“Medidas para concentração bancária europeia simplesmente não vão dar em nada”, disse o CEO do BPI

"Não vai acontecer nada enquanto existir esta questão de que existe uma linha Europeia que basicamente é de retórica e depois os próprios países a terem a defesa das suas instituições, simplesmente não vai acontecer", sublinhou. "Preferia ver a Comissão concentrar-se em medidas concretas de simplificação regulatória e redução do seu próprio quadro de pessoal", referiu o banqueiro. Sobre a decisão do Constitucional sobre contribuições para o FdR, o BPI promete uma posição em breve.

“Medidas para concentração bancária europeia simplesmente não vão dar em nada”, disse o CEO do BPI
Cristina Bernardo

Na conferência de imprensa de apresentação dos resultados do primeiro semestre, o presidente executivo do BPI, mostrou-se cético em relação ao relatório sobre a “Competitividade do Setor Bancário” que pretende facilitar as fusões transfronteiriças dentro da União Europeia. Comentou ainda a decisão do Tribunal Constitucional relativa às contribuições para o Fundo de Resolução em resposta a um recurso judicial do BCP, dizendo que “está a analisar o tema com a sua área jurídica e tomará uma posição em breve”.

Na prática, com a sentença do Constitucional ficam em causa as liquidações das contribuições periódicas de 2013 a 2017 por terem sido fixadas pelo Banco de Portugal. A contribuição inicial mantém-se válida.

Sobre o tema da concentração bancária europeia, João Pedro Oliveira e Costa, CEO do BPI, não hesitou em dizer “acho que não vai acontecer nada”.

O CEO do BPI, banco detido pelo Caixabank respondia às perguntas do jornalistas sobre o relatório sobre a “Competitividade do Setor Bancário” que a Comissão Europeia apresentou e que defende que as intervenções nacionais em fusões bancárias impedem os bancos de adquirir escala a nível da União Europeia (UE). Bruxelas quer criar bancos maiores dentro da zona euro e este relatório vai nesse sentido.

A Comissão Europeia aponta que atualmente os bancos ficam impedidos de se expandir a nível da UE, incluindo através de fusões transfronteiriças o que afeta as suas avaliações e a sua capacidade de gerar ganhos de eficiência, limita a sua capacidade de oferecer serviços financeiros essenciais a famílias e empresas e restringe a sua capacidade de competir eficazmente nos mercados financeiros globais em atividades de banca de investimento e empresarial.

“Eu acho que não vai acontecer nada.  Por isso, não precisamos de nos preocupar com esse assunto”, disse João Pedro Oliveira e Costa.

“Não vai acontecer nada porque enquanto existir esta questão de que haver uma linha Europeia que basicamente é de retórica e depois os próprios países a terem a defesa das suas instituições”

Sobre a concentração bancária europeia, disse ainda que “concordo, no essencial, com as críticas de Miguel Maya”. Recorde-se que o presidente do BCP disse que “normalmente, estas recomendações surgem por comparação com os bancos americanos. O BCP considera que ao nível da banca de investimento global, há claramente sinergias de gestão. Nos operadores da banca de investimento, a dimensão é um tema muito relevante. Naquilo que é o nosso modelo de negócio, a banca de retalho, de proximidade, não”, disse.

“Não acredito que a proposta da Comissão Europeia venha a ter efeitos práticos, enquanto persistir a tensão entre uma retórica europeia de integração e a defesa, por cada país, das suas próprias instituições — com 27/28 autoridades da concorrência nacionais e bancos centrais. Uma fusão transfronteiriça enfrentaria obstáculos regulatórios (por exemplo, processos de fit and proper distintos em cada país) que a tornam impraticável na prática”.

“Não vai acontecer nada enquanto existir esta questão de que haver uma linha Europeia que basicamente é de retórica e depois os próprios países a terem a defesa das suas instituições, simplesmente não vai acontecer”, sublinhou.

“Preferia ver a Comissão concentrar-se em medidas concretas de simplificação regulatória e redução do seu próprio quadro de pessoal”, referiu o banqueiro.

No entanto, mais tarde acabou por admitir que considera que “há bancos a mais em Portugal”.

No relatório sobre a “Competitividade do Setor Bancário” a Comissão Europeia definiu medidas para reforçar o setor bancário europeu e apoiar o crescimento económico da zona euro e reforçar o mercado único bancário. Bruxelas defende que a Europa precisa de bancos com maior dimensão para financiar e reforçar a competitividade da economia europeia. Ou seja, que é preciso dispor de um setor bancário com a força e a escala necessárias para financiar o crescimento e as prioridades estratégicas, como a inovação, a transição ecológica e a defesa, prestando simultaneamente serviços financeiros de elevada qualidade às famílias e às empresas.

