Pedro Braz Teixeira, Economista

Maus ventos de Espanha

As consequências económicas para Portugal das eleições espanholas não se auguram favoráveis, num cenário que já estava em deterioração.

As eleições legislativas antecipadas em Espanha continuam sem produzir um governo e, quando o conseguirem, é provável que não venha a ser estável. Por isso, poderemos ter novas eleições dentro de não muitos meses.

Este impasse ocorre no semestre em que este Estado Membro ocupa a presidência da União Europeia (UE), o que é algo que retira sempre algum foco na política doméstica. Neste momento, é mais provável termos o inverso: um executivo que não tem condições para se empenhar nos dossiers comunitários e se irá focar em garantir um resultado mais esclarecedor e promissor na próxima consulta eleitoral.

No plano interno de Espanha, a incerteza política deverá adiar algumas decisões de consumo e, sobretudo, de investimento, até porque algumas destas dependem de condições negociadas com o governo. Para os investidores, faz sentido esperar alguns meses antes de se comprometerem por vários anos.

Para além disso, outro dos elementos-chave do investimento, o financiamento, está envolto na incerteza das taxas de juro, que tanto poderão estar próximas do ponto de viragem (as de médio prazo) como poderão estar a caminho de novos máximos. Finalmente, o risco de recessão na zona euro e em Espanha continua presente, com o concomitante enfraquecimento da procura e redução das necessidades de expandir a capacidade produtiva.

Ou seja, os resultados inconclusivos eleitorais só vieram agravar um cenário que já se si não era muito favorável ao investimento e ao crescimento.

Como principal destino de exportações portuguesas e um dos principais mercados emissores de turistas estamos dependentes da evolução da economia vizinha e ficámos, assim, numa posição mais frágil.

O próprio PIB português, depois de um início do ano fulgurante, muito melhor do que o esperado, estancou subitamente no segundo trimestre, com uma variação nula em cadeia, muito pior do que o esperado. É certo que a surpresa (positiva) do primeiro trimestre foi mais intensa do que a (negativa) do segundo, pelo que a expectativa permanece mais favorável do que no princípio do ano. No entanto, os optimismos precoces do governo e do Banco de Portugal parecem agora longe de se puderem concretizar, sobretudo se considerarmos os impactos de Espanha.

Para além disso, os dados preliminares do terceiro trimestre para a zona euro têm-se mostrado negativos, tal como para Portugal. Em resumo, já estávamos numa posição desfavorável e teremos efeitos negativos adicionais de Espanha.

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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