O início do ano fica marcado pelo exacerbar do trade reflacionário (Trumpflation), que teve início com a vitória de Trump nas eleições presidenciais, com base na promessa de um plano de expansão fiscal sem precedentes. A expectativa quanto ao sucesso do Trumpflation já adicionou ao mercado acionista norte-americano três biliões de dólares de riqueza, mais do triplo do Border Adjusted Tax que financiará o agressivo corte de impostos. O fulgor do rally parece relevar a temática dos Animal Spirits, tendo em conta a ausência de detalhes concretos relativamente às políticas de Trump. O mês de Março, com muitas notícias, surge com renovada importância para tentarmos aferir com maior exactidão a actual “temperatura do mercado” – estaremos num momento já demasiado quente e os riscos de curto prazo serão evidentes? Em alternativa, o tema da reflação estará a ganhar tracção e à luz do sólido momento macroeconómico continuaremos a revisitar níveis máximos dos índices accionistas? Lançamos a questão: Março é tempo de perigo ou de oportunidade?
Na Europa, o foco do mercado estará centrado na reunião do BCE e sobre o que este pode ou não fazer num contexto em que a inflação de longo prazo encontra-se já relativamente próxima do target do BCE, de forma concomitante com a intensificação dos riscos políticos e o elevado nível de fragmentação financeira, verificando-se uma relação causa-efeito óbvia. A intensidade de forças diametralmente oposta entre inflaçao e riscos vigentes deverá levar o BCE a manter o status quo do programa e adotar uma retórica macro prudencial significativa. No campo político, o Brexit será formalmente iniciado, ao passo que as eleições gerais na Holanda deverão conferir momentum ao partido de extrema direita Freedom Party (riscos de Governabilidade inócuos), o que pode favorecer figuras como Marine Le Pen. No pólo oposto, a adjectivação negativa que assola Trump poderá suportar o renascimento do espectro político tradicional na Europa – veja-se a queda do AfD e a ascensão sensacional do SPD nas recentes sondagens alemãs. Imagine-se a Europa em 2018 com líderes de apelido Schulz, Macron e Renzi – cenário hipotético que cristalizaria a suprema epifania política anti-Trump!
Nos EUA, o primeiro discurso de Trump no Congresso, ainda que parco ao nível da substância, foi bem recebido pelo mercado. Além do anunciado reforço dos gastos em Defesa 54 mil milhões de dólares), destacamos a promessa de um plano de investimento infra-estrutural de 1 bilião de dólares – valor que se situa no intervalo mais elevado do consenso mas que é justificado pela componente maioritária de financiamento privado via contratos de PPP. Já a revisão do quadro fiscal continua ausente de detalhes, sendo que a prometida redução de impostos poderá ser compensada com a aplicação de tarifas sobre importações – solução que gera controvérsia, em função do impacto negativo em empresas com elevada dependência de importações e no agravamento genérico dos preços, mesmo que parcialmente mitigado com a expectativa de valorização do dólar. Noutro âmbito, vários membros do FED sinalizaram quase como inevitável a subida da taxa refi em 25 pontos base já em Março, impulsionando as taxas de curto prazo (dois anos) para valores máximos no actual ciclo de expansão, daí a observação de que Trump parece ter feito mais pelas expectativas de inflação em menos de quatro meses do que o quantitative easing da FED em quatro anos! O mercado deverá conseguir acomodar o actual ritmo de tightening descontado em 2017, mas a história pode ser diferente em 2018, caso a taxa Fed Funds aproxime-se “perigosamente” da denominada taxa neutral.
Em conclusão, parece-nos evidente que a economia líder (EUA) aproxima-se do topo do ciclo, ainda que não vislumbremos o risco de uma recessão já em 2018. No entanto, pensamos que o atual grau de complacência e o momento eufórico do mercado accionista é típico de um rally de final de ciclo (duração incerta), o qual deverá “esticar” ao limite o nível de preços, avaliação das classes de activos e a compressão dos prémios de risco. Ironicamente, poderá ser o próprio sucesso das políticas “great” de Trump que encarregar-se-á de precipitar o final do ciclo de expansão no médio prazo.