Novo Madoff? Rei das cripto destruiu império de 38 mil milhões

Investimentos errados, perdas gigantescas e o dinheiro de clientes para tapar buracos. Comparado a Bernie Madoff, o líder da FTX era um exemplo neste novo mundo, mas quando faltou o dinheiro recorreu a truques antigos. Sam Bankman-Fried, foi esta quinta-feira considerado culpado, por um júri de Nova Iorque, dos sete crimes de fraude e lavagem de dinheiro de que foi acusado.

Novo Madoff? Rei das cripto destruiu império de 38 mil milhões
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Artigo originalmente publicado na edição impressa do Jornal Económico, de 18 de novembro de 2022.

“Desculpem. F*d* tudo”. Foi assim que Sam Bankman-Fried (SBF) anunciou aos trabalhadores da FTX que algo não estava bem na bolsa de criptomoedas e que tudo iria mudar no seu mundo. A mensagem foi enviada a 10 de novembro, uma hora e meia depois de o bilionário ter anunciado que a FTX ia ser resgatada pela sua rival Binance (o que acabou por não acontecer depois de realizada uma due dilligence e de a empresa ficar na mira da justiça e reguladores).

Mas como é que um jovem de 30 anos que tinha acumulado uma fortuna de 25 mil milhões de euros em cinco anos chegou aqui? Sam Bankman-Fried tinha tudo para ser a cara da revolução das criptomoedas (e isto parece ser parte do problema, como veremos mais à frente). Filho de dois professores de direito de Stanford, o jovem de 30 anos tinha estudado Física no MIT, e em 2019 cria a bolsa de criptomoedas FTX. A sua ascensão foi meteórica: a plataforma chegou a estar avaliada em 38,5 mil milhões de euros e a sua fortuna pessoal também disparou e chegou a estar entre as 60 pessoas mais ricas do mundo para a Forbes. No seu auge, a FTX negociava entre 9,6 a 14,4 mil milhões de euros e SBF era conhecido como o “rei das cripto”.

Mas uma notícia na “CoinDesk” no início de novembro revelou ao mundo a falta de liquidez da plataforma. Uns dias depois, o CEO da Binance anunciou que a plataforma tinha vendido todas as suas criptomoedas ligadas à FTX, o que gerou uma corrida com os clientes a retirarem em pânico milhares de milhões da plataforma. Pouco depois, entrou em falência.

“O excesso de alavancagem em vários projetos cripto, bem como o resgate de outros projetos conhecidos como a Voyager criaram um buraco nas contas da FTX. As dívidas chegaram aos 9 mil milhões de euros, muito superior à liquidez apresentada pela plataforma”, disse ao JE Henrique Tomé da XTB.

Por sua vez, o analista Steven Santos destaca as “perdas pesadas” que a FTX começou a ter nos investimentos que fez em criptomoedas ou startups. “A partir de dado momento, tentaram tapar essas perdas, começaram também a utilizar dinheiro dos clientes, apostaram em publicidade, donativos políticos. Ele resgatou a Voyager e a BlockFi porque se essas casas fossem alvo de liquidação teriam de despejar todos os seus FTT [a criptomoeda da FTX], colapsando o seu valor e a plataforma acabaria por colapsar. Não havia colateral, fizeram imensas apostas que não deveriam ter feito e de alto risco”, analisa o diretor das áreas de corretagem e de plataformas de trading do banco BiG.

O caso já chegou à justiça e aos reguladores. Tanto o Departamento de Justiça, como os reguladores SEC e a CFTC já estão a investigar a queda da FTX, mas há várias dúvidas sobre o que poderá sair daqui. “É sempre difícil ajuizar a consequência legal, se vai haver consequências como aconteceu com o Bernie Madoff, até porque não é um mercado regulado. Qualquer enquadramento penal vai depender se algum daqueles produtos da FTX vai ser considerado um produto financeiro. Vai depender também de processos que clientes institucionais ou particulares possam lançar. E depende também do Ministério Público, tendo sempre a salvaguarda que o registo principal é nas Bahamas, escolhida por ter uma regulação mais leve”, segundo o analista do Banco BiG.

Depois da queda de uma das maiores bolsa de criptomoedas, a dúvida fica no ar: qual a próxima a cair? “A falência da FTX está a arrastar outras plataformas, como a BlockFi na qual a FTX tinha cerca de 250 milhões de dólares em dívida e que poderá entrar em insolvência dentro de poucos dias. Outras plataformas como a Crypto.com também correm risco devido à exposição que tinha à FTX. Ainda esta semana, a plataforma Genesis declarou falência também motivado pela exposição que tinha à FTX”, sublinha Henrique Tomé.

A queda da FTX lembrou ao mundo o guru de Wall Street que criou o maior esquema de Ponzi da história no valor de 64 mil milhões de euros, exposto pelo crash de 2008. Foi condenado a 150 anos de prisão por fraude e lavagem de dinheiro e morreu em 2021 atrás das grades. A forma como SBF se mexia bem em vários círculos, tal como Madoff, provocou também a abertura de muitas portas que acabou depois por escancarar pelos piores motivos. “Este é um caso de quebra de confiança muito grande porque não é uma pessoa qualquer. O SBF estava a ajudar a criar um enquadramento legal e regulamentar para este novo mundo. Era a pessoa mais credível aos olhos de quem está fora do mundo cripto. Agora percebemos que é uma fraude. Estamos a falar de depósitos e ativos congelados. Se ninguém conseguir comprar a FTX, os depósitos acabarão por ser perdidos. Não há nenhum fundo de garantia ou de resolução, é gravíssimo”, destaca Steven Santos.

Uma antiga reguladora dos EUA também comparou esta semana a FTX a Madoff. “Seduzir reguladores e investidores não os pode distrair de investigar e de ver o que está a acontecer. Nesse sentido, este caso assemelha-se muito ao de Bernie Madoff”, disse esta semana Sheila Bair que fez parte do regulador Federal Deposit Insurance durante a crise financeira.

Olhando para o futuro, Steven Santos considera que este caso vai servir de exemplo, considerando que o mundo das cripto “recuou cinco anos”. “Mas penso que o sector vai amadurecer e as pessoas vão ser mais rigorosas com a informação, exigindo auditorias, provas de reservas ou provas que a entidade não esta a especular com os ativos dos clientes. Eventualmente, a criação de um fundo de resolução se as grandes casas se juntarem todas, vai ser um passo gigante na segurança do sector”.

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