Educação ambiental quer sair da teoria e preparar cidadãos para agir face à crise climática

Rede portuguesa de embaixadores do Pacto Climático Europeu propõe “Clima Clubes” nas escolas, disciplina obrigatória no ensino superior e formação contínua em sustentabilidade para trabalhadores. Objetivo: transformar preocupação em ação e combater a ecoansiedade.

Educação ambiental quer sair da teoria e preparar cidadãos para agir face à crise climática
Floresta Ambiente Certificada

A educação ambiental em Portugal deve dar um salto qualitativo: deixar de se centrar sobretudo na sensibilização e passar a preparar, de forma concreta, cidadãos capazes de responder aos impactos das alterações climáticas. Esta é a principal mensagem do parecer entregue à Agência Portuguesa do Ambiente (APA) pela rede nacional de embaixadores do Pacto Climático Europeu, no âmbito da revisão da Estratégia Nacional de Educação Ambiental (ENEA 2030).

Entre as propostas mais ambiciosas está a criação de uma rede nacional de “Clima Clubes” nas escolas do ensino básico e secundário, a introdução de uma unidade curricular obrigatória de “Sustentabilidade Aplicada” em todos os cursos do ensino superior e o reforço da formação em literacia climática ao longo da vida, incluindo no contexto laboral.

A lógica é clara: a transição climática exige cidadãos informados, mas também capacitados para agir. E isso implica mudanças profundas nos currículos, nas metodologias pedagógicas e na articulação entre educação formal, não formal e profissional.

Da sensibilização à capacitação

“A educação ambiental deve deixar de estar tão centrada na sensibilização para passar também a preparar os cidadãos para responderem aos impactos das alterações climáticas”, defende Sabrina Fialho, investigadora em alterações climáticas e uma das embaixadoras do Pacto Climático Europeu.

Segundo a especialista, o sistema educativo português continua demasiado focado nas causas das alterações climáticas, sem dar resposta suficiente aos desafios da adaptação. “Os currículos estão desfasados da realidade climática que o país já vive”, alerta, apontando para fenómenos cada vez mais frequentes como secas prolongadas, incêndios rurais, ondas de calor e eventos meteorológicos extremos.

A proposta dos embaixadores passa por integrar estes temas de forma transversal no ensino, promovendo abordagens multidisciplinares que envolvam áreas como História, Filosofia, Ciências e Artes. A aprendizagem deverá ser orientada por princípios de “esperança ativa”, participação cívica e capacitação para a ação.

“Clima Clubes” e aprendizagem interdisciplinar

Nos níveis básico e secundário, a criação dos “Clima Clubes” surge como uma das medidas estruturantes. Estes espaços pretendem funcionar como plataformas de aprendizagem interdisciplinar, onde os alunos possam explorar soluções para desafios ambientais concretos, participar em projetos de ciência cidadã e desenvolver competências práticas.

A ideia é aproximar o conhecimento científico da realidade quotidiana, incentivando o pensamento crítico e o envolvimento cívico desde cedo. Ao mesmo tempo, pretende-se criar um ambiente educativo que reduza sentimentos de impotência perante a crise climática.

“Quando os jovens compreendem os riscos, mas não encontram formas de agir, aumenta a ecoansiedade”, explica Sabrina Fialho. “A educação deve transformar essa preocupação em capacidade de intervenção.”

Ensino superior com disciplina obrigatória

No ensino superior, a proposta é igualmente clara: todos os estudantes, independentemente da área de formação, deverão frequentar uma unidade curricular de “Sustentabilidade Aplicada”. A medida abrange universidades e institutos politécnicos e reflete a ideia de que a sustentabilidade deixou de ser uma especialização para passar a ser uma competência transversal.

“Estamos a formar jovens para profissões que serão profundamente transformadas pelos desafios ambientais”, sublinha a investigadora, destacando setores como a agricultura, a energia ou o ordenamento do território.

Além disso, os embaixadores defendem o reforço da formação em sustentabilidade nas escolas profissionais, sobretudo nas áreas ligadas à produção agrícola, agropecuária e desenvolvimento rural.

Formação ao longo da vida e no trabalho

O parecer não se limita ao sistema educativo formal. Uma das recomendações passa por integrar a sustentabilidade nas ofertas de formação contínua disponibilizadas pelas empresas e pela Administração Pública, em linha com o dever de qualificação previsto no Código do Trabalho.

A proposta visa garantir que trabalhadores e dirigentes estejam preparados para integrar práticas sustentáveis nas suas atividades, contribuindo para a transição ecológica das organizações.

Paralelamente, é considerada “fundamental” a capacitação de técnicos e funcionários municipais, que são vistos como agentes-chave na mobilização das comunidades e na implementação de políticas locais de transição energética e adaptação climática.

Mais participação e literacia democrática

Outro eixo central do documento é o reforço da participação pública. Os embaixadores propõem aumentar a literacia dos cidadãos sobre processos de consulta pública relacionados com impactos ambientais, de forma a promover uma participação mais informada e eficaz.

A aposta na ciência cidadã e em metodologias experienciativas surge como uma forma de aproximar conhecimento, envolvimento cívico e tomada de decisão.

Combater a ecoansiedade com ação

Num contexto em que cresce a preocupação com os efeitos psicológicos da crise climática, o parecer destaca a necessidade de a educação contribuir para reduzir sentimentos de impotência e ansiedade.

A solução passa, segundo os especialistas, por promover experiências educativas que envolvam ação coletiva, participação comunitária e contacto direto com soluções concretas.

Uma estratégia para toda a sociedade

As propostas dos embaixadores do Pacto Climático Europeu refletem uma visão abrangente da educação ambiental, que vai da escola à vida profissional e envolve múltiplos atores — instituições de ensino, empresas, administração pública e sociedade civil.

No centro está a ideia de que a transição climática não se faz apenas com políticas públicas ou inovação tecnológica, mas também com cidadãos preparados, informados e capazes de agir.

A revisão da ENEA 2030 surge, assim, como uma oportunidade para redefinir o papel da educação num dos maiores desafios do século XXI: garantir que a resposta à crise climática seja não apenas eficaz, mas também inclusiva, participada e sustentável.

(veja aqui o Parecer_ENEA2030_ECP_PT_)

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