Náutica de recreio vale 556 milhões em Portugal mas está “esquecida” na estratégia nacional

Com um volume de negócios anual de 556 milhões de euros, a náutica de recreio em Portugal está longe do seu potencial e fora do radar do PRR. Esta quinta-feira, Mafra recebe o primeiro congresso internacional do setor.

Náutica de recreio vale 556 milhões em Portugal mas está “esquecida” na estratégia nacional
Fernando Sá náutica recreio

É um dos pilares da economia azul mas está esquecido na estratégia nacional e fora do radar do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A Náutica de Recreio em Portugal envolve mais de seis mil empresas, 10 mil trabalhadores e tem um volume de negócios de 556 milhões de euros mas está em 12.º no ranking europeu.

Sob o tema “Navegar o Futuro”, Mafra recebe esta quinta-feira, 30 de outubro, o primeiro congresso náutico internacional, promovido pela Associação Automóvel de Portugal (ACAP), um evento dedicado às temáticas do mar que reúne especialistas, decisores e entidades de referência.

O objetivo deste encontro passa por mostrar as potencialidades da náutica de recreio para a economia azul (que emprega mais de 300 mil pessoas) e apresentar o potencial de desenvolvimento da náutica de recreio em Portugal.

Em entrevista ao JE, Fernando Sá, presidente da Divisão da Náutica da ACAP, considera que o congresso náutico internacional, o maior alguma vez realizado em Portugal com mais de 450 inscritos, será uma oportunidade para abordar os desafios a nível nacional e europeu. E recorda: “A UE representa 63% das exportações mundiais de embarcações de recreio”.

 

O que espera deste primeiro congresso náutico internacional e quais as potencialidades da náutica de recreio para a economia azul, tão importante para o nosso país?

Este será o maior Congresso Náutico já realizado em Portugal, com mais de 450 inscritos, representativos dos principais players e entidades relacionadas com a Náutica de Recreio. O Congresso vai abordar os desafios a nível nacional e europeu.

Acreditamos que vai ser um ponto de viragem para a Náutica de Recreio e para que a sua importância seja reconhecida e entre no radar das entidades decisoras.

A Náutica de Recreio é um dos pilares da economia azul de que tanto se fala, mas que tem ficado esquecida na estratégia nacional, sendo desconhecido o seu peso e importância. A participação dos oradores da EY e da EBI (European Boat Industry) visam clarificar este peso e importância.

O potencial de crescimento é enorme. Por exemplo, o Valor Acrescentado Bruto por quilómetro de costa, deveria triplicar para ficar ao nível da vizinha Espanha.

Em Portugal, o turismo náutico representa cerca de 1,2% da indústria. Como é que a náutica de recreio pode contribuir de forma ainda mais significativa para o desenvolvimento económico e para o desenvolvimento de uma cultura marítima?

A Náutica de Recreio envolve mais de seis mil empresas, 10 mil trabalhadores, volume de negócios de 556 milhões de euros e um Valor Acrescentado Bruto de 188 milhões de euros. E estamos em 12.º lugar na Europa. Por comparação com a Espanha deveríamos triplicar e se formos comparar com a Itália e França, então poderemos crescer muito mais.

A indústria da náutica de recreio em Portugal é muito mais forte do que se pensa e tem potencial de crescimento. E a indústria da náutica de recreio europeia lidera a nível mundial. A UE representa 63% das exportações mundiais de embarcações de recreio e tem um rácio de 3/1 entre as exportações e importações nesta área. É uma das áreas industriais em que a UE tem os melhores rácios e lidera o mercado.

Portugal tem um enorme potencial para a náutica de recreio mas faltam infraestruturas. Atrás de uma Marina vem o imobiliário, a restauração, o turismo costeiro, os serviços náuticos, as marítimo-turísticas, etc. Portugal precisa de um plano estratégico para a náutica de recreio e precisa de simplificar o calvário das burocracias no registo das embarcações. Estes são os maiores entraves ao desenvolvimento da náutica de recreio e ao desenvolvimento desta economia.

Qual é o potencial de desenvolvimento da náutica de recreio em Portugal? Pode o PRR dar uma ajuda para alavancar esse potencial?

A Divisão Náutica de ACAP está em vias de encomendar um estudo à EY para calcular esse potencial e quantificar quanto estamos a perder. Sabemos que é muito, mas queremos quantificar esse valor.

Infelizmente nenhuma das medidas do PRR se aplicou à náutica de recreio. Existe um forte dinamismo empresarial e potencial de mercado e é crucial afetar linhas de apoio e investimento para esta área.

É crucial a definição de um Plano Estratégico para a Náutica de Recreio. A Espanha já o fez, pois há muito tempo compreendeu a importância da náutica de recreio para a criação de emprego e para o crescimento do PIB, da economia e do turismo.

O que é que a náutica de recreio precisa por parte do Governo português? Como pode o Estado facilitar o desenvolvimento deste setor?

Em primeiro lugar é preciso resolver as questões administrativas DGRM/AMN/IRN. É preciso adoptar um Simplex ao registo e transmissão de embarcações similar ao que se passa com o automóvel. A náutica de recreio está a ser estrangulada pelas burocracias e pela redundância e morosidade dos procedimentos.

Depois o Estado precisa de perceber o enorme potencial do sector, definir um Plano Estratégico para a Náutica de Recreio, viabilizar o aproveitamento das infraestruturas náuticas já existentes e fomentar e agilizar o investimento em novas infraestruturas.

Por fim afetar linhas de investimento e apoio em sintonia com a estratégia que for definida.

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