: a questão já não é se haverá novo conflito, mas quando, e se Washington o conduzirá directamente ou através de Israel.

O bloqueio naval americano ao estreito de Ormuz foi uma decisão surpreendente, mas lógica para quem tem acompanhado a evolução desta guerra com alguma distância analítica. Desde o início das operações, tornou-se evidente que o objectivo de Washington nunca foi apenas degradar a capacidade militar iraniana, mas estrangular a economia do regime até Teerão não ter outra saída. O bloqueio é a confirmação mais clara dessa estratégia, o ponto de viragem em que a guerra económica se torna guerra naval.

Do ponto de vista jurídico, um bloqueio é um acto de guerra. Mas a discussão real é a da legitimidade, não apenas da legalidade. Teerão encerrou o estreito ao tráfego internacional, atacou navios comerciais e lançou minas. Pretendia cobrar dois milhões de dólares por passagem, um acto coercivo à margem da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. O bloqueio americano, embora tecnicamente ilegal, é de longe mais defensável: é selectivo, garante a liberdade de navegação aos neutros e visa restaurar o equilíbrio que o Irão rompeu.

O impacto económico é imediato: 435 milhões de dólares de dano diário para Teerão, segundo estimativas baseadas na média exportada por Kharg. Mas essa pressão tem dois propósitos. É uma alavanca negocial, enquanto fragiliza a economia iraniana de forma irreversível. Se as negociações avançarem, o bloqueio é moeda de troca; se falharem, torna-se o ponto de partida para o passo seguinte.

Donald Trump sabe que ainda não alcançou o objectivo estratégico: o controlo efectivo das cadeias logísticas do Golfo Pérsico, posição que garantiria a supremacia americana no confronto geoeconómico com a China. Ao negociar agora, reduz o impacto inflacionista global, dá fôlego aos mercados energéticos e satisfaz a sua base interna mais avessa a intervenções prolongadas. Simultaneamente, coloca o vice-presidente J. D. Vance no centro do tabuleiro. Se a negociação resultar, Vance cresce; se falhar, é ele quem absorve o custo político, deixando Trump imune a qualquer fracasso.

Nenhum acordo que resulte deste contexto será estrutural. Serão tréguas, não paz. O jogo estratégico continua: a questão já não é se haverá novo conflito, mas quando, e se Washington o conduzirá directamente ou através de Israel, o seu instrumento substituto para evitar o desgaste de uma intervenção aberta.

Se as negociações falharem, os próximos passos seguem uma lógica previsível. O controlo do estreito consolidar-se-á com a ocupação de alguma das ilhas próximas, Laraque, Qeshm ou Ormuz, todas vulneráveis e incapazes de defesa eficaz. O Irão tenta criar um canal alternativo a norte de Laraque; os Estados Unidos apenas ajustam o cerco. Kharg, por onde transita quase 90% das exportações de crude iraniano, é o destino natural para as forças anfíbias destacadas para o teatro, dotadas da capacidade exacta para o fazer. A isso poderão somar-se ataques selectivos a infra-estruturas de energia e combustível, forçando o regime a uma escolha binária: negociar ou cair.

O estreito está bloqueado. As ilhas foram mapeadas. E os Marines chegaram. O que começou como dissuasão transformou-se em ocupação, e o relógio estratégico do Golfo recomeça a contar.

Relacionado

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Reservas de gás da União Europeia estão no nível mais baixo em 15 anos

Ruben Pires3 Set
De acordo com a publicação BiGo Finance o nível de reservas de gás que a União Europeia detém nesta altura deve-se a um erro de cálculo. O bloco europeu vinha adiando as compras de gás na expetativa de que o conflito no Médio Oriente, que se iniciou em fevereiro entre Estados Unidos, Israel, e Irão, tivesse um desfecho rápido, permitindo que o gás natural vindo do Qatar voltasse a passar pelo Estreito de Ormuz a um preço mais baixo. Contudo o cenário de momento não se concretizou.