Manuela Ferreira Leite defende que investimento público é “o possível”, embora “não o necessário”

A antiga ministra das Finanças defende que houve "10 anos de destruição", com desinvestimento público, e que podia ter havido alguns exercícios com saldo orçamental negativo, porque, por vezes, os défices são "virtuosos".

Manuela Ferreira Leite defende que investimento público é “o possível”, embora “não o necessário”
Cristina Bernardo

Manuela Ferreira Leite entende que o Governo de Luís Montenegro está a fazer “a reconstrução possível” no investimento público, embora reconheça que “não é o necessário” para “corresponder a 10 anos de destruição”. A antiga ministra das Finanças, que falava aos jornalistas à margem de uma conferência em Lisboa, sinaliza que a alternativa “seria aumentar brutalmente os impostos”.

Enquanto se cumpriram objetivos orçamentais na caminhada pós-troika, “também se conseguiu destruir os setores de apoio social que têm características sociais altamente importantes e decisivas, como são os casos da educação e da saúde”, disse a economista na conferência sobre o Orçamento do Estado organizada pela RFF Lawyers no CCB.

O problema, diz, é que “destruir é fácil”, mas “reconstruir é mais difícil, demora mais tempo”. Teria sido possível reduzir o défice “de uma forma bastante mais equilibrada, não piorando o investimento público”, conclui.

A ministra das Finanças do governo de Durão Barroso considera que, por vezes, não há problema de ter saldos orçamentais negativos. Alguns défices, “em termos económicos, são técnicos, são virtuosos”, na medida em que “sejam equilibrados”, sublinhou. “O défice orçamental, por si só, não é negativo. A forma como lá se chega é que é verdadeiramente impactante na evolução económica do país”.

“Não é que eu seja a favor de défices orçamentais, mas também sou verdadeiramente contra a forma como se atingem esses saldos”, defendeu Manuela Ferreira Leite ao avaliar as contas públicas nos últimos 10 anos. “Critico violentamente as despesas que são cortadas e que não deviam ser”.

“Sempre fui contra que a redução do défice orçamental se fizesse sem medir previamente se era conseguido através do corte de investimento, da redução da despesa superficial ou pelo abandono de determinadas funções [do Estado]”, afirmou, alertando para as “consequências negativas no funcionamento da economia, especialmente na prestação de serviços”

A economista compara mesmo com uma situação pessoal de endividamento: “Se tomasse a decisão de cortar uma despesa que atingia, nomeadamente, o nível da alimentação dos meus filhos, realmente resolvi o problema, mas deixei os meus filhos em muito mau estado”, atirou Manuela Ferreira Leite.

Relacionado