“Imparidades e cisnes negros? não vejo nenhum”

Ao contrário do CEO do Millennium BCP, o CEO do BPI não vê “cisnes negros” no horizonte.

“Não vejo, neste momento, nenhum ‘cisne negro’ no horizonte, mas reconheço a prudência do comentário de Miguel Maya. No entanto, diz, ao longo de 37 anos de carreira já vivi vários choques imprevisíveis — a Guerra do Golfo em 1990-91, a pandemia de Covid-19 — e a humanidade tem conseguido sempre ultrapassá-los”, disse.

O BPI tem 70 milhões de euros de imparidades não alocadas e foi questionado sobre o seu destino e se servem para acautelar impactos geopolíticos e macroeconómicos, mas o presidente do banco explicou que “as imparidades não alocadas, constituídas na altura da pandemia (então 130 milhões de euros), foram sendo utilizadas e mantêm-se atualmente em 70 milhões, disponíveis caso sejam necessárias”, sem relacionar isso com qualquer risco inesperado.

Na apresentação de resultados o BPI fez uma análise ao enquadramento macroeconómico. O BPI projeta um crescimento do PIB português de 1,8% em 2026, abaixo dos 2,1% antecipados antes do conflito no Médio Oriente, mas ainda assim mais favorável que os 0,7% esperados para a Zona Euro. A inflação deverá situar-se nos 2,9%, impulsionada sobretudo pela energia.

Num contexto de incerteza geopolítica e de subida dos juros pelo Banco Central Europeu, o BPI diz que se posiciona como “uma instituição sólida, com crescimento comercial acima da média, risco contido e uma estratégia clara de inovação e sustentabilidade”.

“O desafio para os próximos meses será capitalizar a subida das taxas de juro para melhorar a margem financeira, sem descurar a competitividade e a experiência do cliente num mercado cada vez mais digital”, acrescentou.

BPI sem balas de prata para crescer receitas mas rejeita aquisições

Confrontado com o facto de produto bancário do BPI continuar a cair, apesar do crescimento da carteira de crédito, e de a nova produção tender a cair ainda mais com as  novas medidas macroprudenciais. O presidente do BPI diz que não tem nenhuma “bala de prata”.

“A nossa vantagem competitiva é a equipa do BPI, cerca de 4.630 pessoas, e o esforço permanente para competir num mercado exigente, sem margens antigas nem carteiras legadas para amortizar. Ainda assim, considero positiva a estabilidade de resultados, o retorno de capital de cerca de 15% e um cost-to-income de 43% — comparativamente favorável a bancos europeus”.

BPI vai analisar conclusão do Constitucional sobre contribuições para Fundo de Resolução

O CEO do BPI, quando questionado sobre a decisão do Tribunal Constitucional relativa às contribuições para o Fundo de Resolução, disse que “está a analisar o tema com a sua área jurídica e tomará uma posição em breve”.

Recorde-se que o Tribunal Constitucional declarou inconstitucionais contribuições para o Fundo de Resolução ao dar provimento parcial ao recurso do BCP. As liquidações periódicas de 2013 a 2017 terão de ser anuladas por serem inconstitucionais. Quem pode fixar taxas é o Governo e não o Banco de Portugal.

“Dou os parabéns ao BCP por ter seguido essa linha de raciocínio e concordo com a presidente do Santander Totta quanto a não esperar tratamento diferenciado entre os bancos contribuintes”, disse o CEO do BPI que concorda com a opinião de Miguel Maya quanto à falta de um level playing field, “já que há instituições que operam em Portugal, ‘chamando-se de outra forma’, sem contribuir para os mesmos encargos — isso, sim, considero injusto.”

Por fim, quando questionado o BPI revelou que não se candidatou ao projeto euro digital. O administrador Afonso Eça disse que “não vimos interesse em participar”.

 

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O CEO revelou que o BPI tinha concedido, até ao final de junho, cerca de 1.600 milhões de euros em crédito à habitação a jovens até aos 35 anos ao abrigo da garantia pública, num total de aproximadamente 8.000 contratos. "Não acredito em nenhuma medida que consiga estabilizar os preços da habitação sem haver mais construção. Não inventem mais medidas, por favor", disse.