Liderança climática no restauro de ecossistemas na Indonésia, Camarões e Brasil reconhecida pelo Prémio Gulbenkian

As três personalidades que vão partilhar o prémio de um milhão de euros, poderão consolidar os seus esforços ou apoiar novos projetos de restauro, assim como “inspirar outras pessoas em todo o mundo”, como salientou a presidente do júri Angela Merkel.

Liderança climática no restauro de ecossistemas na Indonésia, Camarões e Brasil reconhecida pelo Prémio Gulbenkian
Board abd winners

Bandi “Apai Janggut”, líder da comunidade Sungai Utik (Indonésia), Cécile Bibiane Ndjebet, ativista e agrónoma (Camarões), e Lélia Wanick Salgado, ambientalista, designer e cenógrafa (Brasil) são os vencedores, ex-aequo, da 4.ª edição do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, no valor de um milhão de euros.

Ao final da tarde de hoje, 19 de julho, o júri independente, liderado pela antiga chanceler alemã Angela Merkel, justificou a escolha destas três personalidades pela sua relevância na liderança climática de mulheres e de populações indígenas, assim como pela importância do envolvimento das comunidades nos esforços de restauro ecológico.

Selecionadas dentre 143 nomeados oriundos de 55 países, representando todos os continentes, os vencedores foram escolhidos pela sua” liderança e trabalho incansável, ao longo de décadas, no restauro de ecossistemas vitais – florestas, paisagens e mangais –, e na proteção de territórios em conjunto com as comunidades locais. O seu compromisso foi o de agir localmente para restaurar e proteger os ecossistemas e a sua biodiversidade, contribuindo para um funcionamento saudável do sistema Terra e para mitigar os impactos das alterações climáticas”.

O Prémio é uma alavanca que permitirá aos vencedores reforçar a sua ação no que respeita a prevenir, travar e reverter a degradação dos ecossistemas. A presidente do Júri, Angela Merkel sublinhou, a propósito: “Acreditamos que os vencedores do Prémio vão continuar a inspirar outros e a desencadear futuras iniciativas climáticas positivas, em todo o mundo.” Isto depois de realçar que “os ecossistemas suportam toda a vida na Terra. A saúde do planeta e dos seus habitantes depende deles e só os ecossistemas saudáveis nos permitirão combater as alterações climáticas”.

O presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, António Feijó, enaltece o trabalho desenvolvido pelas personalidades escolhidas e sublinha que, para a Fundação Calouste Gulbenkian, “é um privilégio poder apoiá-los no seu esforço na proteção do planeta e da humanidade”. Tal como Angela Merkel, também considera que “as suas histórias poderão inspirar muitas outras pessoas.”

Quem são os vencedores do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2023?

Bandi “Apai Janggut” é o líder tradicional da comunidade indígena Dayak Iban Sungai Utik Long House, situada na floresta tropical de Kalimantan, no Bornéu. Bandi é conhecido como o “guardião” da floresta de Sungai Utik pelo seu combate ambiental, de décadas, contra o desmatamento ilegal, a produção de óleo de palma e os interesses corporativos. Nos últimos 40 anos, tem conduzido a sua comunidade na luta pelo reconhecimento do direito à terra que habitam. Em 2020, o governo indonésio concedeu o direito de propriedade de 9 500 hectares de terra à comunidade Dayak Iban. Esta comunidade foi também reconhecida como protetora do ambiente pelo governo indonésio e galardoada com o Equator Prize das Nações Unidas.

Cécile Bibiane Ndjebet lutou, durante mais de 30 anos, pela igualdade de género e o direito das comunidades à floresta e aos seus recursos naturais. A sua intervenção conduziu ao restauro de mais de 650 hectares de terra em estado de degradação.  Em 2021, integrou o Conselho Consultivo da UN Decade on Ecossystem Restauration. Em 2022, foi considerada Champion of the Earth for Inspiration and Action pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente e recebeu o prémio Wangari Maathai Forest Champions do Collaborative Partnership of Forests.

Cécile Ndjebet tem liderado os esforços para influenciar políticas de igualdade de género na gestão das florestas em 20 países africanos. É também membro ativo da UN Women Major Group e uma reconhecida advogada para o direito das mulheres à terra em várias redes globais. O seu trabalho inclui a mobilização das mulheres que, em zonas rurais, se dedicam ao restauro dos mangais ao longo da costa dos Camarões.

Em 2000, fundou a Cameroon Ecology, uma organização não governamental empenhada em promover a gestão dos recursos naturais, a governança local e o desenvolvimento económico. Em 2009, fundou a African Women’s Network for Community Management of Forests (REFACOF), uma rede regional de 17 países da África Central e Ocidental. É também membro da Forests Dialogue and the Civil Society Advisory Group, copresidente da Civil Society College of the Congo Basin Forest Partnership e membro de outros grupos multilaterais e de iniciativas focadas na conservação e restauro da floresta e na igualdade de género.

