O ‘managing partner’ da PLMJ considera negativa a mediatização da Justiça e dos seus decisores, mas salienta que juízes como Carlos Alexandre estão “no olho do furacão”, sofrendo fortes pressões.
Como viu as recentes entrevistas com o juiz Carlos Alexandre? Um magistrado deve expor-se num entrevista?
Acho sempre negativo quando um magistrado se expõe em demasia.
Foi o caso?
Em algumas passagens da entrevista, houve alguma exposição. Dito isto, uma coisa é falar das situações em abstrato, outra coisa é analisar em concreto uma situação. Não tenho grandes dúvidas de que esse magistrado em concreto ou outros possivelmente em situações semelhantes vivem no “olho do furacão” e portanto estão sujeitos a uma pressão brutal.
Há muita gente interessada em derrubá-lo?
Haverá alguma. Acho que a mediatização da Justiça e a mediatização dos decisores tem bastantes inconvenientes.
É contra a ideia de “super juiz”?
Não necessariamente. Não me deixo encantar por super-homens, sejam eles super juízes, super músicos ou super atletas. Não se criam super juízes, super atletas, ou super artistas por decreto.
O que é para si um bom advogado?
Para mim, um bom advogado é aquele que presta um bom serviço ao seu cliente. É aquele que o ajuda a tomar boas decisões e evita problemas e quando eles existem, sabe resolvê-los da forma mais eficiente. É um conselheiro, um aconselhador e é um ‘problem solver’. Os advogados têm, ao longo do tempo, que mu dar de forma significativa o seu papel, porque a sociedade tem mudado, a economia tem mudado… Hoje todos temos mui ta pressa. Todos queremos re solver ontem os problemas que só vão aparecer amanhã. Es te é um problema na nossa profissão, como em qualquer outra profissão. É um problema também para os jornalistas, que podem estar à tarde calmamente a escrever uma notícia para o dia de amanhã, mas que possivelmente já vai sair tarde. Nas últimas semanas, em particular, estamos a receber pedidos de colaboração e de apresentação de propostas que são cada vez mais prementes em termos de tempo. Ainda na sexta-feira, recebi um pedido ao princípio da noite, a solicitar uma proposta – e era uma transação complicada – estivesse pronta à hora de almoço na segunda-feira.
Como é que isso se coaduna com a proverbial lentidão do nosso sistema de justiça?
Normalmente, coaduna-se bastante mal. De facto, nós temos um mundo que, como prestador de serviços jurídicos, um bocadinho esquizofrénico, porque o mundo anda cada vez mais depressa, as necessidades são cada vez mais prementes e o sistema de justiça funciona cada vez mais devagar – cada vez mais devagar é uma forma de dizer…
Funciona pior?
Não acho que funcione pior. Isto do “cada vez mais devagar” pode transmitir uma ideia errada. É um pouco como quando se vai de comboio, as árvores estão paradas, mas parece que estão a andar. O sistema de Justiça anda conforme sempre andou, mas parece que está parado porque nós estamos a andar mais rápido. Houve algumas melhorias na Justiça, mas que são claramente insuficientes para fazer face às necessidades.