Morreu David Hockney, o pintor-fotógrafo da intimidade

Nos seus quase 90 anos de vida e 70 de carreira, David Hockney conseguiu plasmar nas telas a familiaridade que tinha com os retratados e aproximar o público dessa intimidade. Morreu aos 88 anos. Sem nunca abdicar das emoções que marcaram o seu percurso.

Morreu David Hockney, o pintor-fotógrafo da intimidade
David_Hockney

O artista britânico David Hockney, um dos artistas contemporâneos mais influentes do mundo, faleceu na sua casa, em Londres. Tinha 88 anos. E escreveu isto: “Quando Picasso pinta uma figura com três narizes ou quatro mãos, trata-se naturalmente do mesmo nariz ou da mesma mão vista várias vezes. O nosso olhar não pode deter-se num só desses aspectos, vê-se obrigado a mover-se: esse movimento está no quadro, o nosso próprio olhar capta-o.”

Apaixonava-o a ideia de contar uma história. E seguia uma regra muito simples: “Pinta as coisas que amas”.

Hockney nasceu numa cidade industrial do norte da Inglaterra, em 1937. Estudou na escola de arte local antes de mudar-se para Londres, onde frequentou a prestigiada Royal Academy of Art, em 1959. A sua Bradford natal, assim como Londres, lugares predominantemente cinzentos e chuvosos boa parte do ano, terão tido um papel fundamental no seu desejo de cor e sol.

Em meados da década de 1950, o Reino Unido assistia ao surgimento de um novo movimento nas artes. Foi ali que floresceu a Pop Art, antes de ganhar elã e novos contornos nos EUA. Entre o final da década de 1940 e início dos anos 50, artistas como Eduardo Paolozzi e Richard Hamilton começaram a incorporar materiais publicitários nos seus trabalhos, usando cores primárias ou tons existentes comercialmente. E a integrar elementos mundanos e banais nas suas obras, recorrendo a técnicas como a colagem ou a serigrafia, distanciando-se de linguagens expressionistas abstratas anteriores.

Hockney mergulhou no mundo das artes em plena efervescência desta nova linguagem. As suas primeiras criações incorporaram embalagens e objetos de consumo, caso de “Tea Painting in an Illusionistic Style”, de 1961. Também se começava a sentir a influência de Francis Bacon nas suas pinturas, com certas áreas cobertas com pinceladas vigorosas e nada controladas ou rostos distorcidos.

Em 1963, o pintor muda-se para o bairro boémio de Notting Hill, instalando-se num pequeno-apartamento-ateliê – tendo como mobília uma cama e uma cómoda –, onde pinta freneticamente de manhã à noite. Começa a ser representado pelo galerista John Kasmin, e a ser reconhecido. Viaja até Nova Iorque, onde conhece Andy Warhol, mas não se sentiu atraído pelo famoso Studio 54. Los Angeles será a sua escolha, logo em 1964. Um marco na obra do artista britânico, que ali iniciou uma série de pinturas de piscinas.

É nesta fase que Hockney passau a usar tinta acrílica, um suporte relativamente novo em comparação com a centenária tinta a óleo. A acrílica é uma tinta mais plástica, líquida, sintética, com tons vibrantes e saturados. Entre 1966 e 1972, pintou algumas das suas obras mais conhecidas, como “Peter Getting Out Of Nick’s Pool”, “A Bigger Splash” e “Portrait of an Artist (Pool with Two Figures)”.

Hockney nunca deixou de pintar pares, ou duos, mas passou a retratar pessoas reais a partir de 1968. Antes, foram sempre casais imaginários. Ao passar a pintar casais reais que eram seus amigos, começou também a incorporar ambientes domésticos, num ‘mix’ entre pintura realista e simbólica, detalhada mas estilizada, que permitia ao espetador vislumbrar a vida do seu círculo de amigos mais próximos. Partia sempre de fotografias e da observação direta. Resultado? Hockney eternizou casais que, nas maior parte dos casos, eram retratados neste contexto: um deles olhando fixamente o espetador, o outro observando o seu parceiro. Muitos desses retratos duplos eram de casais gay – uma escolha absolutamente natural para o artista que sempre afirmou conhecer-se a si próprio como homossexual. Um tema que nunca pôs em causa a sua carreira artística, mas terá sido uma exceção.

Em 2017, a Tate Modern, em Londres, organizou uma grande retrospetiva do seu trabalho, assinalando 60 anos de carreira e 80 de vida. Nesse mesmo ano, inaugurava em Veneza “82 Portraits and 1 Still-life”, retratos com poses a que Hockney se havia dedicado nos quatro anos anteriores. O método para esta “série” diferia do habitual no artista. Em vez de partir de fotografias e da observação, eram o resultado de 3 sessões de pintura de 6 horas de duração. Os retratados surgem sempre na mesma cadeira, no mesmo ambiente. O que mudava entre uma pintura e outra era a relação do artista com a pessoa retratada, e cada obra revelava mais do que apenas as características físicas do modelo. Traduzia o que ele sentia por cada uma delas.

Nos seus quase 90 anos de vida e 70 de carreira, David Hockney plasmou nas telas a familiaridade que tinha com seus retratados, permitindo ao público aproximar-se dessa intimidade. No ano passado, em abril, a Fondation Louis Vuitton, em Paris, inaugurou a maior retrospectiva alguma vez dedicada ao seu trabalho, reunindo mais de 400 obras de todas as fases de sua longa carreira.

Relacionado