Lélia Wanick Salgado é uma ambientalista, designer e cenógrafa brasileira. Estudou arquitetura e planeamento urbanístico em Paris. O seu interesse pela fotografia surgiu em 1970 e, no final dos anos 90, Lélia e Sebastião criaram o Instituto Terra, uma organização não governamental dedicada à reflorestação, conservação e educação ambiental no Vale do Rio Doce, Brasil. A instituição, localizada na floresta tropical da Mata Atlântica, já plantou quase três milhões de árvores e tornou-se uma referência mundial em termos de restauro dos ecossistemas e de recuperação e preservação ambientais.

Contribuir para o progresso na luta contra as alterações climáticas

O Prémio Gulbenkian para a Humanidade tornou-se um marco internacional em apenas quatro anos. Os números, que falam por si: 508 nomeações, provenientes de 82 países, sendo que 64% das nomeações nesta edição são originárias do hemisfério sul.

O combate às alterações climáticas não é um mero soundbyte, mas sim um desígnio que a Fundação Calouste Gulbenkian abraçou com seriedade, empenho e convicção. Daí que a 4.ª edição do Prémio seja uma oportunidade para a instituição reforçar o seu compromisso para com a urgência da ação climática, no sentido de acelerar a transição para uma sociedade neutra em carbono e mitigar os efeitos negativos das alterações climáticas para as pessoas, para o ambiente e para a economia.

Um dos objetivos deste Prémio é valorizar e alavancar respostas de ação climática, de elevada dimensão, que permitam acelerar a descarbonização da economia, proteger as pessoas e os sistemas naturais dos efeitos associados à crise climática e, paralelamente, sustentar o desenvolvimento sustentável para se alcançar uma sociedade mais resiliente e preparada para as alterações globais do futuro.

Nas anteriores edições, o Prémio Gulbenkian para a Humanidade, no valor de um milhão de euros, foi atribuído a Greta Thunberg, ao Global Covenant of Mayors for Climate & Energy, e à Plataforma Intergovernamental Ciência-Política sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas e ao Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (ex-aequo).

Um legado, um júri independente e um apelo que se mantém atual

Se este é um Prémio que celebra o engenho humano na busca de soluções para problemas prementes da Humanidade, como é o caso das alterações climáticas, o mesmo constitui, igualmente, uma homenagem ao trabalho e anseios do fundador da instituição, Calouste Sarkis Gulbenkian.

O homem que fez grande parte da sua fortuna com o petróleo do Médio Oriente, mas que não se via a si mesmo como um “homem do petróleo”, encarava a filantropia, assim como outros empresários do seu tempo, como um dever. Calouste Gulbenkian, ciente de que os indivíduos só podem ter impacto se trabalharem em conjunto, definiu que a Fundação por si instituída deveria pautar a sua atuação de forma a “beneficiar toda a humanidade”.

O Júri do Prémio Gulbenkian para a Humanidade faz jus a esse repto, colocando pessoas e instituições no centro das soluções necessárias para o combate às alterações climáticas, e celebrando aqueles que tomam iniciativa. Presidido pela antiga chanceler alemã Angela Merkel, o Júri tem como vice-presidente Miguel Araújo, Professor Investigador no Museu Nacional de Ciências Naturais, em Madrid e Catedrático de Biogeografia na Universidade de Évora.

Integra, também, individualidades de diferentes áreas, como Miguel Arias Cañete, Comissário Europeu para a Energia e a Ação Climática entre 2014 e 2019, que liderou as negociações do Acordo de Paris por parte da União Europeia; Sandra Díaz, Professora na Universidade Nacional de Córdoba e na CONICET, Argentina; Runa Khan, fundadora da ONG Friendship, uma organização internacional com fins sociais que apoia anualmente mais de sete milhões de migrantes climáticos; Rik Leemans, que lidera o grupo de Análise de Sistemas Ambientais (Environmental Systems Analysis), da Universidade de Wageningen, Holanda; a escritora e ambientalista Sunita Narain, Diretora do Centro de Ciência e Ambiente em Deli, Índia; Johan Rockström, Diretor do Instituto de Investigação sobre o Impacto Climático de Potsdam e Professor em Ciências do Sistema Terrestre na Universidade de Potsdam, Alemanha; e Hans Joachim Schellnhuber, Fundador e Diretor Emérito do Potsdam Institute for Climate Impact Research.

Aquando da criação deste Prémio, António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, não só congratulou a Fundação Calouste Gulbenkian pela iniciativa, como deixou um apelo à consciência de todos: governos, empresas, cidadãos.

“As alterações climáticas são uma ameaça existencial para a Humanidade. Devido à ação humana, a temperatura média global já aumentou 1°C, provocando fenómenos climáticos extremos, a subida do nível médio do mar, a redução do gelo no Antártico, entre muitas outras mudanças. Se quisermos precaver os riscos e consequências irreversíveis no planeta e nas nossas sociedades, resultantes das alterações climáticas, temos de fazer um esforço coletivo para que a temperatura média global não aumente mais do que 1,5°C até ao final do século. Esse esforço exige o empenho de todos.

“Dos governos, é esperado que definam políticas públicas conducentes à neutralidade carbónica. Das empresas, é esperada inovação ambiental e climática. Dos cidadãos, é esperado que ajustem os seus comportamentos. E das organizações filantrópicas, é esperado que alavanquem mudanças concretas de alto impacto que, muitas vezes, não estão ao alcance de governos, empresas e cidadãos.”

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